5 A TRANSIÇÃO DO MEIO DA VIDA
5.4 As demandas e os desafios do meio da vida
Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos. (FERNANDO PESSOA).
O meio da vida, em uma visão junguiana clássica, foi descrito como um divisor de águas entre as duas metades da vida. A teoria atual, mais dinâmica, sugere uma não polarização entre duas fases ou duas metades descritas de maneiras tão distintas. No presente trabalho, optou-se por manter a diferenciação entre os momentos de vida por constituir uma forma útil para o entendimento e discriminação do desenvolvimento psicológico humano. No entanto, espera-se que o texto seja compreendido a partir de uma perspectiva clássica, sem perder de vista a dinâmica envolvida.
O meio da vida é um longo processo descrito por Stein (2007), com base em três etapas com demandas psicológicas distintas: a primeira delas é uma experiência de perda e luto, que ele denominou separação. A segunda, chamada de limiar, representa a fase de ambiguidade, durante a transição de uma identidade para outra. E a terceira, chamada de reintegração, requer uma atitude construtiva e proativa, para participar na construção e consolidação do novo senso de identidade.
A fase de separação implica enterrar conscientemente a identidade anterior, representada por toda uma fase de vida, da juventude em si, e aceitar a perda de forma consciente, para que não se perca o potencial de crescimento. A persona adotada para atender às demandas sociais convencionais da vida adulta se torna incapaz de abarcar a nova realidade psíquica. Sem o desapego e o luto, pode haver uma tentativa de agarrar-se ao padrão antigo, mesmo que ele não faça mais sentido. A persona gasta pode parecer mais segura do que se expor sem ela. Porém, o ego não liberto da identificação da persona não pode flutuar na ambiguidade de uma nova etapa de vida (STEIN, 2007).
A mudança no relacionamento com a persona é crucial no meio da vida, visto que, apesar de imitar a individualidade, a persona não é a individualidade. É apenas um extrato, uma aparência, que reflete uma parcela do indivíduo:
A construção de uma persona coletivamente adequada significa uma considerável concessão ao mundo exterior, um verdadeiro autosacrifício, que força o eu a identificar-se com a persona. Isto leva certas pessoas a acreditarem que são o que imaginam ser. (JUNG, [1916, 1934], 2011b, § 306).
A passagem através do portal da separação vem carregada de medo e de uma dor profunda pela perda da imagem daquilo que se foi e jamais se voltará a ser. Mas, se a separação é bem trabalhada, leva à possibilidade de um “flutuar” psicológico, uma atitude de desapego, fundamental à existência no limiar.
O período seguinte à separação, denominado limiar ou liminar, no sentido de transição, de “estar entre”, requer que se mantenha a liberdade para uma exploração ampla e profunda, ao invés de se buscar a segurança de novas definições e compromissos prematuros. É uma fase de confusão e ambiguidade, mas também de descobertas e transformação, aumentando as possibilidades de expressão da personalidade, com base na integração de características que foram rejeitadas ou ficaram latentes no repertório dos interesses e comportamentos da juventude.
Quando o inconsciente aflora no período limiar, o que surge com mais força, em primeiro plano, são partes rejeitadas da personalidade, impulsos, desejos, fantasias, seja porque o inconsciente está mais carregado de energia e consegue driblar as defesas, seja porque os mecanismos de defesa ficam menos capazes de reprimir os conteúdos inconscientes. Construir a ponte entre a consciência e o inconsciente significa aproveitar a oportunidade que emerge nessa fase e que colabora para o processo de individuação.
É importante salientar também as potencialidades que podem ser integradas. Em uma analogia com a pintura, Stein (2014) argumenta que, visando à adaptação social, a primeira metade da vida requer certa seleção de características dentre os potenciais do indivíduo, similar a uma seleção de cores em uma palheta da personalidade. Segundo o autor, as características não selecionadas por não se enquadrarem na identidade do ego ficam latentes ou reprimidas e normalmente são localizadas no outro, através de projeção. Este processo, que nada mais é do que o desenvolvimento do complexo persona-sombra, é necessário para a realização da primeira metade da
vida. Em contrapartida, na segunda metade, há um convite para expandir as cores da palheta inata de cada um, representando um potencial de desenvolvimento da individualidade. Quanto ao trabalho, a própria especialização profissional, na primeira metade da vida, que implica em foco e atenção, pode levar a uma limitação do desenvolvimento, deixando talentos para trás.
Se a fase limiar corresponde a uma possibilidade de expansão das capacidades reconhecidas, a partir de uma integração de potencialidades não desenvolvidas, é igualmente uma fase potencialmente caótica, na qual a sombra, a anima e o animus vêm à tona. Por anima e animus se entende a atitude interna, em oposição à persona, que constitui a atitude externa (JUNG, [1921], 2011c).
Byington (2013) reforça o encontro com o Outro, no meio da vida. A maturidade, segundo o autor, caracteriza-se pela ênfase na ativação dos arquétipos da anima, animus e da alteridade, dado que o patriarcal e o matriarcal caminharam para a maturidade.
Para continuar o processo de individuação, agora a transição do meio da vida deve mover-se da fase liminar em direção ao próximo estágio, que é o de integração da personalidade ao redor de um novo centro. Essa fase requer uma atitude construtiva e pro-ativa, a fim de participar na construção e consolidação do novo senso de identidade.
Levinson (1978) e Hollis (1995) descrevem demandas psicológicas similares às de Stein (2007). Levinson (1978) parte de uma abordagem de transição que tem por objetivo terminar uma fase de vida para começar outra. Para o autor, cada transição opera no sentido de apresentar oportunidades e necessidades de se mover em direção à integração de polaridades. As polaridades que operam com mais força no meio da vida são13: jovem/velho, destruição/criação, masculino/feminino,
união/separação. Em relação à polaridade jovem/velho, ele destaca a necessidade de lidar com as questões do envelhecimento e da perda da juventude. Em destruição/criação, o enfoque é para a finitude. A polaridade masculino/feminino está associada aos conceitos de anima e animus da psicologia analítica, enquanto o par união/separação descreve uma necessidade de maior engajamento consigo próprio.
13
As polaridades descritas pelo autor, em sua obra em inglês, foram traduzidas conforme segue: jovem/velho (young/old), destruição/criação (destruction/creation), masculino/feminino (masculine/feminine), união/separação (attachment/separateness).
Hollis (1995) adiciona a necessidade de separação dos complexos materno e paterno, os quais sustentaram a “identidade provisória” da primeira idade adulta e que deve ceder lugar à “identidade autêntica” do eu, na maturidade. O termo “identidade provisória” foi escolhido pelo autor, na tentativa de explicar as escolhas feitas pelo indivíduo até a primeira idade adulta e que tendem a ser muito influenciadas pela família, ou seja, escolhas em geral dirigidas pelos complexos parentais. Os papéis sociais, e em especial o trabalho, são aspectos normalmente carregados de projeções. O meio da vida significa um convite para que as projeções sejam recolhidas e a consciência ampliada. Quando as projeções são recolhidas, pode haver perda do entusiasmo pela carreira, pela ascensão profissional ou sensação de vazio e conduz invariavelmente a um embate sombra/persona.
Em meio a tantas demandas, o meio da vida é uma fase complexa e potencialmente turbulenta, mas que pode representar um grande potencial de desenvolvimento psicológico para o indivíduo.
5.5 Considerações sobre o capítulo
A transição do meio da vida é um período dinâmico de transformações, descrito na visão junguiana clássica como uma fase que encerra a primeira metade da vida e marca a entrada para a segunda metade. Como um período de passagem, é de crucial importância para o processo de individuação.
Considerando-se a ênfase clássica na abordagem das demandas psicológicas, descreve-se a primeira metade como mais voltada a se tornar um indivíduo adulto autossuficiente, na sociedade, enquanto a segunda metade demandaria que o indivíduo se tornasse centrado e íntegro. A segunda metade da vida visa a dar significado à existência.
Por ser um período de transição entre demandas psicológicas muito distintas, o meio da vida pode ser uma fase de turbulências e emergência de vários sintomas, como angústia, tensão, tédio, desinteresse pela vida e, em última instância, podem ocorrer crises. Eventos externos ou culminantes, na denominação de Levinson (1978), podem contribuir com a entrada no meio da vida.
A transição do meio da vida consiste em um período de mudança de identidade psicológica, no qual o embate sombra/persona é um dos temas centrais. O confronto com a sombra leva a uma experiência de perda e luto da identidade anterior, que já não consegue abarcar a nova realidade psíquica. Em seguida, a separação conduz a um período de ambiguidade podendo finalmente levar à construção e consolidação de um novo senso de identidade, mediante uma vivência de alteridade.
Ao olhar a transição do meio de vida, em especial as crises no trabalho, à luz do processo de individuação, compreende-se que essas experiências, se forem elaboradas, podem cooperar com um novo despertar da psique, em termos de ampliação de consciência.