“ (…) Pelé, Eusébio, Ronaldo, por exemplo, cresceram a jogar Futebol de Rua, regressando a casa com esfoladelas
nos joelhos. Agora na maioria dos países torna-se impossível que tal aconteça. Que fazer então? Integrar os miúdos em escolas de Futebol, nas quais eles tenham possibilidade de praticar um Futebol parecido com
aquele que eu, quando era miúdo, praticava”.” (Mourinho, 2005, cit. Costa, 2005)
“Queremos mais parques e recreios porque na sua
ausência desaparece o homem criança, o homem jogador das brincadeiras ingénuas, dando lugar à precocidade do adulto empedernido, interesseiro, astucioso, egoísta” (Bento, 2004a)
Se há alguns anos o processo de formação dos miúdos acontecia “espontaneamente”, na rua, desenvolvendo estes um conjunto de qualidades e competências (Fonseca, 2006) que lhes permitiam posteriormente chegar aos clubes já com alguns atributos técnicos que lhes possibilitava evoluir de certa forma rápida, actualmente tal não se verifica.
E porquê? Um facto bem evidente são as alterações verificadas nas cidades, onde para além da proliferação do clima de insegurança, os espaços verdes começam a escassear em prol de grandes torres ou centros comerciais, sendo desta forma cada vez mais difícil encontrar ruas cujos jovens possam jogar Futebol por brincadeira (Cruyff, 2002). De facto, tornam-se raros os espaços que possibilitem aos jovens viver a realidade do Futebol de Rua e o conjunto de vivências que lhes estavam associadas (Michels, 2001). Tal situação provocou que, como forma de justificação pela crise que afectara a
selecção brasileira após o Mundial de 1970 e que apenas chegara ao fim com a vitória no Mundial dos Estados Unidos, em 1994, vários analistas chegassem a apontar o dedo à especulação imobiliária que devorou diversos espaços livres em várias cidades (Mendes, 2004).
Outro aspecto que importa salientar é a diminuição do tempo de “ser criança”. Um tempo caracterizado fundamentalmente pela permissão de fazer o que lhes apetecer, de brincar, experimentar e descobrir “sozinho”, um tempo que cada vez mais é controlado e roubado pelos adultos transformando estas naquilo a que Viana (2008) caracterizou como “crianças de agenda”, não lhes permitindo deste modo arranjar tempo para simplesmente “jogarem à bola”, para brincarem, o que influencia decisivamente o desenvolvimento do seu espírito criativo e da espontaneidade (Gleick, 2003), aspectos que enriquecem significativamente o seu Futebol e o NOSSO Futebol. Por outro lado, os pais também não se podem alhear das suas responsabilidades nesta problemática, uma vez que, com os seus desejos de dotar os filhos de variadas competências no sentido de os preparar da melhor forma possível para a competitividade do futuro, acabam por lhes retirar tempo para as suas brincadeiras fundamentais (Ginsburg, 2007).
De facto, estamos perante uma “era” em que o tempo livre das crianças escasseia (Lopes, M., 2008) e onde nem um simples “furo” nas escolas pode ser aproveitado para jogar `”bola” sendo as crianças logo encaminhadas para o interior duma sala numa actividade sedentária (Pacheco, 2008).
Deste modo, parece lógico que todas estas alterações sociais que se têm verificado não permitem mais a prática do denominado Futebol de Rua (Bento, 2004b), um Futebol apaixonante, louco, alegre. Um estado orgânico, natural, em que a motivação era uma constante e em que de facto havia um relacionamento em função daquilo que era o desejo de todos: o “jogar à bola”. Independentemente das condições em que se praticava (número de jogadores, condições espaciais, tipo de bola, etc.) o que realmente importava era jogar, jogar e jogar ainda mais. (Frade, 2006)
Como refere Bento (2004b, pp. 204) o “Futebol não se aprende mais ao ar livre e no espaço aberto: nas ruas, nas praças e nos campos por cultivar”.
Salienta o memo autor que o Futebol agora é ensinado no “recinto fechado” e que a “a autorização para participar no jogo passou da amizade com o dono da bola para a matrícula numa escolinha”.
Desta forma, revela-se fundamental compreender este “vazio” e torna-se urgente que as estruturas responsáveis pela formação se adaptem ao progressivo desaparecimento do Futebol de Rua (Lopes, M., 2008).
Neste comprimento de onda, pensamos que faz todo o sentido recriar aquilo a que Atlan (2006) caracterizou de “Útero Artificial”, ou seja, sabendo que os jogadores actualmente, e contrariamente ao que sucedia no passado, iniciam a sua familiarização ao jogo fora dos grandes palcos (Rua), é fundamental possibilitar a estes jovens contextos que recriem essa realidade propiciando deste modo o desenvolvimento do talento dos jovens jogadores. Só assim, independentemente das origens do “embrião”, fecundação “convencional” (entenda-se Rua) ou produto de construções celulares artificiais - o tal núcleo artificial (entenda-se escolas de formação) e nutrindo esse núcleo com o Espírito e o Estado de Alma caracterizadores deste Futebol de Rua será possível formar “bebés tão humanos como os outros, embora a origem seja diferente” (Atlan, 2006)
Urge assim a necessidade de se identificar os traços caracterizadores do Futebol de Rua, a sua essência, e com base nessa fonte procurá-la reproduzi- la em contextos que não os da rua, procurando deste modo revitalizar tal processo uma vez que este não é mais possível de ser reproduzido nos dias de hoje (Fonseca, 2006).
Nesta linha de pensamento, a crescente procura das academias e escolas de Futebol por parte dos pais pode ser benéfica para a melhoria da qualidade dos jogadores (Maciel, 2008).
De facto, se por um lado se observa a decadência das práticas de antigamente, que se revelaram fundamentais para o despertar de talentos, a crescente procura da prática desportiva em idades cada vez mais precoces (Marques, 1998) pode representar um alento para o futuro de Futebol, desde que, claro está, tenha-se sempre em atenção o conceito de “útero artificial” já
referido, conseguindo-se assim recriar um processo que, como salientado, era natural e espontâneo (Maciel, 2008)