2. TEORIA DAS CRISES, TAXA DE LUCRO E ACUMULAÇÃO DE CAPITAL
2.3 AS CAUSAS SUBJACENTES DAS CRISES ECONÔMICAS
Não teríamos condições de abarcar, nesse espaço, todos os mais diversos diagnósticos já elaborados sobre as crises econômicas capitalistas. Apresentaremos, entretanto, alguns diagnósticos que, devido a sua trama argumentativa, chamam atenção para importantes elementos da realidade, ainda que, por si só, não consigam explicar os seus nexos satisfatoriamente. Ressaltamos também que não pretendemos apresentar todos esses diagnósticos com o intento de formular uma síntese aglutinadora, mas sim como forma de mapearmos o estado da arte no tratamento das crises. Evitaremos, por outro lado, análises mais simplórias, como aquelas que apelam para a natureza humana ou partem de construções ideais que tangenciam completamente a real dinâmica capitalista (por exemplo, análises que colocam as crises como resultado da má alocação de recurso dos agentes econômicos).
Demonstramos, anteriormente, como um dos fundamentos da economia capitalista é a atuação descoordenada dos agentes econômicos. Isso significa que a alocação caótica de recursos é inerente ao modo de produção capitalista. Por sua vez, a própria natureza dos negócios impede uma rápida correção de investimentos mal alocados. Um empresário não pode num mês abrir uma companhia ferroviária e, no mês seguinte, recuperar esses recursos e abrir uma fábrica de ketchup. Esses impedimentos derivam da própria natureza do negócio (tempo de produção, transporte e realização), perto da qual a burocracia estatal (necessidade de conseguir licenciamento ambiental, por exemplo) não passa de um mero empecilho. É absurdo também pensar que um pacote de incentivo fiscal seja o suficiente para atrair
investimentos para atividades econômicas pouco rentáveis e, portanto, capaz de atrapalhar a alocação eficiente de recursos.
Iniciamos o nosso empreendimento com dois representantes da vertente marxista consagrada como Wertkritik. Anselm Jappe (2016) e Machado (2019) apontam que a gradativa redução da participação dos homens no processo produtivo (substituídos por robôs, softwares e pela Inteligência Artificial) estaria deteriorando as próprias bases da acumulação capitalista. Com a eliminação do trabalho, a lei do valor (que identifica o tempo de trabalho socialmente necessário como a medida do valor) deixaria de operar. Como o valor é um elemento central do modo de produção capitalista, sua iminente eliminação culminaria num quadro em que, de um lado, mercadorias seriam produzidas de forma automatizada (mas ainda assim precificadas), mas não encontrariam compradores; pois, do outro lado, trabalhadores estariam enfrentando níveis crescentes de desemprego e, portanto, não estariam em condições de consumir. Com essa desmedida, a reprodução do capital encontraria um obstáculo intransponível.
Já Brenner (2003, 2006, 2009), abstraindo o problema do valor, liga as crises a uma tendência persistente de criação de excesso de capacidade nas indústrias manufatureiras globais. Em outras palavras, seria gerada, cada vez mais, uma oferta excessiva em comparação com a demanda, e esse desequilíbrio estaria forçando a queda dos preços (acompanhada dos lucros). O autor identifica que as corporações que experimentam um aperto em seus lucros tendem a buscar alternativas para defender a sua atual posição, ampliando investimentos em novas tecnologias e buscando ganhos de escala. Isso, contudo, amplia o excesso de capacidade e, portanto, torna o cenário ainda mais propício para a eclosão de novas crises.
Mészáros (2002), por sua vez atribui grande protagonismo ao que chama de “taxa decrescente de utilização”. Em outros termos, a capacidade produtiva instalada é tão maior do que a capacidade do mercado consumidor absorver as mercadorias produzidas que, cada vez mais, coloca as indústrias numa condição de contenção do ritmo da produção de mercadorias. A isso, o autor adiciona o problema da obsolescência planejada e o que chama de “destruição produtiva”. Embora o autor se aproxime de Brenner ao ressaltar o problema do excesso de capacidade produtiva, diferenças marcantes separam os dois autores. Como ilustração, poderíamos citar que Mészáros recupera o problema do valor – abandonado por Brenner -, e concede um tratamento mais pessimista para o cenário econômico desde os 1970: “crise estrutural”.
Outros teóricos, afastando-se do problema da superacumulação de capital, concederão grande destaque para a dinâmica entre salários e lucros. De um lado, autores como John Bellamy Foster (2013) sugerem que o aumento dos salários forçaria os capitalistas a aumentarem o preço das mercadorias visando preservar a lucratividade. Contudo, pressionados pelo acirramento da competição, esses agentes não encontrariam condições para isso. Consequentemente, de forma gradativa, o aumento dos salários corroeria os lucros, reduzindo investimentos e, portanto, criaria as condições para a eclosão de uma crise econômica.
Já autores estadunidenses associados à Monthly Review (cf. BARAN; SWEEZY, 1966) afirmam justamente o contrário. Para eles, quando os capitalistas conseguem impor seus interesses, isto é, achatar salários, eles reduzem o poder de consumo da classe trabalhadora. O aumento dos lucros, entretanto, não se converte num aumento da demanda efetiva, uma vez que suas rendas pessoais já se tornaram elevadas o suficiente para atender as suas demandas (mesmo por bens de luxo). Assim, aumentar-se-ia a distância entre o volume de mercadorias ofertadas e a demanda efetiva, engendrando uma crise.
Nessa direção, mas em estudos mais recentes, duas categorias analíticas vêm recebendo grande destaque: “neoliberalismo” e “financeirização”. Autores como Chesnais (2015), Duménil e Lévy (2011), Husson (2008) e Lapavitsas (2009) apontam que, desde os anos 80, a classe trabalhadora estaria sofrendo com fortes reduções salariais - em função da implementação das políticas neoliberais –, mas essa redução não teria se convertido em queda no poder de consumo, pois teria sido contrarrestada pela expansão das operações de crédito pessoal. Ou seja, a classe trabalhadora estaria se endividando a fim de manter a mesma capacidade de consumo que possuía nos anos 1970. De outro lado, empresários, gestores de fundos e gestores de corporações não financeiras estariam priorizando a compra de títulos da dívida pública, ações e outros ativos financeiros, em detrimento de investimentos produtivos.
Durand (2017) adiciona que esses agentes buscariam, cada vez mais, ativos de maior liquidez, pois obteriam maior segurança diante de um mercado crescentemente instável. Ilustrando tal assertiva, o autor aponta que abrir uma nova planta industrial, por exemplo, é um investimento que demandaria grande esforço de planejamento, imobilizaria os recursos durante anos e poderia ainda encontrar um mercado desaquecido, não gerando o retorno esperado. Já a compra de ações, por exemplo, não apresenta essas dificuldades. Não há necessidade de contratar gestores e engenheiros para organizar a produção; em caso de dificuldades, as ações podem ser rapidamente convertidas em moeda e o retorno é rápido.
Desse modo, os novos fundamentos da economia capitalista estariam sendo erguidos sobre o pântano da especulação financeira.
Já Chesnais (2016) afirma evitar as explicações excludentes e apontar para uma nova direção: “Eu concordo com Harvey que não existe uma teoria causal única para a formação de crises” (2016, p. 23), ao que adiciona que as crises seriam o resultado de um modulado de coisas (especulação financeira, queda da taxa de lucro, superprodução absoluta de capital, etc.). Essa afirmação, muito provavelmente, é uma afirmação que não encontra opositores. Contudo, quando afirmamos que as crises têm origem pluricausal, estamos de fato explicando a sua dinâmica ou nos rendendo à forma como as coisas aparecem superficialmente?
Nosso desafio, portanto, não é enumerar uma série de explicações e, no final, afirmar que todas contribuem, em maior ou menor medida, para o entendimento das crises. Pretendemos, na realidade, apresentar a forma como as determinantes econômicas se encadeiam – identificando, inclusive, seus momentos preponderantes -, e como, desses nexos, eclodem as crises.
Anteriormente, quando discutimos a funcionalidade das crises, destacamos a forma de manifestação das crises: desequilíbrio (setorial ou generalizado) entre a oferta de mercadorias e o poder de consumo. Já, como vimos nesta seção, são muitas as análises que discutem o que subjaz a essa dinâmica. Contudo, em sua maioria, mostram-se bastante adequadas para a análise das determinantes que interferem diretamente na fase da realização do mais-valor (a esfera da circulação): queda do poder de consumo em função do achatamento salarial, impossibilidade de corrigir os preços devido à intensificação da competição, aumento da oferta de crédito pessoal, superprodução, etc. Do lado da produção, entretanto, não fica claro por quais razões há uma tendência à superacumulação de capital. Não são forjadas, também, as devidas ligações entre as determinantes da produção e as determinantes da distribuição/circulação.
Em função dessa carência, na próxima seção discutiremos mais longamente a chamada Lei da Queda Tendencial da Taxa de Lucro. Pretendemos demonstrar como ela está diretamente ligada a essa tendência de superacumulação de capital e, mais do que isso, como seu movimento está diretamente ligado à eclosão das crises econômicas.