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3. SR GUIGUI: DO TRABALHO NO CINEMA À IMORTALIDADE EM ITUMBIARA-

3.4 As memórias do passado no presente nas telas do Sr Guigui

Viajar no tempo e revisitar, em outras épocas, lugares conhecidos, observando mudanças e permanências, diferenças e semelhanças. Possibilidades que se abrem a partir do momento em que se observa uma fotografia, uma tela, um desenho; faz-se a leitura de um texto, carta ou jornal; ou ainda, se examina objetos produzidos e usados em outros tempos. O passado visto por diferentes olhares e reinterpretado a partir das questões e inquietações do observador – as mudanças, as permanências, tudo se coloca diante da tênue linha que marca o que o passado diz e o que o presente escuta. Como afirmou Nora (1993, p.12), "os lugares de memória são constituídos, antes de tudo, por restos, mas constantemente reavivados pelo exercício do lembrar, olhar, tocar".

Muitas memórias se esvaem pela ausência de lembrança, pela falta de conhecimento de um passado. A tentativa de preservar, apresentar fontes que permitam o contato com o passado, pode legar ao presente a possibilidade de constituir identidades, de se ver no passado, ou o passado no presente, evitando o esquecimento e uma história unilateral. O ato de rememoração requer um comportamento narrativo, pois se trata da “comunicação a outrem de uma informação, na ausência do acontecimento ou do objeto que constitui o seu motivo” (LE GOFF, 2003, p. 421). As memórias presentes em objetos guardados, porque no passado alguém os considerou relevantes, a permanência de tal objeto e a observação do mesmo no presente também porque alguém o considerou importante fazem refletir sobre a preservação da memória e a escrita da História

Os lugares de memória nascem e vivem do sentimento que não há memória espontânea, que é preciso criar arquivos, que é preciso manter aniversários, organizar celebrações, pronunciar elogios fúnebres, notariar atas, porque estas operações não são naturais. (NORA, 1993. p. 13)

Enquanto objeto de estudo, as memórias e a história locais traduzem, a princípio, os interesses de grupos que selecionam e marcam o que lhes confere significado e importância. No entanto é preciso ressaltar que ainda que as memórias preservadas em objetos, relatos, imagens estejam já marcadas de significado, as mesmas podem também, sob outro olhar, reativar e trazer à tona novas e mais memórias e histórias adormecidas na penumbra do tempo. Conforme Lowenthal (1998),

...a necessidade de se utilizar e reutilizar o conhecimento da memória, e de esquecer assim como recordar, força-nos a selecionar, destilar, distorcer e transformar o passado acomodando as lembranças às necessidades do presente... (LOWENTHAL, 1998. p. 66)

Não se está imune às influências do passado assim como o passado não está também imune às observações, comparações e versões do presente. Não se separa abruptamente passado e presente, mas observa-se uma interdependência de ambos na constituição das memórias individuais e coletivas. As memórias constituem aquilo que queremos consciente ou inconscientemente preservar:

A memória, portanto, traduz registro de espaços, tempos, experiências, imagens, representações. Plena de substância social é bordado de múltiplos fios e incontáveis cores, que expressam a trama da existência, revelada por ênfases, lapsos, omissões. É ressignificação de tempo, que fornece à história e às Ciências Sociais matéria-prima para a construção do conhecimento. (DELGADO, 2010. p. 61)

O estudo das memórias, como afirma Nora (1993), impõe que cada indivíduo estabeleça com o objeto ali representado uma relação, independente da natureza desta, e imprima, a partir dela, novas memórias sobre o passado, pessoas e lugares, as quais constituem identidades e dão sentido ao presente:

Porque a coerção da memória pesa definitivamente sobre o indivíduo e somente sobre o indivíduo, como sua revitalização possível repousa sobre sua relação pessoal com o seu próprio passado. A atomização de uma memória geral em memória privada dá à lei da lembrança um intenso poder de coerção interior. Ela obriga cada um a se relembrar e a encontrar o pertencimento, princípio e segredo da identidade. [...] (NORA, 1993).

Ainda que registradas conforme recordações e impressões da época de um determinado sujeito, as memórias têm importante papel no desencadeamento de novas memórias e no sentimento de pertencimento de muitos cidadãos que as compartilham.

O homem é um ser permanentemente em busca de si mesmo, de suas referências, de seus laços identificadores. A identidade, além de seus aspectos estritamente individuais, apresenta dimensão coletiva, que se refere à integração do homem como sujeito no processo de construção da história. (DELGADO, 2010. p.51)

Este é o significado das pinturas feitas pelo Sr. Guigui. Elas oferecem, sobre um recorte de tempo, a visão de um participante da história. As telas representam o que se viu e como se via a cidade, as pessoas, os carros, os acontecimentos. As imagens e pessoas retratadas pelo Sr. Guigui são um referencial de reflexão e de pesquisa histórica; são indícios de diferentes momentos da história da cidade e da comunidade local, das transformações do espaço e costumes. Por meio delas, é possível observar os contrastes, as características da cidade e de uma época.

Enquanto objeto de estudo, suas pinturas não são o retrato fiel do passado, mas um meio de captação de memórias que, ao serem confrontadas com outras fontes, possibilitam a compreensão da história local e a constituição identitária. O Sr. Guigui, de forma despretensiosa ou intencional, ao longo de aproximadamente 30 anos, entre 1960 e 1990, registrou uma época que para muitos ainda é o lugar dos passeios, dos namoros, dos eventos da época. Ao pintar um ponto comercial em uma tela, por meio da releitura do olhar fotográfico de outros sujeitos, ele não faz o mero registro de um local, uma referência geográfica, um nome na parede ou uma característica arquitetônica; mas transporta as emoções e vivências passadas.

Por meio dos cards e site, pretendemos mobilizar crianças, jovens e adultos para se conectar com as memórias "imortalizadas" por Sr. Guigui, não para reproduzi-las simplesmente, mas para suscitar novas memórias e reflexões sobre mudanças e permanências entre o passado o presente, as quais podem orientar nosso agir social. Vamos apresentar, com mais detalhes, o processo de elaboração destes produtos, na seção 4.

4. AS TELAS DO SR. GUIGUI EM SITE E CARDS: PROCEDIMENTOS