1 PRISÃO E LIBERDADE: NOTAS SOBRE O CAMPO
1.2 As interlocutoras: jovens presas e jovens em liberdade
No início da pesquisa de campo, acreditei estar a realizar um estudo geracional, visto que havia a possibilidade de entrar em contato com mulheres jovens praticantes de crimes com características semelhantes e ainda estando em diferentes idades. Fato que me possibilitaria acompanhar os seus percursos em direção a uma carreira criminosa do início até o final de suas juventudes.
Porém, diferentemente ao que fora por mim esperado, as interlocutoras não se apresentaram como um continuum de uma para a outra. O campo proporcionou dois grupos
distintos de interlocução que, apesar de próximos no que se refere às suas práticas ilícitas em posições de liderança, não se encontravam em uma trajetória criminosa contínua. As mulheres em liberdade com quem convivi, as ―meninas‖ (assim chamadas pelos profissionais que as acompanhavam), demonstravam que, dificilmente, se tornariam as mulheres presas que conheci.
Enfatizo que os dois grupos de interlocução – as jovens presas e as jovens em liberdade (denominações que utilizarei ao longo da tese) – possuiam distinções que iam para além das suas idades e das suas situações atuais de aprisionamento ou de liberdade, e que, muito diziam também a respeito de seus lugares e de suas formas de atuar nas práticas ilícitas. Assim, algo a mais acontecia com as presas de não passarem, quando mais jovens, pelas mesmas situações de vulnerabilidade das mulheres em liberdade e, algo a menos, fazia com que as jovens em liberdade não chegassem ao padrão de experiência e habilidade no crime apresentado pelas mulheres presas.
Um ponto que destaco como fundamental constitui-se no grau de planejamento e habilidade apresentado, principalmente pelas interlocutoras presas, que possuiam idades entre 21 e 29 anos. Elas se diziam capazes de planejar e executar seus crimes; formar equipes competentes e experientes para as situações exigidas; e calcular antecipadamente os ganhos e as dificuldades que poderiam encontrar nas práticas ilícitas a serem empreendidas. Ou, pelo menos, elas pareciam bastante eficientes no convencimento de suas capacidades para mim como pesquisadora. Em nossos encontros, escutei diversos relatos minuciosos do planejamento e da execução de crimes praticados que obtiveram êxito e que, segundo elas, nunca haviam sido descobertos pela polícia. Em nossas conversas, houve momentos em que elas faziam verdadeiras análises de alguns crimes que estavam tendo repercussão na mídia e conseguiam, com destreza e rapidez, destacar os pontos fortes e, principalmente, as falhas que acabariam por levá-los a apreensão de suas(seus) integrantes. Algum tempo depois, esses crimes debatidos por nós eram desvendados de uma forma muito próxima ao que elas haviam previsto.
Já as interlocutoras em liberdade possuiam idades mais novas que as interlocutoras presas (entre 17 e 19 anos), demonstrando em suas falas menos experiência e pouca habilidade nas práticas ilícitas e, consequentemente, menos capacidade de planejar e calcular os riscos dos seus empreendimentos criminosos. Porém, em contrapartida – por serem mais jovens e terem a tendência cultural, comum a esta faixa etária, de no espaço
urbano, conviver em grupo e formar bandos (MARIA RITA KEHL, 2004) – as jovens em liberdade demonstravam uma boa capacidade na formação e liderança de gangues femininas e/ou mistas, sendo suas práticas ilícitas mais comuns as que giravam em torno de: furtos, assaltos de pequeno porte, tráfico de entorpecentes e agressões físicas a ―meninas‖ também envolvidas na criminalidade.
Outro ponto que merece destaque nessa diferenciação percebida a partir de meu contato com as interlocutoras constitui-se nos fatores econômicos e educacionais. Em sua grande maioria, as interlocutoras em liberdade apresentavam-se mais jovens, mas também, pobres e com menos escolaridade do que as interlocutoras presas. As interlocutoras presas geralmente advinham de famílias mais abastadas – fato que lhes proporcionava a possibilidade do pagamento de advogados e a compra de caros produtos eletrônicos e de beleza, mesmo estando em situação de encarceramento – além de possuírem escolaridade a partir do ensino médio completo. Das sete interlocutoras presas, duas estavam a realizar cursos técnicos de nível médio e duas encontravam-se cursando graduações em faculdades particulares, quando do momento de suas apreensões. Eram mulheres que necessitavam manter e/ou aumentar o padrão social e financeiro já proporcionado por suas famílias. Para elas, as suas práticas criminosas se constituíam em alternativas rápidas e eficazes para conquistar seus objetivos, apesar de não serem aceitas pela maioria de seus espaços de convívio e socialização, onde, para estes, seus crimes permaneciam, na maioria das vezes, em segredo, mesmo depois de serem presas, sendo prática comum entre elas inventar histórias de viagem para alguns familiares e amigos próximos, mantendo contatos telefônicos com estes e reforçando suas justificativas irreais de ausência.
Já para as interlocutoras em liberdade, mais novas, pobres, com menos possibilidades de lazer e com pouca formação no sistema de ensino formal, as práticas criminosas apresentavam-se enquanto situações já esperada e mais facilmente aceitas não só em seus grupos de pares, proporcionando reconhecimento social, mas também, em alguns de seus círculos familiares e sociais. O dinheiro conquistado se constituía como um dos focos dessas ―meninas‖ para a prática e, muitas vezes, para a permanência nos atos ilícitos. A possibilidade de conseguir sair, mesmo que temporariamente, da situação de vulnerabilidade social em que se encontravam, alterando seus padrões de vida, demonstrava ser algo bastante motivador para elas, reforçando as ideias defendidas pela criminologia feminista marxista da busca das mulheres pela prática de crimes para servir-lhes como um meio de sustento
economico. Porém, o que a criminologia feminista marxista não dá conta é das especificidades dessa escolha que não parecem estar coladas apenas a uma busca econômica, tais como: a prática dos crimes em posição de liderança e o uso performático da agressão corporal para com suas iguais/rivais (questões que serão trabalhadas no próximo capítulo).
Sendo assim, pontuo a situação de pobreza, como um dos grandes vilões das jovens em liberdade, se comparadas com as mulheres presas. Fator que acabava por colocá-las em situações de maior vulnerabilidade e risco social, tanto na hora de se esquivarem das situações de risco pessoal, como na hora de fazerem uso de drogas ilícitas mais baratas e mais danosas ao organismo. Acompanhado a isso, há, no Estado de Pernambuco, uma escassez de tratamentos oferecidos pelo serviço público de saúde para jovens mulheres dependentes químicas menores de idade, favorecendo com que essas morram antes da idade adulta ou acabem por crescer em meio à falta de alternativas, abandonando gradativamente suas posições iniciais de liderança, ousadia e coragem nas práticas criminosas em prol da submissão e da dependência que a droga provoca em seus organismos e em suas relações sociais. Afinal, elas tinham que, em nome dessa dependência, e diante do baixo poder aquisitivo, se submeter a situações de prostituição, roubos e furtos de qualquer natureza para, assim, obterem de forma rápida a substância química desejada. Situações que iam de encontro às suas posições iniciais de liderança, quando ―meninas‖, e que as transformavam em jovens presas com uma história de práticas ilícitas de menor grau de comando e que, geralmente, eram praticadas sob a subordinação de outras/os líderes.
Dessa forma, aponto a situação econômica como um dos ―algo a mais‖ a que me referi anteriormente. Esta se constituiu em uma grande aliada das mulheres presas, pois lhes dava a possibilidade de fazer uso de drogas ilícitas mais caras e menos danosas ao organismo, e, mesmo quando em situação de dependência química, havia a possibilidade de serem submetidas a caros tratamentos, principalmente na modalidade de internação compulsória15.
15 Internação compulsória é uma forma de tratamento para dependentes químicos em que a família/equipe médica determina sua internação independente da vontade da pessoa. É uma modalidade de tratamento paga por altos valores (no estado de Pernambuco o custo mensal do tratamento gira em torno de R$ 2.000,00 a 8.000,00). Os serviços de saúde pública do estado não possuem esta modalidade a não ser por via judicial de interdição do sujeito como não capaz de gerenciar a própria vida, sendo necessário acionar uma série de serviços que se caracterizam pela morosidade. O que resta de forma um pouco mais rápida e menos burocrática são os tratamentos com internamento exclusivamente realizados com a concordância da/o dependente em se tratar e/ou abandonar o tratamento quando assim o desejar, fato que ocorre com bastante frequência.
Destaco que essa diferença financeira e social dos dois grupos de interlocução se lança também nos momentos de apreensão pelo ato ilícito praticado, que, diante da ineficiente atuação policial e jurídica voltada para crianças e adolescentes, reforça-se uma cultura de responsabilização juvenil negra e pobre (ALBA ZALUAR, 1994; 2004) e apropriam-se de uma série de justificativas patológicas para a classe média branca envolvida na prática de crimes. A este respeito, as interlocutoras presas – que foram, em sua maioria, meninas de classe média – relatavam que durante sua adolescência nunca foram apreendidas em seus atos ilícitos e, quando ocorria alguma apreensão, ou pagavam suborno, ou eram automaticamente encaminhadas a seus responsáveis, sem nenhuma abertura de inquérito policial. Já as ―meninas‖ negras e pertencentes a classe populares, interlocutoras em liberdade, afirmavam que, frequentemente, eram abordadas por policiais, mesmo sem estarem a realizar práticas ilícitas, sendo consideradas suspeitas antes mesmo que houvesse um ato que justificasse uma investigação.
Diante de tais questões , ao longo das análises, é dada atenção especial a algumas especificidades que surgem referentes as jovens em liberdade e as jovens presas, tanto no que se alude às implicações referentes às idades, classes sociais e experiências tidas na criminalidade, quanto nas situações judiciais em que se encontravam no momento da pesquisa (presas ou em liberdade), fatos que podem destacar possíveis diferenças discursivas, valorativas e interacionais.
1.3 Limites institucionais e contatos de pesquisa: as entrevistas individuais e os grupos