Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo)

Autarquia de regime especial, vinculada à secretaria de governo que regula, controla e fiscaliza no estado os serviços de

saneamento básico de titularidade Estadual.

Nível regional Comitê de Bacia

do Alto-Tietê e PCJ

Instituições formais sob a regulação e jurisdição estatal

Composição tripartite: prefeituras, agências estaduais (incluindo usuários de água publica) e sociedade civil organizada

(incluindo usuários de água privados).

Principais atribuições: integração das instituições e programas nas bacias, aprovação dos planos de bacias, proposição de critérios de preço e valores para a cobrança da água,

planejamento da aplicação das receitas, aprovação de planos e programas relacionados a Lei de Proteção dos Mananciais (1997), proposição da (re)classificação do enquadramento dos rios (qualidade), entre outros.

Financiado pelo FEHIDRO. Suporte financeiro ocasional pelos seus membros. Subcomitês do Alto-Tietê Instituições formais subordinadas à regução do Comitê do Alto-Tietê e PCJ

Mesma composição tripartite do comitê principal.

Em adição às atribuições centrais do comitê, os subcomitês são responsáveis por regular e implementar políticas de

conservação, proteção e recuperação dos mananciais no nível local/regional.

Agência da Bacia do Alto-Tietê

Suporte técnico e administrativo para o Comitê Alto-Tietê. Entre outras atribuições, é sua competência a coleta da tarifa de água e elaboração do plano de investimento para sua utilização.

Governo Municipal

Poderes constitucionais sobre o uso da terra, drenagem urbana, oferta de água e saneamento. Secretarias municipais Relacionado à infraestrutura hídrica urbana e questões de gestão Empresas de Saneamento e Água municipais

Alguns municípios de SP não são atendidos pela SABESP e possuem sua própria empresa de saneamento, como Guarulhos, Santo André, São Caetano, Mauá e Mogi das Cruzes.

Financiados pela tarifa de água e orçamento municipal. Sem assistência técnica ou ajuda financeira do Estado.

5.5 Considerações finais

A governança dos recursos hídricos brasileiros possui um arcabouço institucional complexo. Em 2017, a Lei nº 9.433/1997 que instituiu a Política Brasileira de Recursos Hídricos e promoveu uma mudança profunda na governança hídrica do pais, completa 20 anos. Como demonstrado, a legislação paulista, e posteriormente a federal, foi um importante marco rumo a descentralização da gestão, incorporando novos atores, novas arenas e novos instrumentos de gestão. Obviamente a transição de um modelo centralizador para um modelo participativo e descentralizado ainda se mostra incompleto e necessita de avanços. Apesar do importante avanço institucional, o desafio da gestão adequada dos recursos hídricos é tarefa complexa, agravado por déficits estruturais e problemas relacionados a disponibilidade e qualidade hídrica. Tudo isso em um ambiente institucional que ainda deixa algumas lacunas nas funções, responsabilidades e competências entre os diversos atores nos três níveis institucionais. Este arranjo de governança, quando não há a definição exata pode contribuir significativamente para o agravamento de situações inesperadas (como os eventos extremos) alterando ainda mais os resultados das crises hídricas.

6 A crise de abastecimento urbano de São Paulo

“Esquecemo-nos, todavia, de um agente geológico notável — o homem. Este, de fato, não raro reage brutalmente sobre a terra e entre nós, nomeadamente, assumiu, em todo o decorrer da história, o papel de um terrível fazedor de desertos.” (Euclides da Cunha – Os Sertões)

De 2012 a 2014 os sistemas de abastecimento de água da Região Metropolitana de São Paulo foram afetados severamente por uma combinação de baixas precipitações e altas temperaturas nos períodos que normalmente são chuvosos. O maior destes (e um dos maiores do mundo), o Sistema Cantareira, produzia em níveis normais água suficiente para quase 10 milhões de pessoas praticamente secou.

Diante de um cenário como este, há a necessidade de respostas rápidas do sistema de governança para evitar situações que possam colocar em risco o abastecimento de água para a população. No entanto, quem acompanhou minimamente ou vivenciou este período certamente sentiu preocupações com a demora e inação por parte do poder público. A medida em que a situação foi se deteriorando e a eminência de um colapso hídrico da maior região metropolitana da América Latina entrou no horizonte, muitos se perguntaram como poderíamos ter chegado tão perto de uma situação catastrófica. Este capítulo inicia com uma caracterização da região e dos sistemas produtores de água. Em seguida empreende-se a descrição narrativa da crise hídrica, buscando destacar pontos importantes e de que forma dialoga com o arcabouço teórico apresentado.

6.1 Caracterização das bacias AT e PCJ

A área geográfica do estudo de caso está circunscrita às duas bacias hidrográficas principais que abastecem a região metropolitana de São Paulo e Campinas. Conforme já visto, a bacia hidrográfica se coloca como a escala adequada para estudos relacionados a recursos hídricos, devido a sua dinâmica ecológica e hidrológica, mas nem sempre as fronteiras das unidades político-administrativas e de bacias hidrográficas se coincidem, criando problemas relacionados a institutional fit (Young, 2005).

A região das bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ) possui uma área de drenagem de 14.178 km² englobando 76 municípios, sendo que 62 têm sede nas áreas de drenagem da região. Do total, 58 estão localizados em São Paulo enquanto que 4 estão em Minas Gerais. A região possui aproximadamente 5 milhões de habitantes, sendo considerada uma das mais importantes regiões do Brasil devido a sua importância econômica, representando aproximadamente 7% do PIB Nacional. O CBH dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí foi criado pela lei 7.663/91, mas a sua efetiva instalação somente ocorreu em 18 de novembro de 1993 tendo sido o primeiro Comitê de Bacia do Estado. A criação do CBH-PCJ é posterior a criação do Consórcio Intermunicipal das Bacias PCJ. O consórcio foi criado em 1989 por iniciativas dos prefeitos da região e de movimentos preocupados com os problemas da bacia hidrográfica.

A demanda por água é maior para o abastecimento público (54%), enquanto o setor industrial corresponde a 24% e uso rural 18% e outros usos 3%. Uso rural ainda é subestimado, devido à ausência de cadastro total destes usuários. De 2006 a 2015, foram arrecadados R$ 162.055.125,22 (54,85%) através da cobrança federal, R$ 132.870.851,36 (44.97%) da cobrança paulista, e R$ 538.272,03 (0,18%) da cobrança mineira, totalizando R$ 295.464.248,61. A cobertura de rede para esgotamento sanitário evoluiu significativamente na Bacia PCJ, chegando a 92,3%. No entanto, o índice de tratamento ainda está aquém do necessário com apenas 62,7% do esgoto sendo tratado (Comitê AT, 2015.

Para redução da criticidade hídrica e aumento da segurança hídrica na Bacia PCJ, o Plano de Bacias 2010-2020 vislumbrava ações principalmente ligadas ao aumento da oferta hídrica. Tais ações são desdobramentos de estudos anteriores, como realizado pela Petrobrás como contrapartida para o aumento da captação para a Refinaria de Paulínia (Replan) em 2007. O levantamento destacou 12 possibilidades de aumento da oferta hídrica, com a construção de barragens, sendo as represas de Duas Pontes (Rio Camanducaia) e Pedreira (Rio Jaguari) escolhidas como alternativas mais viáveis. Os estudos hidrológicos atestam que conjuntamente poderiam elevar a disponibilidade hídrica em 9m³/s. Com a crise hídrica, o comitê PCJ atuou de forma ativa para construção

destas barragens até conseguir garantias de que o governo iria iniciar a construção das mesmas.

A bacia do Alto Tietê (AT) possui área territorial de 6.570 km2 com uma área de drenagem de 5.868 km2. É uma das áreas mais populosas do país, concentrando mais de 20 milhões de habitantes com 99% desta população vivendo nas áreas urbanas de 40 municípios. A disponibilidade hídrica superficial é de 84 m3/s e de 11m3/s subterrânea. A região apresenta ainda 1.773 km2 de vegetação natural remanescente, e possui importantes unidades de conservação de proteção integral, além de 4 terras indígenas (Comitê AT, 2015). Os maiores problemas relativos aos recursos hídricos podem ser definidos como a ocupação desordenada e irregular das áreas de mananciais (mesmo após a criação da Lei de Áreas de Proteção e Recuperação de Mananciais24), uso e ocupação do solo predominantemente urbano e poluição elevada dos corpos hídricos. A disponibilidade hídrica da região é extremamente crítica, como demonstrado na Figura 14.

24 A Lei 9.866, conhecida como Lei Estadual de Proteção dos Mananciais foi promulgada em 1997 e cria uma série

de instrumentos e normas que objetivam regular, proteger e recuperar os mananciais de abastecimento público do estado. Para maiores detalhes, consultar Sporl & Seabra (1997).

Figura 14 – Disponibilidade hídrica

Fonte: Comitê AT (2015)

O Comitê da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê (CBH-AT) foi criado pela Lei Estadual nº. 7663/1991. A partir de 1997, foram criados seus cinco subcomitês: Alto Tietê- Cabeceiras; Cotia-Guarapiranga; Juqueri-Cantareira; Billings-Tamanduateí; Pinheiros- Pirapora. O CBH-AT é um órgão colegiado, de caráter consultivo e deliberativo, de nível regional e estratégico, que compõe o SIGRH.

Dados mais recentes do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) indicam que cerca de 37% da água tratada no Brasil é perdida25 durante a distribuição de água, totalizando 5,95 bilhões de litros anuais. A situação no estado de São Paulo ainda é crítica e muito heterogênea. A Sabesp afirma ter investido R$ 3,6 bilhões nos últimos anos com projetos de controle de perdas (Sabesp, 2015). Em 2015, o volume de perdas nos municípios da bacia PCJ chegou a 182 milhões m³, o que equivaleria a 18% do volume útil do Sistema Cantareira.

25 No que tange a perda de água existem diferenças conceituais entre perda física/real (que não chega ao

consumidor devido a vazamento) e perda aparente (volume de água consumido, mas não-contabilizado). Para cálculo do índice de perdas, o SNIS compara o volume na saída da Estação de Tratamento com o volume na leitura individual.

0 5000 10000 15000 20000 25000 30000

BRASIL ESTADO DE SP BACIAS PCJ BACIA ALTO-

TIETÊ

27687

2215 1001

129

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