4.1. Ambientes e instituições ligadas ao cárcere e ao pós-cárcere feminino 134
4.1.2. As instituições conveniadas com a IGESP 139
Desde 2001, a IGESP firma convênio com instituições públicas que recebem homens e mulheres libertas do cárcere para o trabalho. Através dos convênios, essas instituições se comprometem a contratar pessoas que estão em regime semiaberto e aberto, remunerando-as pelo trabalho. Não se trata de emprego celetista, com direitos trabalhistas. Há, porém, recolhimento para a previdência social e desconto do Imposto sobre Serviços (ISS). Juridicamente, o trabalho que resulta do convênio é considerado “trabalho do preso” e, por isso, pode ser remunerado em ¾ do salário mínimo, embora todas as instituições paguem mais do que isso. Homens e mulheres beneficiados por esses convênios só podem permanecer no trabalho até o término da pena, não havendo obrigação de contratação posterior. A maioria deles/as passa muitos anos no convênio e, uma vez finalizada a pena, voltam à condição de desempregados/as. Por isso, não deixa de ser um trabalho de natureza temporária.
Mesmo assim, esses convênios têm o importante papel de oferecer a primeira oportunidade de trabalho a pessoas libertas da prisão, podendo tornar-se referência para futuros empregos em outras instituições. No entanto, é preciso considerar que as dificuldades enfrentadas por essas pessoas não se encontram no aspecto técnico/profissional da atividade desempenhada, mas no fato de que, até cinco anos depois de cumprida a pena por completo, elas ainda figuram no rol dos culpados da Justiça Criminal, de modo que, quando solicitada a certidão de antecedentes criminais, aparecem os registros da condenação penal. Diante dessa “marca”, empregadores acabam por resistir em contratar essas pessoas, o que revela a estigmatização sofrida por elas.
Para a fiscalização da execução dos trabalhos, a IGESP disponibiliza um fiscal (agente penitenciário) para cada instituição, que a visita diariamente, averiguando frequência e buscando informações sobre o andamento das atividades, comportamento, entre outros dados importantes para a avaliação do trabalho desempenhado. Além disso, esse fiscal fica responsável por resolver problemas de convívio que eventualmente ocorrem entre os/as trabalhadores/as, levando as questões mais delicadas ao conhecimento da gerência dos convênios na IGESP.
A manutenção desses três convênios é permeada por grandes dificuldades administrativas e políticas. Administrativamente, pode ser destacada a falta de estrutura física e de pessoal na IGESP, o que desemboca na dificuldade de cadastramento e acompanhamento das pessoas libertas do cárcere. Politicamente, é possível apontar os entraves internos existentes em cada instituição conveniada, sobretudo diante das vicissitudes do cotidiano de
trabalho de pessoas libertas da prisão, que possuem condição jurídica diferenciada dos contratados celetistas.
Cada uma das três instituições atualmente conveniadas com a IGESP tem características peculiares, seja na estrutura de trabalho ou na forma como tratam os trabalhadores e, em especial, as trabalhadoras. Apresento adiante as particularidades dessas instituições.
a) Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Alagoas (IFAL)
O IFAL, anteriormente denominado Escola Agrotécnica Federal de Satuba (EAFS), firmou o primeiro convênio com a então Secretaria de Justiça e Cidadania (atual IGESP), responsável pela administração penitenciária de Alagoas, no ano de 2001. Renovado por diversas vezes desde então, o convênio celebrado entre IGESP e IFAL contempla apenas o
campus Satuba (Cidade da Grande Maceió), que consiste em escola agrotécnica, com turmas
de nível médio e superior, havendo estudantes de semi-internato e internato. Como se trata de uma área rural, mas com edificações específicas para sala de aula, refeitório, setores administrativos, igreja, entre outros, homens e mulheres que ali trabalham por força dos convênios desempenham atividades em todas essas edificações.
Esse convênio serviu como uma espécie de modelo para as outras parcerias firmadas, já que foi a primeira referência no Estado de Alagoas. Embora não mencione expressamente a contratação de mulheres, fazendo uso da expressão “apenados” apenas no masculino, a interpretação que se faz, à luz da igualdade constitucional, é que há possibilidade de contratação de mulheres, sobretudo porque não há cláusula em contrário.
No IFAL os/as conveniados/as desempenham os mesmos trabalhos que os demais funcionários. A divisão sexual do trabalho aparece nas diferenças existentes entre as atividades atribuídas a homens e mulheres. Enquanto eles ficam mais na capinação (por toda a área rural do IFAL), as mulheres desenvolvem trabalhos de natureza doméstica, varrendo, cozinhando, servindo no refeitório e cuidando dos alojamentos. Isso reflete na desproporção existente entre o número de homens e mulheres contratados. De um total 22 pessoas contratadas, 17 são homens e cinco são mulheres.
Ao analisarem as vantagens do convênio, os gestores consideram que é um trabalho mais barato do que a contratação de celetistas, mas que não perde na qualidade do serviço. Por isso, explicitam o desejo de aumentar o número de trabalhadores/as conveniados/as, considerando, além das vantagens para a instituição, o papel social do convênio.
O IFAL remunera os/as conveniados/as com o valor de R$ 510,00, deduzidos o ISS, correspondente a R$ 15,30, e INSS, no valor de R$ 56,10, o que perfaz um total líquido de R$ 438,60. Além disso, fornece café da manhã e almoço para os/as trabalhadores/as no próprio refeitório, consistindo na mesma comida que é servida aos alunos e aos demais funcionários. Os/As trabalhadores/as usam farda e recebem o Equipamento de Proteção Individual (EPI).
O fardamento dos/as beneficiados/as pelo convênio não se diferencia daquele utilizado pelos demais funcionários. O ambiente de trabalho é marcado por um tratamento descontraído e cortês, de modo que todos/as os/as que ali trabalham parecem se sentir muito à vontade, embora haja orientação expressa do setor responsável pelo convênio para que os/as trabalhadores/as não se envolvam com estudantes, evitando, inclusive, contato com eles, o que, a rigor, atenta contra o sentido de reintegração social que está na essência do convênio firmado. As mulheres entrevistadas mencionam essa limitação, avaliando como algo “preconceituoso” e que fere a igualdade. Segundo elas, nem todos os estudantes sabem da origem dos trabalhadores, já que a comunidade acadêmica do IFAL é muito grande, mas há aqueles que já tomaram conhecimento e que se dirigem a elas com ressalvas, dizendo: “Ô, Tia! A gente num pode nem falar com vocês, porque a gente já sabe que se falar com vocês, eles botam pra fora”17.
Para as mulheres que ali trabalham, há o reconhecimento de que, embora atuando em atividades semelhantes às dos demais trabalhadores/as contratados/as pelo IFAL, há uma certa diferenciação no tratamento conferido aos/às beneficiados/as pelo convênio, já que devem transitar invisíveis entre os/as alunos/as. Embora não concordem com essa orientação, porque entendem que não representam nenhuma ameaça aos estudantes e compreendem o convênio como uma oportunidade de trabalho e reinserção social, sabem que tudo isso está diretamente relacionado ao fato de serem ex-presidiários/as.
b) Companhia de Saneamento de Alagoas (CASAL)
17
O convênio entre CASAL e IGESP foi firmado em 2002, contemplando inicialmente apenas os homens, muito embora não houvesse cláusula que restringisse a contratação feminina. Somente em 2009 é que as mulheres foram aceitas nos quadros de trabalhadores conveniados, por incentivo da Diretora do Departamento de Recursos Humanos da CASAL. No entanto, logo no início das atividades, uma das mulheres trabalhadoras engravidou, o que gerou uma grande discussão entre as instituições conveniadas, já que o convênio não previa licença-maternidade, inclusive para fins de remuneração. Foi cogitado, inclusive, o desligamento de todas as mulheres trabalhadoras do convênio. A Direção da CASAL, após grande entrave interno, resolveu remunerar o período de licença-maternidade equivalente aos celetistas e, terminado o prazo, a contratada voltou às atividades, só saindo ao final do cumprimento da pena.
A partir de então, os termos anuais de prorrogação do convênio passaram a trazer as expressões “reeducandos” e “reeducandas”, e na cláusula quarta, item IV, há disposição expressa de que a CASAL assume os encargos trabalhistas e previdenciários decorrentes do vínculo formado por reeducandos e essa instituição, o que engloba as questões relacionadas à licença-maternidade.
Atualmente há 44 pessoas trabalhando na CASAL, sendo 39 homens e cinco mulheres. Além dos fatores ligados aos números da população carcerária alagoana (cerca de 2 mil homens e 120 mulheres), essa diferença no número de homens e mulheres contratadas resulta tanto da natureza do trabalho, já que os homens desempenham a própria atividade-fim dos demais trabalhadores da CASAL (manutenção de equipamentos de abastecimento de água por vários pontos da cidade de Maceió), como do fato de que a aceitação de mulheres é algo recente no convênio.
Entre todos os convênios existentes, o da CASAL parece ser aquele que mais valoriza o/a trabalhador/a, pagando um salário de R$ 730,00, vale-refeição e vale-transporte. Além disso, investe na educação desses/as trabalhadores, que atuam não apenas no trabalho braçal, de limpeza e na atividade-fim, mas também em atividades burocráticas, lidando com protocolos e atuando em secretarias de setores administrativos. Esse investimento consiste no incentivo a cursos de alfabetização, informática, ensino médio, algo que eles mesmos fornecem desde 2010, com a inauguração de uma sala de aula específica para esse fim. Com essas características, o convênio da CASAL acaba sendo o mais visado por homens e mulheres libertos da prisão, porque é considerado aquele que proporciona maior possibilidade de crescimento profissional.
c) Universidade Federal de Alagoas (UFAL)
A UFAL firmou convênio com a IGESP em 2002, com o objetivo inicial de receber apenados para o trabalho no campus Maceió. Embora os termos do convênio sejam absolutamente iguais aos do IFAL, há uma expressiva diferença na forma de execução do convênio pela UFAL, sobretudo diante da autonomia dos gestores imediatos, responsáveis pela administração cotidiana das atividades dos trabalhadores.
A execução do convênio da UFAL é marcada por duas grandes controvérsias, que demonstram o distanciamento existente entre o acolhimento de uma política pública dessa natureza por parte dos gestores maiores – Reitores/as – e as medidas adotadas por aqueles que administram o cotidiano dos beneficiários, alheios às cláusulas do próprio convênio.
Na cláusula primeira, que trata do objeto, há menção expressa ao objetivo de propiciar aos apenados “condições de trabalho nas dependências da UFAL, cujos locais serão indicados pela Administração, em atividades e serviços inerentes às aptidões individuais dos beneficiários, visando o seu ajustamento no trabalho produtivo e na convivência social”. Disso se depreende que os beneficiários do convênio podem atuar em quaisquer atividades e serviços disponíveis no campus, o que incluiria atividades de manutenção e limpeza da área verde e das edificações, além de atividades administrativas. Porém, por uma questão de costume local, estabelecido pelos responsáveis diretos pela execução do convênio, que desconhecem os termos precisos do próprio convênio firmado, essa cláusula vem sendo ignorada, de modo que todos os que ali trabalham somente desempenham atividades de capinação das amplas áreas verdes existentes em toda a extensão da Universidade e de recolhimento do lixo. O trabalho de limpeza de salas de aula e outras dependências é desempenhado por funcionários de uma empresa terceirizada, contratada exclusivamente para esse fim, além de funcionários da própria Universidade. Os conveniados recebem orientação expressa da chefia imediata para não adentrarem nos espaços por onde circulam alunos/as professores/as e funcionários/as. Questionado sobre os motivos dessas limitações, um desses gestores afirma que “o convênio não permite”. No entanto, a leitura do convênio revela que não existe tal determinação. Isso significa que, na UFAL, os trabalhadores ficam limitados a atividades braçais na capinação, quando poderiam ser designados para outros trabalhos.
Um segundo aspecto a ser analisado é uma questão de gênero latente. No primeiro ano de convênio havia duas mulheres beneficiadas. Atualmente, porém, somente homens trabalham através do convênio da UFAL. A justificativa dada pelo responsável imediato do setor que administra o trabalho dos conveniados é que “essas mulheres ficam nos matos com esses homens, e isso não dá certo. Mulher com homem: lobisomem”. Alegou, ainda, que os problemas com drogas entre os trabalhadores/as ocorreram na época em que as mulheres ali trabalhavam. Essas informações reforçam a estigmatização feminina presente na vida cotidiana, já que tal proibição não consta das cláusulas do convênio firmado entre a UFAL e a IGESP. Como o mesmo convênio, por outro lado, não obriga a UFAL à contratação de mulheres, prevalecem as orientações e o costume daqueles que tratam diretamente com os beneficiados pelos convênios e com o setor da IGESP responsável pelo encaminhamento e fiscalização dos trabalhadores.
Os gestores maiores da UFAL – a Reitora e o Vice-Reitor –, quando entrevistados para a pesquisa, demonstraram desconhecer essa justificativa, acreditando que o fato de não haver mulheres trabalhando atualmente através do convênio se daria pela natureza pesada do trabalho de capinação. Ignoram, também, que existe a possibilidade legal, de acordo com o próprio convênio, de encaminhar os/as trabalhadores/as para outras atividades distintas da capinação. Chegaram, inclusive, a comprometer-se em rever tal situação, buscando informações com o setor responsável. Demonstraram, ainda, o interesse que a gestão tem de ampliar o convênio, por se tratar de uma importante política social, condizente com os propósitos de uma Universidade pública, que dispõe dos mais variados cursos de graduação e pós-graduação, aptos a contribuir, através de professores/as e alunos/as, para a reintegração social de homens e mulheres libertos da prisão.
Os 45 homens que desempenham atividades laborais na UFAL usam fardamento específico, com as siglas do convênio impressas. No entanto, a grande maioria dos estudantes, professores e funcionários desconhecem a origem daqueles trabalhadores, já que, a não ser pelo fardamento distinto, a presença deles no cotidiano universitário não se diferencia dos demais contratados. Por isso, os trabalhadores conveniados transitam invisíveis pelo campus.
Eles manipulam instrumentos cortantes, contundentes, elétricos e até um trator, e para tanto são disponibilizados os Equipamentos de Proteção Individual (EPI). A UFAL remunera os trabalhadores conveniados com R$ 650,00, além de vale-refeição. Eles trabalham de segunda a sexta, em jornadas de oito horas diárias.
O ambiente de trabalho, diante de todas as circunstâncias apontadas, não favorece a valorização dos homens que ali trabalham, o que fica evidente no fato de que um dos responsáveis pelo setor dos trabalhadores conveniados se refere a eles, ironicamente, como “santinhos”. Isso demonstra que não há uma atenção ao objetivo maior do convênio, que é proporcionar o acesso ao trabalho produtivo e à convivência social.
Apresento abaixo um quadro comparativo dos convênios firmados com a IGESP:
Quadro 7 – Comparativo dos convênios firmados com a IGESP
Convênio IFAL CASAL UFAL
Objetivos Propiciar aos apenados
em regime semiaberto e aberto condições de trabalho nas
dependências do IFAL, cujos locais serão indicados pela Administração, em atividades e serviços inerentes às aptidões individuais dos beneficiários, visando o seu ajustamento no trabalho produtivo e a convivência social. Capacitação profissional e mão de obra de reeducandos e reeducandas que estejam em regime semiaberto e aberto.
Propiciar aos apenados em regime semiaberto e aberto condições de trabalho nas
dependências da UFAL, cujos locais serão indicados pela Administração, em atividades e serviços inerentes às aptidões individuais dos beneficiários, visando o seu ajustamento no trabalho produtivo e a convivência social.
Beneficiados/as Homens e mulheres. Homens e mulheres. Somente homens.
Nº de beneficiados/as 22, sendo 17 homens e cinco mulheres. 44, sendo 39 homens e cinco mulheres. 45 homens. Atividades desenvolvidas Homens: capinação. Mulheres: atividades domésticas (limpeza, cozinha e refeitório, cuidando dos alojamentos). Homens: Atividades-fim (manutenção do sistema de abastecimento), construção, capinação e atividades administrativas Mulheres: atividades domésticas (copa e limpeza) e atividades administrativas. Homens: capinação.
Remuneração R$ 438,60, além de café da manhã e almoço nas suas dependências. R$ 730,00, além de vale- refeição e vale- transporte. R$ 650,00 e vale- refeição.
Fardamento Igual aos dos demais
funcionários/as.
Diferenciado dos demais funcionários/as.
Diferenciado dos demais funcionários.
Incentivo à educação formal
Não fornece. Sim, através de cursos
ministrados em sala de aula especificamente construída para esse fim.
Não fornece.
É importante ressaltar que as parceiras da IGESP nos convênios são duas instituições públicas de ensino superior federais (IFAL E UFAL) e uma sociedade de economia mista estadual (CASAL), mas somente esta última, que não tem a educação como atividade-fim, é que investe na educação de homens e mulheres libertas do cárcere, que ali encontram a primeira oportunidade de emprego, ainda que nas condições peculiares e limitadas do convênio, em particular pelo fato de não se tratar de emprego formal, com contratação celetista, mas de emprego de natureza temporária.
É propósito da IGESP firmar novos convênios com outras instituições, públicas e privadas do Estado de Alagoas, com o intuito de proporcionar mais espaços de inserção no mercado de trabalho. No entanto, não se trata de algo simples. É preciso vencer uma série de barreiras políticas e, notadamente, o preconceito existente nos espaços profissionais, diante da condição peculiar das pessoas que passaram pela prisão. Para as mulheres, há ainda o fato de que normalmente desempenham, apenas, atividades de natureza doméstica, ressalvados os casos de trabalhos burocráticos, que são mais raros. Por isso, as vagas em instituições e empresas tendem a ser mais limitadas. Isso já acontece nos convênios em vigor.
Mesmo assim, as poucas vagas destinadas a mulheres nos atuais convênios tendem a ser vistas como importantes oportunidades para reinserção no mercado de trabalho ou até mesmo como a primeira oportunidade de trabalho para algumas delas, sobretudo as mais jovens, que adentraram os muros do presídio com 18 ou 19 anos de idade. É por isso que, nas narrativas das mulheres libertas do cárcere, a oportunidade de trabalhar através dos convênios aparece como algo de grande importância em suas vidas.