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1.3 A Reforma do Estado e os Impactos no Ensino Superior

1.3.2 As Políticas Educacionais do Governo Collor

O Governo Collor de Mello assumiu compromissos com os organismos internacionais – Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) –, aprofundando o processo de dependência econômica e financeira. Tal enlace possibilita que as políticas educacionais sejam gestadas a partir das diretrizes dessas instituições. Consolidadas como agências financiadoras, elas assumem funções importantes como interlocutoras multilaterais, inferindo significativamente na produção de políticas públicas, em especial na esfera educacional. É pertinente lembrar que o “(...) debate travado em escala mundial e a ingerência dos organismos internacionais na pauta da gestão das políticas públicas e sociais, particularmente das educacionais, dos países do chamado “terceiro mundo”, orientam as políticas implantadas pelo governo.” (MENEZES, 2001, p. 64). Trata-se da junção da educação ao processo de conhecimento fundamentado na lógica do capital, no qual o papel dos governos se resume a manter o país dentro da concorrência mundial, fortalecendo os direcionamentos das políticas recomendadas pelas agências financiadoras que concebem a privatização e a mercantilização da educação como metas que devem ser alcançadas pelo país.

Para corresponder às exigências e às regras do mercado, o governo Collor de Mello, ao tomar posse, define como prioridade a elaboração de um extenso programa de reformas. O Plano Collor constitui-se essencialmente como conjunto de medidas econômicas e políticas radicais que interferiram de forma arbitraria “na poupança popular e investimentos financeiros e em promover ampla liberalização comercial, logo se mostraram ineficazes para conter a crise, levando à rápida erosão do apoio popular do primeiro presidente eleito pelo voto direto”

(KINZO, 2001, p. 9). Em seu governo ocorrem mudanças profundas na economia brasileira, impulsionadas por um forte sistema de privatização; pela reorganização do Estado brasileiro em correspondência à restruturação produtiva pautada pelo capital internacional, pela dependência financeira para viabilização das políticas exigidas pelas empresas estrangeiras. Dessa maneira,

a dimensão global dos intercâmbios econômicos está provocando a perda de significação do Estado nacional como instância única e privilegiada na tomada de decisões econômicas e políticas [...] À vista disso, a justiça social não se constitui algo essencial, portanto, os direitos básicos, à saúde, ao ensino público gratuito, à moradia, à segurança, saneamento básico, seguro desemprego, aposentadoria, entre tantos outros, são brutalmente desregulamentados. (PÉREZ-GÓMEZ, 2001, p. 93)

No que se refere à Reforma do Estado brasileiro, fica claro que a visão neoliberal é ideologicamente propagada como salvaguarda do processo de reformulação do modelo capitalista; a desigualdade social é naturalizada e o desemprego é visto como uma mera necessidade para o desenvolvimento do país. Esse contexto socioeconômico está relacionado com a política do governo militar que não apresentou alterações significativas ao modelo econômico do país.

O regime militar não alterou a estrutura socioeconômica, fortaleceu a política que ostentava a política vigente desde o governo de Getúlio Vargas período de 1967 a 1973 que ficou conhecido como o milagre brasileiro e teve como base de suporte os resultados obtidos pela política de estabilização estabelecida no período de 1964 a 1967. Destaca-se também que a política de desenvolvimento impulsionou o modelo de substituição de importações atribuindo ao Estado um papel empreendedor extremamente importante. Em 1974, a crise mundial do petróleo exerce forte impacto na política desenvolvimentista, mas esse fator não foi o elemento fundamental para alterar a política vigente. A estratégia apresentada pelo governo dá sequência à política de substituição de importações de bens de capital e matérias- primas; além do apoio das empresas estatais, essa política obteve apoio também do setor privado das multinacionais. Indubitavelmente, essa estratégia garantiu ganhos para os empresários, no entanto, não sanou os problemas relacionados à inflação, educação, saúde, entre outros; o que se observou foi sua intensificação, no contexto de transição política. (KINZO, 2001).

Cabe ressaltar que o amplo programa de reformas do governo Collor de Mello tinha por incumbência tornar o país competitivo no mercado mundial. Desse modo, a modernização da economia, a incorporação tecnológica e o aumento dos índices de produtividade constituía

metas do governo. A partir da reestruturação produtiva, a educação se converte em estratégia de governo e passa a compor a pauta do poder político governamental. Para alcançar tais objetivos, atribui-se ao sistema educacional a meta de elevar os indicadores de escolarização da população. Acreditava-se que sem a alteração desses indicadores não seria possível tornar o país competitivo no mercado global. As intervenções no setor educacional foram realizadas a partir de diagnósticos que comprovaram que não bastava apenas ampliar a oferta de vagas, mas que cabia melhorar a qualidade do ensino. Para atingir a meta o governo da época compreende ser necessário “ (...) universalizar o ensino fundamental e erradicar o analfabetismo; capacitar a população para o exercício de atividades profissionais; e, por último, uma alusão à habilitação para o exercício da cidadania” (MENEZES, 2001, p. 63).

No entanto, é pertinente lembrar que o governo de Collor de Mello não alterou significativamente o modelo socioeconômico que orientou a elaboração da reforma do ensino dos governos que o antecederam. As orientações do Banco Mundial e do FMI para a educação no Brasil buscavam desenvolver e potencializar as aprendizagens, as habilidades e as competências básicas primordiais às exigências do mercado de trabalho flexível. Cabia definir, então, as metas referentes à destinação dos recursos públicos para a educação básica e avaliar a qualidade da educação pela lógica de eficiência do mercado, impulsionando desta forma a competitividade entre as instituições de ensino. A estrutura educacional brasileira no governo Collor de Mello não se modifica em relação ao período anterior em que os interesses empresariais prevalecem sobre o público. Ao contrário disso, o ensino é flexibilizado para atender à lógica do mercado.

Sobre esse assunto, Saviani (2008, p. 300) observa que no regime militar “(...) o aumento da participação privada na oferta de ensino, principalmente em nível superior, foi possível pelo incentivo governamental assumido deliberadamente como política educacional.” Nessa compreensão, é pertinente observar que tanto a promulgação da Lei nº 5.564/68, elaborada no governo militar, quanto a Lei 9.394/96, construída no regime democrático, ambas não se consolidaram como instrumentos legais para a garantia do acesso e da qualidade do ensino superior para a maioria da população brasileira, e sim se restringiram ao fortalecimento da ideologia dominante e da racionalidade do sistema capitalista. Entendemos que esse é o aspecto central que orientou e orienta as reformas do ensino brasileiro – trata-se da internacionalização do capital produtivo e financeiro. Nesse cenário o ensino é concebido como mercadoria, bem de consumo extremamente valioso.

Como se vê, dentro da lógica do capitalismo, o ensino torna-se uma estratégia importante para treinar trabalhadores para o mercado, e na medida em que as reformas do ensino, em especial a do ensino superior, são elaboradas a partir deste mote, há um processo de flexibilização e precarização do ensino.

Para Chauí (1999, s/p), “flexibilizar”, na esfera do ensino superior significa:

1) eliminar o regime único de trabalho, o concurso público e a dedicação exclusiva, substituindo-os por “contratos flexíveis”, isto é, temporários e precários; 2) simplificar os processos de compras (as licitações), a gestão financeira e a prestação de contas (sobretudo para proteção das chamadas “outras fontes de financiamento”, que não pretendem se ver publicamente expostas e controladas); 3) adaptar os currículos de graduação e pós-graduação às necessidades profissionais das diferentes regiões do país, isto é, às demandas das empresas locais (aliás, é sistemática nos textos da Reforma referentes aos serviços a identificação entre “social” e “empresarial”; 4) separar docência e pesquisa, deixando a primeira na universidade e deslocando a segunda para centros autônomos.

Percebe-se que a LDBEN/96, longe de tornar-se um instrumento legal para alterar a concepção capitalista da educação como mercadoria, intensifica a mercantilização do ensino e a reforça como necessidade imprescindível para o desenvolvimento do país. Desse modo, as metas educacionais estabelecidas tanto pelo governo militar quanto pelo “democrático” consolidaram o processo de privatização e mercantilização do Ensino Superior, características presentes no neoliberalismo e marca sociopolítica da gestão de Collor de Mello.

Em prosseguimento à análise dos aspectos relevantes das políticas educacionais no país, proposta do capítulo, foca-se no resumo dos governos do presidente Fernando Henrique Cardoso e de seu sucessor, Luís Inácio Lula da Silva.