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PARTE II O Confronto entre a Semântica Internalista e a Semântica Externalista

3.1. As componentes da língua-I e da Faculdade da Linguagem e as suas interfaces no

Falar de seguir regras linguísticas é, de certa forma, falar da questão de como usamos a língua. Quando, no capítulo 2, tratámos a questão do uso do conhecimento da língua na perspectiva inatista, destacámos que há dois aspectos que devem ser considerados no tratamento deste problema: um é o aspecto da percepção, e o outro é o aspecto da produção. O aspecto da produção já foi considerado no capítulo anterior e, resumidamente, diz respeito àquele carácter inovador atribuído ao uso da linguagem, ou seja, trata do aspecto criativo da linguagem. Agora, trataremos do aspecto da percepção. No inatismo, este aspecto está em estreita ligação com os alegados “sistemas de performance” que compõem a faculdade da linguagem, e diz respeito à relação entre o conhecimento, a audição e a expressão de pensamentos por parte de um utente da língua.

Qualquer análise ou mesmo uma exposição de uma qualquer teoria da linguagem não será completa se não for abordada a teoria semântica que dela decorre. O que caracteriza uma teoria semântica é a maneira como ela descreve o modo como as palavras e sentenças adquirem seus respectivos significados. Este processo recebeu considerável atenção por parte de muitos filósofos. O resultado disso foi uma grande variedade de teorias da significação, que às vezes diferem radicalmente umas das outras. Ao longo do desenvolvimento de seu programa de investigação, Chomsky também tentou delinear uma teoria semântica que se harmonizasse com as principais ideias do seu inatismo. Seu ponto de partida é o de que todo o processo semântico se dá precisamente no âmbito do módulo

mental da linguagem na mente humana, a faculdade da linguagem. Deste modo, a teoria por ele proposta se enquadra no grupo das teorias semânticas internalistas.

O internalismo semântico contrasta com o externalismo semântico. Em tese, o externalismo se caracteriza por defender a ideia segundo a qual processos ou factos semânticos podem ser explicados e entendidos de forma completamente satisfatória levando-se em conta apenas as interações da linguagem com o mundo externo, sobretudo com certas práticas sociais das comunidades de falantes de uma determinada língua. Neste caso, não é necessário, em qualquer momento ou etapa desse processo, fazer menção, recorrer a, ou mesmo apelar para, qualquer conexão entre o uso da linguagem e estados mentais de seus utentes. A este modo de compreensão se opõe o da semântica internalista, para a qual os aspectos semânticos essenciais à compreensão da linguagem são todos determinados por estados mentais específicos, e alguém que queira explicar o fenómeno da linguagem precisa explicar, primeiro, em que consistem tais estados. De acordo com os seus pressupostos simultaneamente naturalista e inatista, o tratamento chomskyano deste tópico funda tais estados, seu desenvolvimento e variedade, na herança biológica inata a todos os seres humanos.

Para tratarmos da semântica inatista chomskyana, devemos começar por uma apresentação mais detalhada daquilo que caracteristicamente compõe tanto a língua-I como a faculdade da linguagem. Ao concebê-la como um mecanismo que gera um número infinito de expressões, Chomsky alega que a língua-I é formada por duas componentes que, embora distintas, mantêm uma interface interna. Estamos falando de um léxico, por um lado, e um sistema computacional, por outro. A componente lexical dessa interface se caracteriza por especificar um “léxico” ou os elementos que integrarão as operações efetuadas pelo sistema computacional, aqui concebido como uma parte constitutiva da planta arquitetônica mental dos seres humanos e, portanto, biologicamente determinado.

Tudo o que compõem este léxico é inato, e as operações efetuadas pelo sistema computacional constituem um engenhoso processo gerativo, cujo resultado é a produção da forma de inúmeras expressões, que podem ser articuladas em vários níveis de representação linguística. Ao longo do desenvolvimento teórico do inatismo chomskyano, essas expressões foram denominadas de descrições estruturais.

De igual modo, a caracterização que Chomsky faz da faculdade da linguagem supõe que tal faculdade possua também, pelo menos, duas componentes. Do seu ponto de vista, temos, por um lado, o chamado “sistema cognitivo”, e, por outro lado, os denominados “sistemas de desempenho”. Aquele é caracterizado por guardar informações; e estes são caracterizados não só por terem acesso às informações armazenadas pelo sistema cognitivo, como também por poderem utilizá-las de forma bastante variada71. Tais sistemas de desempenho fazem, portanto, uso dessas informações para articulação, percepção, falar sobre o mundo etc. Nos termos do inatismo, o sistema cognitivo é responsável pelo nosso conhecimento da linguagem, isto é, é responsável pela nossa

competência linguística. Já os sistemas de desempenho, por seu turno, são responsáveis

pelo uso que fazemos da linguagem, ou seja, pela nossa performance linguística. Assume- se que todas as propriedades desses sistemas, ou a existência deles, são questões de facto empírico.

Além de operar sobre os itens especificados pela componente lexical supostamente existente na língua-I, o também suposto sistema computacional que a compõe é responsável por conferir aos elementos formadores das descrições estruturais uma forma fonética e uma forma lógica. A forma lógica corresponde às propriedades de significação e, por isso mesmo, é conferida com base nas propriedades semânticas gerais dos elementos lexicais inatos. Por sua vez, a forma fonética corresponde ao conjunto das

propriedades fonéticas de cada uma das expressões geradas, referindo-se, assim, às estruturas silábicas e prosódicas que a compõem. O resultado desta conjunção operacional faz com que as descrições estruturais possam ser definidas como sendo representações mentais/cerebrais constituídas pelo “par som-significado”72

, sendo elas mesmas responsáveis por fornecerem e manifestarem informações sobre as propriedades fonéticas e semânticas que as compõem. Convém lembrar que, aqui, os significados dos termos „forma lógica‟ e „representações‟ não podem ser confundidos com as suas conotações técnicas adquiridas no contexto da filosofia contemporânea.

Essas duas formas, conferidas por partes especializadas do sistema computacional, estão em interface com os “sistemas de desempenho” que compõem a faculdade da linguagem. Quer isto dizer que cada uma das expressões geradas pela língua-I necessariamente inclui instruções para a interação com estes sistemas, que são agrupados em dois tipos. Cada um destes tipos se caracteriza pelos diferentes níveis de interface que realizam. Nomeadamente, temos, por um lado, o sistema “articulatório-perceptual” (A-P), também chamado de “sistema sensório-motor”, que é responsável pela leitura dos aspectos fonéticos das expressões; por outro lado, temos o sistema “conceitual-intencional” (C-I), também conhecido como “sistema de pensamentos”, que está envolvido na tarefa de ler os aspectos semânticos existentes nas expressões.

Apesar de admitir uma interação entre tais sistemas, Chomsky nos adverte que, mesmo quando os sistemas de desempenho são danificados (por exemplo, em virtude de um acidente), o sistema cognitivo pode permanecer íntegro. A troca de informações entre o sistema cognitivo e o conjunto dos sistemas de desempenho é constante. Esse constante fornecimento e recebimento de inputs e outputs entre esses sistemas é o que permite à faculdade da linguagem gerar uma língua-I.

72 Cf. CHOMSKY, 2000, p. 125.

Toda a caracterização das interfaces existente entre as formas lógica e fonética conferidas pelo sistema computacional e os sistemas de desempenho que compõem a faculdade da linguagem só é possível se assumirmos a ideia de que a faculdade da linguagem interage com outros sistemas, os quais impõem certas condições que a linguagem precisa satisfazer para que seja de todo usável. Tais condições são chamadas por Chomsky de “condições de legibilidade”. Elas são assim chamadas porque os outros sistemas que interagem com a faculdade da linguagem precisam, de algum modo, de ser capazes de “ler” as expressões da linguagem como instruções para usá-la correctamente.

Tanto o sistema articulatório-perceptual como o sistema conceitual-intencional impõem condições de legibilidade aos processos gerativos da faculdade da linguagem. Da perspectiva do inatismo, portanto, as expressões da linguagem fornecem informações tanto para o sistema articulatório-perceptual quanto para o conceitual-intencional. Quanto ao primeiro, a informação fornecida é uma representação fonética em interface com a forma

fonética. No segundo, a informação fornecida tem uma natureza um tanto mais controversa

e passível de grandes discussões. Chomsky prefere chamar a essas informações “traços” ou “propriedades semânticas”, em interface com a forma lógica.

Nesses dois níveis de interface, os sistemas sensório-motores, por exemplo, deverão ser capazes de ler as informações e instruções que têm a ver com as representações fonéticas geradas pela língua, ou seja, tais sistemas impõem condições de legibilidade aos processos gerativos da faculdade da linguagem, que devem ser caracterizados por formas fonéticas apropriadas. O mesmo ocorre com o sistema conceitual-intencional, que se utiliza do conjunto das propriedades semânticas dos itens lexicais das expressões geradas para interpretação da linguagem e das consequentes prolações. Em outras palavras, uma expressão linguística qualquer gerada por uma dada língua-I contém, necessariamente, uma representação fonética, que é lida pelo sistema

articulatório-perceptual, e uma representação semântica, que é lida pelo sistema conceitual- intencional.

O que dá suporte a tal caracterização é, sobretudo, a ideia chomskyana de que a faculdade da linguagem é um sistema “exteriorizante”, de natureza sensorial e motora, e é responsável por fornecer, a cada uma das expressões geradas, um nível de representação tal que seja capaz de entrar em interface com cada um dos sistemas de desempenho. Esta interface dupla é exatamente o que faz com que a visão chomskyana considere cada expressão de uma língua qualquer possível como sendo algo composto por um conjunto de pares pertencentes a cada um destes dois níveis. O resultado das computações operadas no âmbito da faculdade da linguagem é a geração de representações mentais constituídas por combinações das variadas categorias gramaticais dessas formas linguísticas. Ou seja, as propriedades sintácticas são dadas pela própria componente lexical inata, e são essas representações que determinam as propriedades fonéticas e semânticas das expressões utilizadas pelos utentes da língua.

As propriedades aqui indicadas são internamente determinadas e podem ser bem abrangentes, mesmo se consideradas em casos muito simples, como no exemplo dado por Chomsky da sentença: “John is painting the house brown”. Esta sentença contém um conjunto de propriedades estruturais, fonéticas e semânticas. Uma evidente propriedade estrutural dessa expressão é que ela consiste de seis palavras. Neste caso, é possível dizermos que se trata da mesma expressão para dois utentes da língua inglesa, apenas no sentido em que pode-se assumir que os seus respectivos sistemas circulatório e visual são os mesmos. Outras propriedades estruturais distinguem-na da sentença: “John is painting

the brown house”, onde a ordem das duas palavras finais faz com que essa segunda

expressão tenha outras condições de uso. Uma de suas propriedades fonéticas é que house e brown compartilham a mesma parte vocálica, partilhando, assim, uma relação formal de

assonância. Uma de suas propriedades semânticas é que uma das duas últimas palavras pode ser usada para referir certos tipos de coisas, enquanto a outra expressa uma propriedade dessas coisas.

Além disso, Chomsky admite que algumas dessas propriedades são universais, e outras são particulares da linguagem. Para ele, o facto de a vogal de house ser mais breve do que a vogal de brown é uma propriedade fonética universal. Já o facto de house ser distinta de home é uma característica particular da língua-I de um falante do idioma inglês. Em inglês, voltamos para o lar, depois de um dia de trabalho. Em hebraico, por exemplo, voltamos para casa. Pode-se viver numa casa marrom, mas não num lar marrom.

É deste modo que componentes sintácticos, semânticos e fonéticos aparecem no inatismo chomskyano. A condição necessária para que isso ocorra é, portanto, a de que a gramática mental interiorizada consista num sistema de princípios que, de modo computacional, atuem sobre as formas da língua. Trata-se, específica e nomeadamente, de uma estrutura computacional algorítmica, desenvolvida a partir destes princípios.

Em suas mais recentes reflexões sobre o assunto, Chomsky defende categoricamente que a linguagem envolve três tipos de elementos: (1) as propriedades de som e significado, chamadas por ele de características; (2) os itens formados a partir dessas propriedades, chamados de itens lexicais; e (3), as expressões complexas construídas a partir dessas unidades atômicas. Admite-se, então, que o sistema computacional inato geraria as expressões da língua por meio de duas operações básicas: a de reunir o conjunto das características em subconjuntos de itens lexicais; e a de formar objetos sintácticos maiores, a partir de tais itens. Cada uma das expressões geradas conteria uma componente sintáctica, outra semântica, e outra fonética, dadas exclusivamente por processos internos às interfaces desses sistemas inatos. Sendo assim, a língua-I seria não só responsável por especificar a forma e o significado de elementos lexicais simples, tais

como caneta, caderno, copo, sofá etc., como também deveria ser capaz de explicar propriedades de expressões mais complexas como, por exemplo, o facto de que “Rui partiu deselegantemente” poder significar tanto que ele tenha partido de modo deselegante como que tenha sido deselegante de sua parte ter partido. Trata-se, no fundo, de uma naturalização do processo semântico, dado que grande parte dessa estrutura parece derivar de nossa natureza psicológica.

Como o próprio Chomsky reconhece, esses pressupostos sobre a arquitetura interna da faculdade da linguagem, bem como os níveis de interface aqui descritos, não são, de modo algum, óbvios73. Contudo, isso não minimiza nem impede que a sua hipótese fundamental seja a de que os níveis de interface, os elementos que os constituem, e as operações computacionais através das quais estes níveis são construídos, seriam todos determinados biologicamente e caracterizariam a gramática universal por ele suposta. A natureza desses sistemas seria, portanto, uma questão empírica, competindo assim à investigação científica determiná-la. Quanto a isso, convém ainda notar que, no quadro teórico de Chomsky, estes dois níveis de interface são os únicos níveis de representação cuja compreensão é conceitualmente necessária para o entendimento da estrutura da linguagem. Inclusive, esse é o pressuposto que dá respaldo a que o seu programa de investigação tenha sido qualificado como “minimalista”74

. O programa minimalista é, assim, um esforço para explorar a questão de saber se existe uma base empírica reduzida subjacente às propriedades que são conceitualmente necessárias para se admitir que algo é uma linguagem humana. Trata-se, assim, de um programa de pesquisa, e não de um plano teórico já definido e concluído.

73

Cf. CHOMSKY, 1999, p. 41.

74 Cf. Ibidem, p. 245. Sobre o programa minimalista chomskyano, (Cf. HINZEN, Wolfran. Minimalism. In: