CAPÍTULO 4 – CONSIDERAÇÕES FINAIS
4.3 As categorias etnocientíficas karitiana e os frames
A partir da teoria dos frames, elaborada por Fillmore (2003), podemos agora traçar um método objetivo para a construção do Léxico. A análise do léxico de natureza/floresta karitina pelo viés dos frames parece vir de encontro ao programa etnocientífico proposto por Diegues (1996), que sugere buscar na análise linguística de cada língua as categorias etnocientíficas de leitura da realidade de seu respectivo povo.68
Embora a alternativa de um dicionário eletrônico não esteja fora do escopo desta pesquisa69, um modelo de dicionário viável no papel será nossa primeira opção, pois esse modelo é mais adequado à realidade escolar indígena uma vez que não existe um acesso pleno a dispositivos eletrônicos nas aldeias karitiana. Embora existam limites no dicionário impresso, conforme foi ressaltado por Fillmore (2003)70, devemos considerar que no caso deste léxico, por tratar de conceitos de um frame circunscrito na Amazônia rondoniense, teremos uma boa economia de espaço informativo. Além do mais, por se tratar de um léxico monolíngue voltado à população indígena71, o usuário já detém por sua experiência boa parte do background e, sendo um léxico ilustrado, boa parte das informações não serão textuais, mas sim imagéticas.
Uma vez definido o grande frame da Amazônia rondoniense, devemos nos perguntar a partir das informações linguísticas e etnológicas disponíveis quais são os menores frames, ou subframes, e quais são os frames tranversais que configuram as categorias subjacentes de cada ser vivo que habita esse ecossistema, ou seja, quais são as estruturas de conhecimento que organizam os seres vivos na língua karitiana. Então, devemos recorrer às informações etnográficas do povo karitiana para confrontá-las com os dados linguísticos e reconhecer as categorias pelas quais se organizam campos semânticos agregando as entradas do Léxico.
68
Ver DIEGUES, (1996, p. 78).
69
Ver ANEXO I Aprendizagem Colaborativa e a Tecnologia.
70
Ver Fillmore, (2003, p. 263).
71
A pesquisa etnográfica parece, também para Fillmore, uma via precisa para a concepção de frame72:
“O esforço para analisar o pano de fundo do significado de uma palavra em um frame estruturado, portanto, pode ser visto como uma espécie de etnografia. É necessário tornar explícito o pano de fundo de crenças, experiências, práticas, instituições ou conceituações prontas disponíveis para os falantes da língua como os fundamentos necessários da maneira como falam e da maneira como pensam falar.”
(FILLMORE, 2003. p. 284)
Ou seja, "as crenças, experiências, práticas, instituições ou conceituações" karitiana serão as bases organizativas desta biodiversidade no Léxico. Assim, no encontro destas duas bases de dados (linguísticos e antropológicos), observaremos a construção dos
subframes que organizam este material.
Tendo em vista sempre a função pedagógica do Léxico, iremos considerar que a organização etnológica dos subframes deve prevalecer sobre a ordem alfabética. Afinal se o que se propõe é um material didático com foco em etnobiologia, a ordem das categorias internas a biologia karitiana devem ser priorizadas.
Nem todas as informações levantadas devem entrar no Léxico. Para isso também nos valemos da metodologia da Pesquisa Participante (BALDISSERA, 2001, p.8) para mapear quais seriam os conteúdos relevantes para a abordagem escolar. Ao consultar educadores e anciões das aldeias karitiana, foi observado que algumas informações relacionadas a tabus tradicionais deveriam permanecer na oralidade. Informações específicas do universo do homem (propriedades do pai) e outras do universo da mulher (propriedades da mãe), por exemplo, ou mesmo sobre o uso sagrado e medicinal de certas plantas ou animais, não podem ser universalizadas no material didático escolar. A oralidade preserva-se resistente frente às práticas de escrita que pouco a pouco são incorporadas na vida ordinária karitiana e permanece por excelência como o gênero discursivo exclusivo dos tabus, onde são partilhadas apenas em momentos específicos com subgrupos restritos da comunidade karitiana.
72
Tradução minha, no original "The effort to analyze the frame-setting background of a word's meaning,
then, can be seen as a kind of etnography. It is necessary to make explicit the background of belifes, experiences, pratices, institutions, or ready-made conceptualizations available to the speakers of the language as the necessary underpinnings of the ways they speak and the ways they think for speaking."
Buscaremos assim organizar os capítulos e a ordem das informações a partir das categorias karitiana para seres vivos. Pela noção de frames, agruparemos as palavras que encontramos associadas no nível antropológico. Assim, cada capítulo se configura como um frame ajudando a entender não só as palavras referentes a cada espécie, mas também ajudando a entender as palavras referentes às próprias categorias karitiana.
Na introdução de cada capítulo, serão dispostos desenhos esquemáticos com um viés sugestivo para organização dos elementos de nossa rede conceitual. Concebendo justamente possibilidades da arquitetura dos frames, cada desenho esquemático mostra um prisma da organização dos seres vivos segundo um aspecto abstraído da etnografia. Sobre os vegetais, haverá um desenho esquemático de morfologia vegetal e seu paralelismo com o corpo humano apresentado na Figura 14. Já o desenho esquemático da pirâmide alimentar na Figura 15 articula as categorias de fauna com a floresta (Gopi) e o sol (Gokyp).
Figura 14 – Corpo humano73 Figura 15 – Pirâmide alimentar74
Os desenhos esquemáticos do sapo na Figura 16 visam prenunciar o background dos habitats que de alguma maneira se articulam transversalmente às categorias de fauna. O desenho esquemático das "Donas de Caças" (ongy) repete a pirâmide alimentar sob a
73
Frase de autoria Karitiana: Planta é como gente.
perspectiva do ritual de caça karatiana, indicando uma amostra representativa de predadores e suas prezas em todos os habitat, mas também é para a "Mãe da Caça" que os karitiana devem pedir autorização antes de caçar75.
Figura 16 – Donas da caça76
A partir destes desenhos esquemáticos, com a facilidade didática da ilustração e a possibilidade de munir o leitor com parte do background etnográfico, defendemos que as entradas do dicionário poderão ser compreendidas em sua ampla associação com o sistema ecológico.