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Divisão III – As decisões políticas

37. As decisões do Estado

37.1. Razão de ordem

I. As decisões políticas em sentido próprio são sempre tomadas por pessoas;

concretamente pelas pessoas que governam formalmente. No entanto, como estas

pessoas decidem sempre por intermédio da estrutura Estado – uma estrutura com

personalidade jurídica –, é corrente considerar que é este quem toma todas essas

decisões.

Com efeito, como o Estado é uma pessoa colectiva de Direito Público com fins,

funções, órgãos e competências em potência que, uma vez em acto, se traduzem em

decisões políticas, diz-se então – de forma consciente ou não, depende da pessoa que o

afirma – que “ele é generoso ou somítico, engenhoso ou estúpido, cruel ou complacente,

discreto ou abusivo. E dado que o [julgam] sujeito a estes movimentos da inteligência

ou do coração inerentes ao homem, [dirigem] para ele os sentimentos que habitualmente

(…) inspiram as pessoas humanas: a confiança ou o temor, a admiração ou o desprezo,

não raro o ódio”

596

– um erro de grande magnitude, que é absolutamente necessário não

cometer

597

.

II. As pessoas que tomam as decisões políticas propriamente ditas – as pessoas

que governam formalmente –, utilizam para o efeito as várias estruturas do sistema

político. De entre todas as estruturas, o Estado é a mais importante: são os titulares dos

seus órgãos que detêm o poder de exercer um conjunto maior ou menor de

competências em potência que se concretizam num número vasto e heterogéneo de

decisões. Quando nos debruçámos sobre a estrutura do sistema político denominada

Estado, tivemos oportunidade de colocar em destaque alguns desses órgãos, bem como

as suas principais competências em potência, v. g., as da “Assembleia da República

593 Idem, Ibidem, p. 255. 594 Idem, Ibidem, p. 269.

595 Sobre os actores da produção de políticas públicas; o processo de produção; a execução e avaliação; os

esquemas de decisão; e as classificações das políticas públicas, cfr., Idem, ibidem, respectivamente pp. 256 e ss; 261 e ss; 266 e ss; 269 e ss; e 272 e ss.

596

Georges Burdeau, O Estado, s. d., s. l., p. 15.

145

político-normativa” e as do “Governo político-legislativo”

598

. Agora, ao analisarmos as

decisões políticas, também só vamos prestar atenção a algumas das formas de revelação

dessas decisões.

37.2. A forma das decisões do Estado

As pessoas que são titulares dos órgãos do Estado – dos seus órgãos de

soberania e de não soberania, políticos e técnicos –, tomam um elevado número de

decisões muito diferentes entre si em razão da matéria, da forma

599

e das formalidades.

Dada a vastidão e a heterogeneidade das decisões imputadas ao Estado, vamos indicar,

apenas, algumas das formas de revelação dessas decisões.

37.2.1. Do Presidente da República

O Presidente da República, no exercício da sua competência política, v. g., de

exercício vinculado

600

, toma decisões sob a forma de decreto (cfr., arts. 119.º, n.º 1, al.

d) e 172.º, n.º 2).

37.2.2. Da Assembleia da República

A Assembleia da República, no domínio da competência política, emite

decisões, v. g., de fiscalização política, sob a forma, nomeadamente de perguntas (cfr.,

arts. 156.º, al. d) e 177.º, n.º 2)

601

; de interpelações

602

; de inquéritos

603

; de petições (cfr.,

arts. 52.º, números 1 e 2 [e] 178.º, n.º 3 da CRP, e arts. 244.º e ss, do RAR)

604

; e de

moções de censura (cfr., arts. 163.º, al. e), 194.º e 195.º, n.º 1, al. f))

605

.

No âmbito da respectiva competência político-normativa, v. g., no domínio da

feitura de leis ordinárias, produz decisões, designadamente sob a forma de lei orgânica

(cfr., art.º 166.º, n.º 2, art.º 164.º, als. a) a f), h), j), primeira parte da al. l), q) e t) e art.º

255.º)

606

; de lei em sentido restrito (cfr., art.º 166.º, n.º 3 e art.º 161.º, als. b) a h))

607

; e

de lei de autorização legislativa (cfr., arts. 161.º al. d) e 165.º, números 2 a 5)

608

.

598 Cfr., supra, n.º 26.4.2.2. II , e n.º 26.4.2.3, II. 599 A forma de um acto é o modo como ele se revela. 600

Cfr., supra, n.º 26.4.2.1, I.

601

Cfr., Gomes Canotilho, Direito Constitucional, pp. 635 e 636.

602

Cfr., Idem, Ibidem, p. 636.

603 Cfr., Idem, Ibidem, pp. 636 e 637. 604 Cfr., Idem, Ibidem, pp. 637 e 638. 605 Cfr., Idem, Ibidem, p. 638.

606 As leis orgânicas “são actos legislativos provenientes da AR que incidem sobre matérias de especial

relevância política”. M. Lúcia Amaral, ob. cit., p. 213.

607

A Constituição não contém nenhum “conceito de lei, limitando-se a qualificá-la como a forma do acto legislativo a aprovar pela AR. Do ponto de vista conceptual, pode-se (…) considerar que as leis são actos

146

37.2.3. Do Governo

O Governo, no exercício da respectiva competência política, concretamente de

iniciativa ou propulsão política, toma decisões sob a forma, v. g., de proposta de lei e

de moção de confiança.

No âmbito da sua competência política-legislativa, produz decisões sob a forma,

designadamente de decreto-lei; de decreto-lei reservado; e de decreto-lei autorizado

(cfr., arts. 165.º, 198.º n.º 1, al. b) e n.º 3).

O Governo, no que respeita à sua competência política-administrativa (cfr., art.º

199.º

609

), p. ex., no domínio da regulamentação da execução das leis (art.º 199.º, al. c)),

emite decisões sob a forma de decreto regulamentar

610

.

37.2.4. Do Tribunal Constitucional

O Tribunal Constitucional, no exercício, v. g., da sua competência política-

jurisdicional para apreciar, designadamente a constitucionalidade de normas

611

, toma

normativos gerais e abstractos (maxime, art.º 18.º, n.º 3), aprovados pela AR com a finalidade de estabelecerem os princípios e regras integrantes da nossa ordem jurídica”. Barreiras Duarte, ob. cit., p. 25.

608

As denominadas leis com valor reforçado “não constituem uma categoria de actos legislativos constitucionalmente tipificada (…). A elas se reconduzem as leis orgânicas (…), as leis de autorização legislativa, algumas leis de bases (caso incidam e na medida em que incidam sobre matérias das reservas de competência absoluta e legislativa da AR) e as (…) leis estatutárias. [A] Constituição indicia a existência de leis com valor reforçado nos seguintes casos: (…) leis orgânicas (cfr., arts. 112.º, n.º 3, e 166.º, n.º 2); (…) leis de autorização legislativa (cfr., arts. 112.º, n.º 2, 165.º, números 2 a 5, e 198.º, n.º 1, al. b)); (…) leis de bases (cfr., arts. 112.º, n.º 2, e 198.º, n.º 1, al. c)); (…) lei das grandes opções dos planos de desenvolvimento económico e social (cfr., art.º 105.º, n.º 2); (…) lei da criação das regiões administrativas (cfr., art.º 255.º); (…) lei-quadro das reprivatizações (cfr., art.º 293.º); (…) lei-quadro da adaptação do sistema tributário nacional às especificidades regionais (cfr., art.º 227.º, n.º 1, al. i)); (…) estatutos das regiões administrativas (cfr., art.º 226.º)”. Barreiras Duarte, ob. cit., pp. 71 e 72.

609

A prossecução das competências administrativas envolve “a feitura de regulamentos, a emanação de actos administrativos, a celebração de contratos ou a realização de operações materiais”. Paulo Otero, Direito Constitucional, Vol. II, p. 400.

610 Os decretos regulamentares “são os mais solenes (…) regulamentos governativos, estando sujeitos a

promulgação do PR (art.º 134.º, al. b)), a referenda do Governo (arts. 140.º, n.º 1 e 197.º, n.º 1, al. a)) e a publicação no DR (art.º 119.º, n.º 1, al. h)), enquanto os outros regulamentos[,v., g., as resoluções do Conselho de Ministros e os despachos normativos] não estão nem sujeitos a promulgação do PR, nem a referenda, apenas a publicação no DR (art.º 119.º, n.º 1, al. h)). [Assim], o PR pode utilizar o seu direito de veto político face aos decretos regulamentares”. M. Proença de Carvalho, ob. cit., p. 369. Nos termos do art.º 112.º, n.º 6, “os regulamentos do Governo revestem a forma de decreto regulamentar quando tal seja determinado pela lei que regulamentam, bem como no caso de regulamentos independentes”, ou seja, “que não dependa[m] da mera execução de uma lei anterior (…). Há limites (…) para a utilização do decreto regulamentar, pois, se não fosse assim, o Governo poderia substituir indiscriminadamente os decretos-lei por decretos regulamentares, subtraindo-se, desse modo, ao controlo político da AR, designadamente por via da apreciação parlamentar dos actos legislativos, o que consubstanciaria, eventualmente, uma inconstitucionalidade formal ou material”. Barreiras Duarte, ob. cit., pp. 95 e 96.

147

decisões sob a forma de acórdão

612

. Não obstante, de acordo com a natureza das coisas,

muitos acórdãos do Tribunal Constitucional são decisões materialmente políticas, que

são reveladas por uma das formas que podem revestir os actos jurisdicionais.

37.3. O processo de tomada de decisões do Estado

Todas as decisões do Estado que acabámos de referir têm maior ou menor

ligação, a montante e a jusante, com outras decisões que são tomadas e/ou executadas

por pessoas que, na grande maioria dos casos, são titulares destes e/ou de outros órgãos

do Estado e/ou de partidos e/ou de GIP. Com efeito, “nem todos os processos de decisão

inerentes a uma Sociedade global passam efectivamente pelo aparelho do Estado, e as

relações de poder estabelecem-se e permanecem entre o Estado e a Sociedade (…),

sendo a actuação daquele, muitas vezes, o reflexo lógico do equilíbrio de forças no seio

desta”

613

.

É certo que decisões do Estado resultam sempre da observância de um processo,

v. g., do processo comum de tomada de decisões políticas sob a forma de lei ou,

simplesmente, do processo legislativo comum da Assembleia da República

614

, que tem

de passar por várias fases – iniciativa; instrução; aprovação; fiscalização (apreciação

da constitucionalidade, promulgação e referenda); e publicação – e de cumprir certas

formalidades

615

. Mais: como a aprovação formal é um facto visível, testemunhável,

sindicável e registável, é esta a fase do processo legislativo que parece ser a sua fase

decisiva.

De um ponto de vista substancial, porém, a aprovação de uma decisão não se

verifica sempre no momento e no lugar da respectiva aprovação formal, designadamente

no plenário da Assembleia da República. No mundo dos factos, a aprovação das

decisões políticas sob forma de lei – pelo menos as que verdadeiramente interessam –,

realiza-se, em regra, em momento anterior e em lugar diferente, daquele em que ela é,

apenas, formalizada

616

.

611

Cfr., supra, n.º 26.4.2.4, I.

612 O acórdão “é uma decisão judicial sobre o mérito da causa submetida a julgamento e proferida por um

tribunal (…) colectivo”. José Fontes, Teoria Geral, p. 86. O acórdão, a sentença e o despacho, são modos de revelação dos actos jurisdicionais.

613

A. J. Fernandes, Introdução, pp. 160.

614

No que respeita à tramitação dos processos legislativos especiais, nomeadamente, o processo respeitante à revisão constitucional, cfr., José Fontes, Teoria Geral, pp. 267 e ss.

615 Acerca das fases e das formalidades da tramitação do processo legislativo comum da lei (da iniciativa

dos deputados e dos Grupos Parlamentares; do Governo; das Assembleias Legislativas das Regiões Autónomas; e dos grupos de cidadãos), cfr., Idem, Ibidem, pp. 260 e ss; Barreiras Duarte, ob. cit., pp. 30 e ss.

616

Como refere Adriano Moreia, Ciência Política, p. 151, “o método da análise processual da formação das decisões políticas parece ser o que mais longe pode levar no propósito de desvendar a real estrutura do aparelho do poder. A dificuldade está em que, desejando o poder afirmar uma imagem, em regra

148

– Onde?

No interior da caixa negra

617

.