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As novas faces do proletariado e a teoria do valor

Sobre os debates teóricos em torno do mundo do trabalho, fica cada vez mais arcaica e intempestiva a visão sociológica que proclamava que, com a revolução tecnológica e o desenvolvimento da robótica, chegaríamos a uma sociedade de “fim do trabalho”. Tal era a visão de André Gorz (1987), Claus Offe (1989), Habermas (1991; 1992) e, mais atualmente, figuras como Manuel Castels (2007), entre outros (ANTUNES, 2008). Observando a dinâmica das primeiras resistências operárias mundiais à crise e olhando a dimensão do proletariado “clássico” em países como a China, a Índia, o Brasil, é só com uma visão muito ofuscada pelo eurocentrismo que pode ainda sustentar que vivemos em um mundo meramente “pós-industrial”, de fim do trabalho.

No entanto, o fato de que se prova a cada dia o caráter errático da tese do fim

do trabalho (que vem sendo renovada a partir do fetichismo da robótica (BACH, 2007),

mas sem o mesmo sucesso anterior) não deve impedir o marxismo de perceber a enorme transformação que vem ocorrendo no mundo operário, como forma de dar uma resposta aberta e não dogmática, mas também de – precisamente quando O

Capital, de Karl Marx, completa 150 anos – colocar à frente, à prova, a teoria do valor,

e demonstrar sua enorme riqueza como fonte explicativa do conjunto das transformações no capitalismo internacional. A atualidade da reflexão sobre a teoria do valor e o mundo do trabalho se expressam em um momento de enorme crise econômica, com fortes crises políticas em importantes países do globo e elementos

de crise social. E é nessa dinâmica do capitalismo internacional que vai se gestando um novo proletariado de serviços.

No âmbito da literatura marxista, desde o pós-guerra até a atualidade, identificamos Braverman como um dos primeiros nomes, já em 1974, ao voltar seus olhos para o setor de serviços – e expandir a compreensão de classe trabalhadora, conforme sua obra Trabalho e capital monopolista, que promoveu uma verdadeira transformação nos estudos posteriores sobre o mundo do trabalho. Como disse Paul Sweezy a propósito da obra, o grande pontapé oferecido por Braverman foi de fundir a reflexão bem elaborada de Marx aos “novos métodos e ocupações inventados ou criados pelo capital em sua incansável expansão” (SWEEZY, 1987, p. 11).

Um amplo debate sobre a formação desse proletariado nos últimos 50 anos tem sido feito e esse objetivo extrapolaria bastante nosso fio condutor. O que, no entanto, cabe destacar, é que não estamos falando de um fenômeno decorrente da crise econômica, mas uma mudança mais expressiva na morfologia do trabalho, tendo como forte fator a formação de um amplo setor de serviços. Nesse sentido, trata-se de um movimento que corre em distintos planos, mas, em nossa abordagem, serão particularmente dois os focos: por um lado, o setor de serviços derivado das distintas áreas do capital comercial, em geral mais precarizados; e por outro lado, a expansão de empresas ligadas à tecnologia de informação e comunicação, que sofrem um primeiro crash em 2000 com a crise das ponto.com, mas depois seguem um curso expansivo e, particularmente no pós-crise, vão expandindo bastante reestruturações na esfera do trabalho com a economia de plataformas digitais.

O ângulo de nossa abordagem é também internacional, na medida em que a própria expansão se deu dessa forma, a partir da dinâmica de acumulação flexível do neoliberalismo. Portanto, um dos focos da transformação mais “abrupta” da configuração do proletariado, ou seja, um dos nodais do processo de proletarização do setor de serviços, esteve na telemática, com a quebra das empresas estatais no setor de comunicação e informática, conformando grandes monopólios privados, nos quais o capital foi buscando as formas de mercantilizar todas as esferas do trabalho. Conforme escreve Simone Wolff (2009, p. 90) sobre esse processo de privatização no neoliberalismo:

A utilização intensiva das novas tecnologias da informação e da comunicação (TICs) nas grandes empresas decorre da suma relevância que a inovação passou a ter no quadro de intensa competitividade engendrado pela quebra dos monopólios estatais e com o advento das políticas neoliberais que assolaram todo o mundo capitalista nos anos 1990. Com efeito, a convergência tecnológica entre a informática e as redes de telecomunicações, a telemática, foi altamente otimizada com a privatização deste setor, que passou assim a ser concebido e efetivado como um bem de capital dos mais cruciais do capitalismo contemporâneo. Em uma economia mundializada, é pelas redes telemáticas que toda a sorte de informações estratégicas, isto é, aquelas relativas às últimas tendências de consumo e tecnologias de produção, podem chegar mais rapidamente de todos os cantos do mundo às grandes empresas-rede, cuja característica mais fundamental é ter suas cadeias de produção espalhadas nos mais diferentes pontos do planeta.

Antes de tentar entender, entretanto, o sentido dessas transformações morfológicas no mundo do trabalho – e com isso compreender a conformação de um novo e robusto proletariado do setor de serviços (acompanhando particularmente sua explosão nas potências e grandes megalópoles) e a relação desse setor com as novas TICs, até as plataformas digitais e as formas de uberização do trabalho –, achamos crucial passar pelo debate de fundo no interior do processo. Isso porque ele readquire atualidade justamente na relação entre o trabalho produtivo e improdutivo e, especificamente, a tendência geral do capital de ir devorando todas as formas improdutivas e tornando-as produtoras de mais-valia, sejam elas materiais ou imateriais, da esfera da produção ou circulação, da dimensão manual ou puramente intelectual.

Seguindo essa linha de raciocínio, depois de pensar a força relativa e absoluta do proletariado ainda hoje, passemos a como ele se articula com as formas de produção do valor e do mais-valor.

3.2.1 Retomando o debate produtivo e improdutivo

Iniciar com os elementos estratégicos e compreender as formas de resistência dos trabalhadores não deve estar em contraposição a entender a dinâmica objetiva do mundo do trabalho, as cadeias de valor e a dinâmica da mais-valia. Ursula Huws retoma o debate sobre o trabalho produtivo e improdutivo com uma ótima questão: “Será que não deveríamos apenas aceitar que todos nós somos, de uma forma ou de

outra, parte de uma enorme força de trabalho indiferenciada, produzindo valor indiferenciado para um capital indiferenciado?” E responde em seguida: “argumento que não” (HUWS, 2014, p. 27).

Huws (2014) busca explicar essa espécie de “nó”, um emaranhado de formas de trabalho que confluem a partir dos objetivos da acumulação capitalista, mas sem perder de vista o “ponto em que os trabalhadores têm poder para desafiar o capital: o centro do nó”, o que atinge diretamente a produção da mais-valia e que mantém vigência e importância estratégica. No sentido da pergunta de Huws (2014), acreditamos que mantém expressiva força e atualidade o modo como Marx aborda tal questão, desde que olhemos os quatro livros de O Capital em seu conjunto e não partes destacadas da teoria geral – e esse é parte do desafio para enfrentar a nova realidade e os novos elementos que estão dados para a classe trabalhadora hoje. É sobre os aspectos clássicos da teoria que nos deteremos brevemente, para depois retomar para a atualidade da questão.

Tendo em vista a acumulação de capital como elemento decisivo, Marx define o trabalhador produtivo não como aquele que produz determinado objeto, mas como aquele que expande o capital do empresário. Desse modo, a partir da complexificação da produção capitalista, Marx cria o conceito de “trabalho produtivo” e “trabalho improdutivo” a partir do crivo da produção de mais-valia, conforme escreve:

A produção capitalista não é apenas produção de mercadoria, mas essencialmente produção de mais-valor. O trabalhador produz não para si, mas para o capital. Não basta, por isso, que ele produza em geral. Ele tem de produzir mais-valor. Só é produtivo o trabalhador que produz mais-valor para o capitalista ou serve à autovalorização do capital. Se nos for permitido escolher um exemplo fora da esfera da produção material, diremos que um mestre-escola é um trabalhador produtivo se não se limita a trabalhar a cabeça das crianças, mas exige trabalho de si mesmo até o esgotamento, a fim de enriquecer o patrão. Que este último tenha investido seu capital numa fábrica de ensino, em vez de numa fábrica de salsichas, é algo que não altera em nada a relação. Assim, o conceito de trabalhador produtivo não implica de modo nenhum apenas uma relação entre atividade e efeito útil, entre trabalhador e produto do trabalho, mas também uma relação de produção especificamente social, surgida historicamente e que cola no trabalhador o rótulo de meio direto de valorização do capital (MARX, 2013, p. 578).

Assim, completa Marx (2013, p. 578): “Ser trabalhador produtivo não é, portanto, uma sorte, mas um azar”.

Com a virada do século XX e a supremacia do capital financeiro como pilar da época do capitalismo que se abria, evoluíram formas do capital que existiam no século XIX, mas que ganharam uma proporção na acumulação capitalista de outra magnitude. O capital bancário se complexificou a ponto de derivar em uma nova forma de capital, imbricado ao industrial, chamado de capital financeiro. O capital comercial ganhou corporações globais no capitalismo atual (basta ver que a maior empresa do mundo em quantidade de empregados é a Walmart). E o setor de transportes, com a reestruturação produtiva e avanço do sistema just in time também aprofundou enormemente sua importância.

Logo, decorre que a imbricação que começou a existir entre as formas de capital e o impacto na produção da mais-valia devem ser cuidadosamente reanalisadas.

3.2.2 Comércio e transporte: elementos para pensar a imbricação do produtivo- improdutivo

Uma questão nem sempre observada quando se trata do debate entre o “produtivo” e o “improdutivo” em Marx é que o próprio O capital, além de estabelecer definições que encontramos no Livro I, também relativiza essas definições quando

olhamos o processo global de reprodução do capital.

Em primeiro lugar, se tomarmos os trabalhadores do comércio, que trabalham na esfera da circulação, pelas definições do livro primeiro, não restaria dúvida sobre seu caráter improdutivo. Mas Marx, por exemplo, no capítulo sobre o lucro comercial, do Livro III, discute a mesma categoria observando diferentes “pontos de vista”, formas relativas de com quem se relacionam aqueles trabalhadores.

Do mesmo modo como o trabalho não pago do trabalhador cria diretamente mais-valor para o capital produtivo, também o trabalho não pago dos assalariados comerciais cria para o capital comercial uma participação naquele mais-valor.

A princípio, a definição imprime uma fronteira clara: trabalhadores comerciais não produzem mais-valia, mas auxiliam o capital comercial a participar da mais-valia produzida. Um detalhe, porém, nessa reflexão faz toda a diferença: não produzem “diretamente”, pois, indiretamente, é claro que se a circulação aumenta, a velocidade da realização das mercadorias – a rotação do capital até voltar à esfera produtiva – será mais rápida e, por conseguinte, a reprodução ampliada (a acumulação de capital) será maior. É o que diz Marx quando escreve que “o capital comercial não cria valor nem mais-valor, não diretamente. Na medida em que contribui para a abreviação do tempo de circulação, ele pode ajudar indiretamente a aumentar o mais-valor produzido pelo capitalista industrial” (MARX, 2017, p. 322).

Mas, para além da questão de que o capital comercial pode auxiliar indiretamente na produção da mais-valia, Marx complexifica ainda mais quando, ao discutir a questão do trabalho produtivo e improdutivo, busca relacionar essas categorias ao ângulo sob o qual se observa o problema, ou seja, trabalhadores comerciais para um capitalista industrial fabril são improdutivos, mas, aos olhos de um monopólio comercial, são produtivos, porque “geram” mais-valia, um montante da riqueza produzida no conjunto das esferas produtivas do qual o capital comercial se apropria:

Para o capital industrial, os custos de circulação aparecem como despesas adicionais – e, de fato, são. Para o comerciante, eles aparecem como fonte de lucro, que, pressupondo-se a taxa geral de lucro, encontra-se em proporção à grandeza desses custos. Por isso, o desembolso que se deve efetuar nesses custos de circulação é, para o capital comercial, um investimento produtivo. Assim como para ele também é diretamente produtivo o trabalho comercial que ele compra (MARX, 2017, p. 343).

Traduzindo para os tempos atuais, os trabalhadores do comércio apenas realizam a mercadoria, não a produzem. Logo, não produzem mais-valia e são improdutivos. No entanto, com a formação de monopólios na esfera comercial,

grandes empresas conseguem concentrar e “industrializar”60 em grande escala essa esfera comercial, o que implica que conseguem agarrar grande parte da mais-valia

redistribuída em função da concorrência capitalista e da imbricação entre a esfera

fabril e a esfera comercial. Aos olhos do capital comercial, portanto, esses trabalhadores são diretamente produtivos.

Em outros setores de serviços como o de transporte, Marx já opina mais diretamente sobre a “industrialização” do setor e, nesse sentido, menos em termos relativos e mais em termos absolutos sobre a produção da mais-valia. No Livro II, o autor de O capital escreve o seguinte:

As massas de produtos não aumentam pelo fato de serem transportadas. [...] Porém, o valor de uso das coisas só se realiza em seu consumo, o qual pode exigir seu deslocamento espacial e, portanto, o processo adicional de produção da indústria do transporte. Assim, o capital produtivo investido nessa indústria adiciona valor aos produtos transportados, em parte por meio da transferência de valor dos meios de transporte, em parte por meio do acréscimo de valor gerado pelo trabalho de transporte. Esta última adição de valor se decompõe, como em toda produção capitalista, em reposição de salário e mais-valor (MARX, 2014, p. 255).

Já no século XIX, Marx conseguia enxergar, na esfera do setor de serviços, a

industrialização do setor de transportes, tratando, portanto, como “continuação de um

processo de produção dentro do processo de circulação e para o processo de circulação” (MARX, 2014, p. 257), em que ocorre transferência de valor adicional e criação de mais-valia.

A teoria do valor, portanto, contra as teses do fim do trabalho ou as reminiscências pós-modernas de “sociedade pós-industrial e informacional” mantém enorme atualidade não só para reafirmar a centralidade do trabalho hoje, mas também para compreender as metamorfoses no mundo do trabalho. Dessa forma, abre-nos a possibilidade de, compreendendo as transformações objetivas, relacionar também com a resistência e as formas de luta dos trabalhadores os aspectos subjetivos e o ângulo da estratégia.

60 Sobre a industrialização dos serviços, destacamos o livro de Vinícius Oliveira Santos, Trabalho

imaterial e a teoria do valor em Marx (2013), ou em uma entrevista específica sobre o tema, de Ricardo

Antunes, intitulada “Marx percebe um processo de industrialização do setor de serviços” também se pode ver a abordagem teórica sobre a questão. (Cf.: https://esquerdadiario.com.br/ideiasdeesquerda/?p=275).

Alguns aspectos, para tanto, devem ser levados em consideração: em primeiro lugar, que não devemos abandonar as categorias de trabalho produtivo e improdutivo, ainda que a imbricação tenha aumentando e que, por vezes, custe mais estabelecer as fronteiras entre ambas as categorias. Em segundo lugar, como parte de observar as zonas de intersecção entre o produtivo e improdutivo, buscamos retomar, como o próprio Marx utilizou, dois recursos para abordar esse tema: a) de um lado, estabelecer que existem formas diretas e indiretas do trabalho produtivo; b) o elemento relativo do debate, que permite ir percebendo com a formação dos monopólios em que se imbrica o produtivo/improdutivo.

O intuito do rico e complexo debate dessas categorias, no entanto, não pode desviar do seu norte estratégico. Para compreender as novas formas da organização do proletariado, não se pode perder de vista os núcleos produtivos da mais-valia, a fim de organizar a classe em todos os setores, mas sabendo onde atinge o coração do capital; além disso, orientar o movimento operário no sentido de entender sua rica multiplicidade e os desafios que se colocam para unidade da classe trabalhadora.

Isso posto, podemos avançar em nosso intento de compreender as principais tendências das transformações por que passa o mundo do trabalho no pós-crise e o sentido que damos à pergunta se estaríamos vivendo uma nova reestruturação produtiva hoje.