4.5 A linguagem dos quadrinhos: uma leitura para Dotter of her father’s eyes
4.5.1 As memórias datilografadas e as barreiras sequenciais
Em Dotter of her father’s eyes, o uso dos recursos visuais das onomatopeias são reduzidos, com poucas – mas precisas – aplicações em apenas em uma das instâncias temporais: nas memórias de infância de Mary. Nem a rigidez gráfica e colorida do tempo presente ou as sombrias passagens negras da biografia de Lucia recebem o acréscimo desse elemento constitutivo dos quadrinhos. Presentes de forma comedida nos momentos de maior conflito entre Mary e Atherton, as onomatopeias destacam de forma eficaz as brigas e desentendimentos de pai e filha. Graficamente ocupando um espaço de destaque, elas têm o claro objetivo de intensificar a cena dos quadrinhos, demonstrando o som e a intensidade das situações: CRASH! a bola quebra o vidro, separando as cenas como uma borda que limita o quadrinho, e o pronto surgimento do irritado pai, que estava em outro cômodo da casa, mostra que a intensidade do barulho foi ensurdecedora (p. 9); KNOCK! KNOCK! Mary bate
sutilmente à porta para avisar que está entrando - deixando clara a fraca intensidade da batida – mas acaba sendo agredida verbalmente como sempre (p.36); WHUMP! quando Atherton tenta ensinar matemática para a filha, ele perde a paciência com a falta de entendimento dela e mostra uma face raivosa e intimidadora, proferindo frases como “isso é estúpido” e “eu tenho vergonha de você” (p.35). O momento de explosão de raiva, onde ele joga fora os livros de Mary, é marcado pela expressão WHUMP! Em outro momento, quando Mary apenas chama o pai para o chá, ele novamente explode de raiva e joga seu livro na filha: “Eu já ouvi! Maldita seja!”107. Nesse caso, não foi inserida a onomatopeia, mas ela está tão presente pela intensidade da ação que parece ser possível ouvir o barulho WHUMP! (p. 36).
As onomatopeias que representam os momentos dolorosos da relação de Mary e seu pai também recebem destaque: SLAM! o barulho da porta sendo fechada é constantemente retomado em Dotter of her father’s eyes, seja no momento em Atherton expulsa a filha do seu escritório (p. 24), ou quando Mary bate a porta de seu quarto para avisar ao pai que estava descontente (p.29), ato que ao mesmo tempo simboliza uma forma de expressar seu ódio e uma forma de buscar o conforto de seu refúgio; SMACK! A representação do barulho de palmadas demonstra a agressividade das surras que Mary leva, tornando a ação mais dolorosa (p.7); SMACK! SMACK! SMACK! Mary desobedece e irrita seu pai, sendo que a sua intensa surra é apenas sugerida, já que vemos a repetição da mesma onomatopeia cobrindo inteiramente a porta fechada do quarto.
Mas a onomatopeia mais marcante, significativa e simbólica de Dotter of her father’s eyes é a representação gráfica do som TAP TAP TAP TAP TAP das teclas da máquina de escrever (datilografar) de Atherton, que ilustrativamente movimenta-se pela casa, tornando-se o elemento que limita os quadros (p.10), prendendo as cenas que pareciam livres e integradas ao ambiente familiar. Representando um tipo de barreira quase intransponível, o TAP TAP TAP TAP TAP vai perseguir Mary por toda a infância, tornando-se um símbolo do distanciamento do pai: quando “ouvir” o som do seu trabalho, Mary precisa ficar distante, não podendo nem mesmo se aproximar do escritório, já que Atherton precisa se concentrar no seu livro sobre Finnegans wake. O exemplo do quanto essa barreira era gigantesca para Mary pode ser conferido nas sequências dos avisos sobre o chá: Mary chega no escritório e chama o pai para tomar chá, sendo muitas vezes ignorada ou agredida. A movimentação do pai, ilustrado pela grande quantidade de quadros que representam um lento passar de tempo,
107Do original “All right! I heard you, damn it!” (p.36)
aliado à opressão causada pela fumaça do cigarro e do barulho das teclas TAP TAP TAP TAP TAP (p.11), confirmam que esse era um mundo que Mary não tinha direto de invadir, nem mesmo com a melhor das intenções.
Figura 15: Trecho de Dotter of her father´s eyes – onomatopeias como barreira
Fonte: Talbot e Talbot, 2012, p.11.
Mas se a representação gráfica do som das teclas da máquina de escrever de Atherton simboliza seu processo de trabalho contínuo, principalmente durante a produção do seu livro sobre Finnegans wake, o papel dos textos – na forma de recordatórios ou legendas –
em Dotter of her father’s eyes assume a forma de texto literário como produto final. A partir de uma tipologia que reproduz a letra produzida pela máquina de escrever, a inclusão de textos não serve apenas como elemento descritivo, mas complementar à imagem, adotando uma linha literária ao representar longas “falas” e lembranças da narradora, que também atua como biógrafa. Essa aproximação visual com o livro literário pode ser vista principalmente nas páginas que contêm apenas uma ilustração, já que o “texto datilografado” relata informações que não estão descritas na imagem, obrigando que o leitor imagine – sem o auxílio das ilustrações – longos períodos da história. Nesse sentido, os balões não assumem maiores significações visuais e se dedicam exclusivamente a representar os diálogos e, por consequência, contribuir para a construção da personalidade das personagens.
Figura 16: Trecho de Dotter of her father´s eyes – o fim para Lucia
Fonte: Talbot e Talbot, 2012, p.84.
Com relação à sua estrutura de composição de quadros, Dotter of her father’s eyes apenas usa o estilo convencional de quadros – com uma borda bem definida, estabelecendo um claro limite a partir de sua moldura – apenas na instância temporal colorida, que remete ao presente (p.4). Isso parece denotar uma organização, um controle que sua vida está nos eixos, funcionando rotineiramente bem, de maneira padronizada, onde tudo é explicado didaticamente. Provavelmente, o uso de requadros bem definidos e organizados vai de encontro à personalidade atual de Mary, diferente da personalidade mostrada em suas memórias, que é representada por sequências ilustradas que misturam-se sem uma ordem lógica ou padronizada, que não a imposta pelo pai. Nesse sentido, podemos então imaginar que a Mary do tempo presente é tão metódica quanto seu pai, seguindo inclusive seus passos profissionais (p.15).
Tanto nos relatos biográficos de Lucia quanto nos relatos autobiográficos de Mary, a graphic novel não faz uso de requadros com molduras bem definidas. Em quase a totalidade das páginas percebe-se a ausência de borda: dessa forma, não há limitação de espaço para as ilustrações, que se mesclam na página inteira e se integram ao texto como elementos visuais, servindo às vezes como limite ou divisória, separando sequências de ação ou cenas distintas. Em algumas páginas, o tratamento dado à integração visual de texto e imagem chega a afastar-se das histórias em quadrinhos clássicas para assumir um perfil de livro ilustrado, onde os recordatórios são compostos por longos textos explicativos – sem a presença de balões – e a página reflete uma grande ilustração.
Figura 17: Montagem de Dotter of her father´s eyes com foto histórica – a loucura de Lucia
Fonte: Fred Daniels (foto) / Talbot e Talbot, 2012, p.83 (ilustração).
Tomamos como exemplo o momento em que Lucia é internada (p.83): sem requadro ou qualquer outro elemento delimitador de espaço, as ilustrações se integram, refletindo a suposta loucura de Lucia pela desorganização dos elementos na página e pela significação das grades que repetem-se e da camisa de força. Nesse momento, podemos perceber que os movimentos que representam a loucura de Lucia são passos de sua dança contemporânea e incompreendida (figura 17), transpostos simbolicamente da realidade.