3 AS EXPERIÊNCIAS TRANSPESSOAIS E O PERCURSO DOS EDUCADORES
4.1 O paradigma da espiritualidade: um debate em torno da integralidade do ser
4.1.1 As diferentes expressões da espiritualidade
O conceito de espiritualidade não é novo e nem há um consenso sobre o mesmo. Diversos são os olhares e as influências filosóficas, religiosas e científicas que impelem ao entendimento dessa temática. Segundo Policarpo Júnior (2010, p. 81), “[...] a espiritualidade não está fora da vida, mas é parte dela. [...] A espiritualidade é um modo de viver a própria vida. Em nenhum lugar poderemos encontrar a dimensão espiritual separada do viver”.
Assim, podemos compreender que a “Espiritualidade não exclui, em princípio, nenhuma fé religiosa como forma específica de vivenciar a espiritualidade. Por outro lado, nem tudo que se apresenta como religião também inclui a espiritualidade” (RÖHR, 2010, p. 20). Nesse contexto, comungamos com a visão de Ferreira (2010b, p. 381), quando afirma que estamos falando
[...] de uma espiritualidade integral, uma espiritualidade que inclui ascensão e descensão, imanência e transcendência sem separatividades, mesmo consciente das dificuldades de expressá-las no mundo vivido. Uma espiritualidade que se revela no mundo vivido a partir de um movimento espiralado de recuos e avanços, de luz e sombras, de tentativas de desdobrar e integrar as múltiplas dimensões do Ser. Uma espiritualidade que se revela nos
gestos e que se confunde com os próprios fins da formação humana: a humanização.
Apresentando um olhar psicológico para a concepção de espiritualidade, Ferreira (2012) destaca que a luta para inserir a visão espiritual nos estudos e nas investigações da área de psicologia remete à época do iluminismo, que impregnou na cultura ocidental uma aversão ao fato religioso. Ao mesmo tempo, o autor explicita os trabalhos de James (1890, 1902), Kolberg (1992) e Fowler (1992) como pioneiros na distinção entre as concepções de religião e espiritualidade. Nesse contexto, Tanyi (2002, p. 502) aponta que “Espiritualidade e religião são palavras usadas indistintamente; a fim de esclarecer o significado da espiritualidade, uma distinção entre estas duas palavras é justificada”26.
Já Moreira-Almeida (2009), compreendendo a dificuldade para estabelecer a diferenciação entre esses dois constructos – espiritualidade e religiosidade - adota em seu estudo sobre “Espiritualidade & Saúde Mental: O desafio de reconhecer e integrar a espiritualidade no cuidado com nossos pacientes”, os conceitos de Koenig et al. (2001) e Hufford (2005), que apresentamos no quadro 4 a seguir.
Quadro 4 - Definições de espiritualidade e religiosidade
Fonte: Moreira-Almeida (2009, p. 3).
Considerando ainda a relação psicologia e espiritualidade, Wilber (2007, p. 147) estabelece cinco definições mais comuns de espiritualidade:
(1) A espiritualidade envolve os níveis mais elevados de qualquer uma das linhas de desenvolvimento. (2) A espiritualidade é a soma total dos níveis mais elevados das linhas de desenvolvimento. (3) A espiritualidade é, ela mesma,
26 Spirituality and religion are words used interchangeably; in order to clarify the meaning of spirituality, a distinction between these two words is warranted.
uma linha de desenvolvimento separada. (4) A espiritualidade é uma atitude (tal como a sinceridade ou o amor) que você pode ter em qualquer estágio em que esteja. (5) A espiritualidade, basicamente, envolve experiências de pico, e não estágios.
Ampliando essa discussão, com o intuito de operacionalizar as expressões de espiritualidade por meio de instrumento de pesquisa, MacDonald (2000b, p. 158) parte de cinco concepções acerca da espiritualidade:
[...] (a) a espiritualidade é um construto multidimensional que inclui componentes complexos experienciais, cognitivos, afetivos, fisiológicos, comportamentais e sociais; (b) a espiritualidade é inerentemente um fenômeno/constructo experiencial que inclui experiências rotuladas espiritual, religiosa, de pico, mística, transpessoal, transcendente e numinosa; (c) a espiritualidade é acessível a todas as pessoas e as diferenças qualitativas e quantitativas nas expressões de espiritualidade podem ser medidas através dos indivíduos; (d) a espiritualidade não é sinônimo de religião, mas reflete um campo conceitual que inclui a religiosidade intrínseca; e (e) espiritualidade inclui crenças paranormais, experiências e práticas27
Ao mesmo tempo, seria um equívoco pensar que a espiritualidade é algo baseado e que só diz respeito à subjetividade da pessoa. Não podemos caracterizar a espiritualidade na diferenciação entre idealismo e materialismo. Isso porque todas as dimensões são materiais, mesmo a dimensão espiritual. Da mesma forma, a espiritualidade perpassa todas as dimensões, e não pode ser entendida como algo exclusivamente não material (RÖHR, 2010).
Uma abordagem integral da espiritualidade destaca sua aplicação, revela o papel novo da religião e os estágios de desenvolvimento da espiritualidade. Nesse sentido, “[...] o novo ser humano é integrado, e assim o é a espiritualidade” (WILBER, 2006, p. 11). Assim, concordamos com Ferreira (2010a) quando esclarece que Wilber (2006, 2007) e Röhr (2010) entendem que as multidimensões estabelecidas em seus respectivos esquemas não são estágios lineares e monolíticos que se sucedem hierarquicamente.
27 (a) spirituality is a multidimensional constructo that includes complex experiential, cognitive, affective, physiological, behavioral, and social componentes; (b) spirituality is inherently an experiential phenomenon/constructo that includes experiences labeled spiritual, religious, peak, mystical, transpessoal, transcendente, and numinous; (c) spirituality is accessible to all people and qualitative and quantitative diferences in the expressions of spirituality can be measured across individuals; (d) spirituality is not synonymous with religion but reflects a constructo domain that includes intrinsec religiousness; and (e) spirituality includes paranormal beliefs, experiences, and practices.
Podemos ir mais além para defender a ideia de visões e concepções de espiritualidade(s). A discussão, nesse caso, envolve um patamar mais experiencial-existencial do que teórico- conceitual. Reforçando esse entendimento, compreendemos que
[...] a espiritualidade não é um compartimento, nem algo que esteja separado de nós mesmos. Estamos inseridos nela e ver isso só depende do modo como resolvemos viver. Assim, [...] A experiência da espiritualidade nos convida a cuidar de todas as dimensões do nosso ser” (POLICARPO JÚNIOR, 2010, p. 82-84).
Os estudos de Tanyi (2002, p. 500), envolvendo os diferentes conceitos de espiritualidade, destacam que
A espiritualidade é um componente inerente ao ser humano, e é [...] multidimensional. Espiritualidade e religião são freqüentemente usadas indistintamente, mas os dois conceitos são diferentes. A espiritualidade envolve a busca dos homens por sentido na vida, enquanto a religião envolve uma entidade organizada com rituais e práticas sobre um poder maior ou Deus. A espiritualidade pode estar relacionada com a religião para certos indivíduos, mas para outros, como um ateu, pode não ser.28
Martins (2012), inspirada nos argumentos de Edwards et al. (2010), destaca que os conceitos de espiritualidade estão associados a “Relação com o próprio”; “Relação com os outros”, “Relação com a natureza e música”; “Relação com Deus ou outra entidade superior”; “Esperança, significado e propósito de vida”. Isso reforça a multiplicidade de interpretações e aplicações do significado da expressão espiritualidade.
Pode-se assim perceber que a diversidade de conceitos sobre espiritualidade está implicada na forma de entender e viver a vida, a partir de uma experiência e crença existencial. Corroboramos assim Chaves (2010) quando, alicerçada em sua pesquisa e nos argumentos de Pazzola (2002), admite que o principal objetivo da espiritualidade é melhorar pensamentos, palavras e ações que afetam o comportamento do sujeito, que assume uma noção mais autêntica de sua identidade e dos valores que precisam desenvolver para a busca de uma vida mais plena. Diante desses diferentes conceitos da espiritualidade, apresentar o nosso conceito pode concorrer, destoar ou repetir com outras palavras o que já está posto pelos diversos campos do saber. Nossa concepção de espiritualidade está ligada à relação-ação, imanente-transcendente, aqui-agora-além, em diferentes planos e contextos da vida e do humano. Defendemos uma visão
28 Spirituality is an inherent component of being human, and is subjective, intangible, and multidimensional. Spirituality and religion are often used interchangeably, but the two concepts are different. Spirituality involves humans’ search for meaning in life, while religion involves an organized entity with rituals and practices about a higher power or God. Spirituality may be related to religion for certain individuals, but for others, such as an atheist, it may not be.
de espiritualidade como experiência íntima e singular que cada humano vivencia, mesmo que não saiba ou consiga nominar. É um estado de consciência (consciente e inconsciente) que permeia valores, formações e o que nos escapa. Por isso, identificamos a necessidade de estabelecer as principais contribuições desse paradigma para a educação. Tal aspecto é o tópico que abordamos na próxima seção.