As precárias condições de vida dos moradores da Vila Dnocs, em

No documento Centro Universitário de Brasília Instituto CEUB de Pesquisa e Desenvolvimento ICPD Mestrado em Direito RICARDO MENDES VILLAFANE GOMES (páginas 39-44)

Na década de 1960, o governo federal instalou na cidade de Sobradinho/DF o Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (Dnocs) e, ao seu redor, deu-se início a um assentamento com a construção de 20 casas em duas quadras, cuja finalidade era abrigar os motoristas desta repartição pública, e um galpão.38 No começo, o local era composto apenas por imóveis funcionais, mas esta realidade foi

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CANUTO, op. cit., p. 211. 38

Projeto de regularização urbana da Vila Dnocs, elaborado pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional do DF CODHAB. Disponível em: http://abc.habitacao.org.br/wp-content/uploads/2018/01/P16-CODHAB-DF-Vila-DNOCS-REG-power-point.ppt. Acesso em: 4 jan. 2019.

gradativamente se alterando com a extinção do Departamento em Brasília e a transferência do órgão para o Nordeste.

Consoante projeto de urbanização da Vila Dnocs, na década seguinte, já nos anos de 1970, houve a transferência do órgão para o Nordeste e muitos funcionários acompanharam esta mudança para a nova região, sendo que alguns permaneceram na própria localidade. Depois deste evento, a Caixa Econômica Federal (CEF) passou a administrar este conjunto habitacional e muitos imóveis começaram a ser ocupados por outras pessoas. Agora, não se tratavam apenas de servidores ou empregados do Departamento, mas também de indivíduos sem qualquer vinculação com o órgão.

De acordo com dados da Associação dos Moradores da Vila Dnocs – AMOCOD, em 1998 existiam 240 casas e uma população de 950 indivíduos. Este número permaneceu crescendo para 308 casas e 1.300 pessoas em 2002, chegando, no ano de 2005, a 450 casas e 1.900 moradores na região. Importante frisar que estas habitações, em sua grande maioria, eram extremamente precárias e desprovidas de segurança e conforto mínimos.

A escassez de moradia na região fez com que vários barracos fossem surgindo no assentamento. Nos terrenos vazios localizados no entorno das casas de alvenarias, que foram originalmente construídas, estavam sendo erguidas várias construções rústicas e improvisadas para abrigar novos habitantes. As fotos abaixo ilustram a realidade dos moradores e demonstram a ausência do Estado em implementar políticas habitacionais:39

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As imagens foram extraídas do projeto de regularização urbana da Vila Dnocs, elaborado pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional do DF – CODHAB. Disponível em: http://abc.habitacao.org.br/wp-content/uploads/2018/01/P16-CODHAB-DF-Vila-DNOCS-REG-power-point.ppt. Acesso em: 4 jan. 2019.

Foto 1: Barracos localizados na Vila Dnocs

Fonte: CODHAB

Foto 2: Barracos localizados na Vila Dnocs

Fonte: CODHAB

A falta de controle dos órgãos de fiscalização e o aumento do movimento migratório para Brasília no início da construção da Capital da República, aliada à ausência de moradias na região, acabaram por facilitar o surgimento de ocupações irregulares e aglomerados urbanos em condições impróprias.

As novas habitações surgiram sem o mínimo de estrutura digna para se viver e, com o passar do tempo, o antigo local onde se situava o Departamento Nacional de Obras Contra a Seca deu origem à Vila Dnocs, na região de Sobradinho/DF.

3 A PROPRIEDADE IMOBILIÁRIA E SEU ALCANCE JURÍDICO

A palavra propriedade é uma derivação da expressão latina proprius, cujo significado denota que um determinado objeto pertence a alguém ou é próprio de um indivíduo. Se este bem fosse apoderado por alguém, por exemplo, ele passava a ser o legítimo proprietário.

Os bens, por sua vez, podem ser móveis40 ou imóveis.41 Os primeiros são aqueles dotados de movimento próprio (semoventes) ou capazes de serem removidos de um lugar para outro por força alheia, enquanto os segundos possuem uma situação fixa. Desde a época de Justiniano em Roma, fazia-se esta classificação, mas foi a partir da Idade Média que a distinção ganhou importância jurídica, na medida em que a propriedade de bens imóveis passou a ser sinônimo de riqueza e poder, inclusive era fundamento para aquisição de títulos de nobreza.

Saber diferenciar se um bem é móvel ou imóvel, é de extrema relevância para o Direito, pois implica diretamente na caracterização de alguns institutos jurídicos, como a forma de alienação (bem móvel: tradição; bem imóvel: registro na serventia extrajudicial imobiliária), usucapião (prazo menor para o bem móvel), outorga marital (desnecessidade para o bem móvel), hipoteca (somente para bens imóveis) e foro competente (bem móvel: domicílio do réu; bem imóvel: situação da coisa).

A noção de propriedade passou por diversas transformações ao longo dos anos. Para a igreja católica, tendo por maior defensor São Tomás de Aquino, a propriedade era um direito natural dado aos Homens por Deus para que todos pudessem desfrutar dos bens materiais.

A propriedade seria um direito individual e tinha viés absolutista, uma vez que a pessoa poderia usar da coisa da maneira que melhor lhe conviesse, sem

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BRASIL. Código Civil, Art. 82. São móveis os bens suscetíveis de movimento próprio, ou de remoção por força alheia, sem alteração da substância ou da destinação econômico-social.

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BRASIL. Código Civil, Art. 79. São bens imóveis o solo e tudo quanto se lhe incorporar natural ou artificialmente.

preocupação em satisfazer o interesse comum. O alcance e o fim da propriedade eram vistos sob a ótica individualista. Não havia preocupação se o bem deveria ou não ser utilizado em prol da coletividade, mas apenas se o proprietário era capaz de servir-se do bem para a sua satisfação pessoal.

Na época do iluminismo, a propriedade era uma decorrência do trabalho do homem e este direito deveria ser tutelado e defendido contra todos. Para o pensador John Locke, “a propriedade já existe no estado da natureza e, sendo anterior à sociedade, é considerada um direito natural do indivíduo, que não pode ser violado pelo Estado.”42

Após a Revolução Francesa de 1789, o famoso Código Napoleônico de 1804 reforçou a concepção de propriedade como direito absoluto, tendo sido, inclusive, a inspiração para a manutenção deste caráter no Código Civil brasileiro de 1916. Contudo, foi possível verificar uma mudança de tal atitude no decorrer do século XX.

Para Luiz Guilherme Loureiro, mais precisamente depois dos anos 1950, “assistiu-se a uma alteração fundamental no papel desempenhado pela propriedade, sobretudo da imobiliária. De um direito absoluto, do ponto de vista da completa sujeição do bem à vontade do dono, a propriedade passou a ter uma função comunitária. Se a propriedade tem uma função individual, ela tem também uma função social.”43

Impende destacar, por oportuno, que apesar da confusão que é gerada pelo uso indiscriminado dos conceitos de moradia e propriedade, estes não se equivalem e são institutos diferentes. Em verdade, a moradia e a propriedade podem até coexistir, mas são direitos autônomos e independentes um do outro.

A título de exemplo, imagine uma pessoa que não seja proprietária de bem imóvel e necessite alugar um apartamento para morar. Em que pese não seja o proprietário da coisa, uma vez que é somente o locatário usufruindo da posse direta, também é certo dizer que possui uma moradia sem ser senhor e proprietário do apartamento. Ou seja, o indivíduo tem moradia, mas não tem a propriedade.

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CANUTO, op. cit., p. 37. 43

LOUREIRO, Luiz Guilherme. Direitos reais: à luz do Código Civil e do direito registral. São Paulo: Editora Método, 2004, p. 110.

Pode-se citar, ainda, a hipótese do devedor transferir a propriedade resolúvel do imóvel ao credor, com escopo de garantia fiduciária, permanecendo no bem e tendo nele a sua morada.

O direito de propriedade é, pois, instituto diverso do direito social da moradia do artigo 6º da Carta Política. Paulo Carmona já teve oportunidade de se manifestar sobre o assunto e afirmou que:

Direito de propriedade e direito de moradia não se confundem, pois a moradia é objeto de direito autônomo, com âmbito de proteção e objeto próprios, podendo ser requisito para a aquisição da propriedade, como no caso da usucapião especial constitucional (art. 183). Assim, o direito à moradia opera-se como garantia a um lugar adequado para proteger-se a si próprio e sua família contra as intempéries, independentemente do título ou da forma como se opera tal direito (...).44

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