2 Fundamentos e Argumentos
2.6 Por que um estudo de caso?
2.6.3 Notas em “blues”
2.6.3.3 As notas que emanam do caderninho
“Ouvimos blues” no cotidiano? Sim, claro que sim! Assim como a sociologia do cotidiano, “blues” requer certo “desprendimento metódico”. Considerando que seguimos em direção ao campo à luz da perspectiva metodológica apresentada por Machado Pais (2003), esse desprendimento se deu naturalmente. Observamos que o cotidiano se insinua repleto de “blues” e, assim como o é para uma adequada interpretação de um blues, no cotidiano não é diferente, também é preciso senti-lo. Vamos adiante!
Agora, nos voltemos para estas notas das quais falamos acima. Aqui tenho a anuência do meu orientador para resgatá-las tal e qual foram escritas, ou seja, na primeira pessoa do singular. Delas, trazemos apenas alguns excertos na condição de exemplos83 nos quais encontramos aquilo que acreditamos ser puro “blues”. O que queremos com isso? Demonstrar
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através destes exemplos que há todo um universo “não percebido” ou melhor, que tende a ser ignorado no pesquisar e que pode ser muito rico, no sentido de propiciar um outro tipo de compreensão do cotidiano, do contexto do caso em estudo, do próprio pesquisador e dos pesquisados, seres humanos em interação. Vejamos, ou melhor, “escutemos” as notas84 que emanam do caderninho...
Hoje, finalmente, após um bom período de espera e adiamentos tem início a investigação de campo de minha pesquisa. Não que este seja o primeiro contato (a ser registrado) com Marcelo, mas é que o simbolismo do início do “período de campo” propriamente dito me leva a querer escrever algumas linhas sobre tudo isso, afinal, talvez assim eu consiga “transformar” em texto toda a ansiedade que vivi nos últimos dias.
Bom, estou aqui na Global Tech e “perdi” Marcelo por alguns minutos. Assim que cheguei, ele tinha saído para o médico. Fiquei muito triste pois, como tinha chegado um pouco antes da hora marcada, fui até a praça do Arsenal, dar uma arejada e reler, mais uma vez, as “indagações norteadoras” que trago “em minha mochila” nesta “viagem” que agora se inicia.
O meu caderninho de notas “me chamou” à escrita para começar a fazer o que deverá ser a minha atividade mais constante nos próximos dias: escrever nele! Mesmo Marcelo não estando, achei que haveria o que escrever sobre este momento – impossível não lembrar do “antrophological blues” de Roberto DaMatta, um texto que li na semana passada e que me fez refletir sobre a importância do vivido pelo pesquisador na “aventura” do campo, principalmente, quando se parte de princípios da etnologia e se aproxima da dia-a-dia dos envolvidos naquilo que se quer estudar. São, em momentos como estes, que certas nuances, muitas vezes, se perdem por não haver, no trabalho científico, espaço para sentimentos, momentos pitorescos, reflexões e divagações deste ser humano que pesquisa interagindo com os outros da mesma espécie. Resolvi então começar a escrever um pouco sobre isso. Acho que para mim mesmo, para que eu possa aprender bastante com esta etapa da minha formação. Quando falo “bastante”, falo em não apenas “o” bastante (digo: necessário) para a conclusão desta etapa, mas também, tudo que está “para além” dos aspectos formais da pesquisa em si, mas que são, ao mesmo tempo inerentes a ela.
Acho que agora estou entendendo onde quero chegar. Estou vivendo um momento no qual peço ao meu “daímon”85 para que eu seja capaz de aprender ao máximo (em todos os sentidos!) com o que irei observar, viver, sentir e também escrever. Agora já estou gostando muito do fato de “ter perdido” Marcelo. Seria estranho “começar tudo” sem refletir um pouco sobre este momento aqui, in loco, no contexto do estudo.
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Os extratos apresentados fazem parte das notas de campo escritas entre 01/03/2005 e 31/03/2005, com exceção de uma relativa a um contato prévio ao período acima mencionado, mais precisamente em 27/01/2005. Demais trechos exemplificadores constam no APÊNCIDE F.
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Aqui pensando nos gregos que li recentemente, Heráclito e Sócrates, ao se referirem a esta “força estranha” que nos habita e que também está presente em todo o universo... Deus!?
Segundo dia de campo, chego no CDI e logo vejo Marcelo numa situação bem peculiar, ele estava arrumando a sua nova sala, empurrando os móveis. Eu, é claro, acabei ajudando-o a empurrar o birô e o frigobar.
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Durante uma reunião, Marcelo começa a falar das mudanças visíveis nos meninos que fazem parte do projeto. Seu discurso torna-se eloqüente. Aqui ele me emocionou!
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De repente, ele me pergunta: “quer tomar café Marcio?” Pensei que fosse café mesmo (“do preto”) e logo disse que não. Mas quando olhei, lá estava ele abrindo uma embalagem que tinha um sanduíche natural e, logo em seguida, um Tampico que trouxe numa sacolinha plástica. Já suspeitava que ele fizesse refeições aqui na GT, na terça-feira tinha visto sachês de maionese e catchup sobre a parte da mesa que ele ocupa, mas vê-lo “tomando café”, diante do seu laptop86, foi realmente algo que “assaltou” a minha atenção.
Mas calma, não era apenas um sanduíche e um Tampico, vira e mexe, Marcelo bota a mão na sacola e bota uma mini-coxinha na boca. O jeito naturalmente despojado como ele se alimenta e trabalha tornou-se o foco das minhas anotações [neste momento]. Não esperava vê-lo tomando café no trabalho. Isso me surpreendeu.
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Sobre a mesa de Marcelo, um “caderno” com ilustrações de Romero Britto na capa “pede” para ser notado.
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Marcelo gosta mesmo de uma “graça”. De forma bastante natural, vira e mexe, solta uma aqui, outra acolá, comenta em tom de chacota uma notícia que leu e retoma a concentração.
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Todos se divertem com um desses “causos” que circulam na internet e Marcelo liga para um colega somente para “tirar uma onda” com ele sobre um que está em voga.
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Acredito que ele não tem se incomodado muito com a minha presença, o vejo agindo com muita naturalidade. A certa altura da manhã, no entanto, ele se dirige a mim e diz: “ontem foi mais emocionante [se referindo ao meu trabalho]...” e emenda “a minha vida é assim, tem dias dinâmicos e outros operacionais...”.
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Acho que o mais importante do dia de hoje foi ver o mesmo Marcelo, que ontem vi fazendo um discurso eloqüente e apaixonado pelo futuro dos jovens que “tenta incluir”, tirando nota fiscal da sua empresa. Isso somente pôde ser visto porque ontem estive lá (CDI) e hoje aqui (Global Tech)!
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Hoje tive orientação via telefone com Sérgio pela manhã, ele me ligou logo cedo. A reportagem do evento de ontem passou no “Bom Dia PE” de hoje. Ele viu, eu perdi! Pensava que tinha passado ontem...
Rimos e conversamos bastante, compartilhei com ele um pouco do vivido de ontem. Falei-lhe da riqueza do dia e das emoções que senti. Ele disse que me viu na TV no que pareceu ser uma falha de edição. Disse ele: “lá estava ‘o sombra’, com o gravadorzinho na mão e um sorriso maroto no
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rosto...”. “Claro mestre”, com tantas evidências “emergindo” num só dia... tinha que estar com um só não, era preciso “uma avalanche” de sorrisos marotos (e todos os outros!).
Voltei a me emocionar de forma mais forte. Foi durante a entrevista de Marcelo à Globo. O seu discurso foi “felomenal”, como diria o José Wilker na novela das “oito”. Enfim, como escrevi ontem, “são tantas emoções”... Mas o dever do pesquisador continua. Agora chegou uma nova etapa. Sérgio me aponta para a chegada da hora de focar em Marcelo. Fazer-lhe as perguntas que preciso fazer. Chega ao fim a “era do sombra” diário e constante. Hoje termina os expedientes com Marcelo. Agora, é preciso perguntar e observar suas interações externas ao CDI e GT. Hoje vim aqui para a GT logo no início da tarde para falar-lhe isso. Já o avisei que preciso conversar duas coisas com ele. Agora o aguardo aqui do lado. Escrevendo, quiçá, as minhas últimas notas no meu bom companheiro de aventura, o inseparável caderninho.
Página 107, aqui chegamos! Hora das últimas notas? Não, claro que não. Estas, que agora escrevo, estão muito mais próximas das primeiras, 106 páginas atrás. Tenho ainda muitas notas a escrever pelas pesquisas que surgiram à frente... Mas, no que se refere a esta jornada, estou sim, perto do “fim”. Não havendo mais expedientes com Marcelo, não mais haverá notas diárias a serem escritas de forma sistemática. O caderninho continua aberto para anotações que farei sobre as observações e questões que ainda virão, mas as notas diárias aqui chegam ao fim. Se é assim, faço uma única exigência: as quero “em blues”, tal e qual as comecei. Quero um bem improvisado, emocionado, bem-humorado. Quero “acordes de blues”. Mas estes não aparecem propositalmente, não podemos vê-los, é preciso senti-los. Eles podem vir no vento, no alento, num só momento. E como me disse um “irmão de coração” certo dia: “o essencial é aquilo que não conseguimos ver com os olhos...”. Ou seja, é o mais puro blues!