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As Razões da Crise sob o Enfoque Liberal e Progressista

Na década de 70, com as duas crises econômicas mundiais decorrentes do chamado choque do petróleo, as críticas aos sistemas de welfare state tornaram-se frequentes e motivo de acirrada disputa política. Os setores conservadores esgrimiam denúncias que apontavam as políticas sociais de bem-estar de serem diretamente responsáveis pelo crescente aumento do déficit público, pela volta da inflação e, como consequência, pela diminuição dos investimentos. Ademais, os próprios usuários ou beneficiários do sistema passaram a reclamar da burocratização dos serviços, da queda dos valores dos benefícios e da qualidade da assistência. Para manter a burocracia e os benefícios, os impostos passaram a ser progressivamente aumentados onerando a classe média, e os altos gastos governamentais importava mais inflação, enquanto o sistema dava mostras de iniquidade e incapacidade de eliminar os bolsões de pobreza. Na década de 80, ocorre o agravamento da crise econômica, em parte pelas medidas contencionistas adotadas pelos governos conservadores em vários países europeus e nos EUA.

A crise do welfare state pode ser apresentada esquematicamente sob três ângulos. O primeiro e mais importante como decorrente da crise econômica, com seu cotejo de recessão, queda do Produto Interno Bruto (PIB), incremento do desemprego, baixa competitividade no mercado de trabalho e na produção. Em conjunto, esses fatores significam, na prática, menos receitas e mais gastos. O segundo tem como causa as mudanças na estrutura demográfica, seja pela diminuição do contingente de população economicamente ativa em relação à inativa, seja pelas ondas migratórias que atingem, sobretudo, os países da Europa Ocidental, agravadas por menores taxas de natalidade e fecundidade e aumento da longevidade, que acarretam elevação das despesas com os encargos relativos aos idosos, aposentadorias, doentes crônicos, etc. Como terceiro componente da crise, temos a dimensão política, expressa na insatisfação da população com os custos crescentes dos impostos e na baixa qualidade dos resultados obtidos pelo Estado de bem-estar social, refletidos nos serviços ofertados e burocratização dos mesmos.

As sucessivas derrotas dos trabalhistas ingleses, dos democratas americanos e dos social- democratas alemães e suecos foram, também, consequências da insatisfação do eleitorado com as políticas de bem-estar social.

Os principais eixos do questionamento atual do Welfare state, porém, são as determinados pelas necessidades advindas de uma nova divisão internacional do trabalho vis-à-vis o movimento de globalização da economia, resultando num descompasso entre a economia de bem-estar e os processos sociais vigentes nas economias desenvolvidas.(DRAIBE & HENRIQUE, 1988, p. 356)

Deppe (apud HORNIS, 1994, p. 247), por outro lado, destaca que com a crescente interdependência de mercados, produção e circulação da moeda, o desenvolvimento globalizado da acumulação de capital passou a impor a adoção de políticas globalizadas. A política monetária espelha essa realidade, enquanto a política de seguridade social enfrenta grandes dificuldades de adaptação às mudanças ocorridas no mundo do trabalho, nos mercados e nas governanças. Verifica-se que a União Européia, por exemplo, logrou êxito quanto à integração econômica, algum sucesso em termos de integração política e nenhum em termos de integração social. Foi nesse contexto que as medidas contencionistas adotadas pelos governos conservadores ganharam ímpetos, com a adoção de processos seletivizadores e privatistas, mesmo que, ainda, preservem alguns aspectos do modelo original.

Na visão de Kornis, a questão central diz respeito:

A solidariedade que sustentou o Welfare state tinha como eixo um determinado padrão de organização do trabalho que, com as transformações derivadas da crise do último quartel do século XX, entra em processo de esgotamento progressivo. Portanto, a proteção social em construção que vem ocorrendo na esteira da crise do Welfare state deverá para a sua efetivação real encontrar uma sociedade onde não mais esteja em curso o assalariamento progressivo (isto sem considerar a hipótese de que estaria processando-se neste “fin-de-siècle” a constituição de uma sociedade do pós-trabalho) como bases fundamentais de sua reestruturação. Isto significa dizer que as novas técnicas organizacionais associadas à automação/robotização do processo produtivo pressupõem um padrão de proteção social apoiado não apenas na folha de salários, mas na formação de um ou mais fundo de financiamento às políticas sociais. (KORNIS, 1994, p. 244)

Os sistemas de seguridade social no mundo desenvolvido passaram por reformas, as mais diversas, como consequência de mudanças conjunturais, mas também, e sobretudo, decorrentes de modificações na estrutura produtiva e na integração de mercados. Para Hirschman (apud MISHA, 1992, p.334) a crise atual, em grande parte superestimada pela

retórica conservadora, representa o caminho da acomodação definitiva dos direitos sociais à cidadania.

Rosanvallon (1997) destaca como fatores que têm determinado as crises nas políticas públicas na área social uma conjunção de elementos originados tanto nas condições e características do Estado contemporâneo, quanto no mercado globalizado e nas mudanças no sistema produtivo. Como consequência imediata dessas mudanças, o autor identifica medidas destinadas a “amortecer os efeitos das crises cíclicas do capital (função anticíclica dos sistemas de proteção social)”. Isto é, as políticas de proteção social entre outras finalidades têm o alcance de proverem condições de sustentabilidade e estabilidade econômica e social aos grupos populacionais mais vulneráveis nas crises periódicas que acompanham historicamente o sistema capitalista. Para ele:

o Estado-providência visa substituir a incerteza da providência religiosa pela certeza da providência estatal. O Welfare state representou uma nova fase da evolução do Estado que passou de protetor da propriedade e da vida para providência (direito a garantia de condições mínimas de vida mediante sociais direitos conquistados). (ROSANVALLON, 1997)

Os principais argumentos dos conservadores concentram-se na constatação de que “as despesas crescem mais com o setor social do que as receitas.” (ROSANVALLON, 2000). Acrescente-se que esse discurso encontra guarida nos evidentes limites para aumentar os descontos obrigatórios, pois isto significa onerar ainda mais as condições para o investimento produtivo e no descontrole da inflação, que têm como corolário o comprometimento da competitividade das empresas, minando o dinamismo econômico.

Este quadro de crise ressalta Rosanvallon (2000), revela-se em seu mais largo alcance e significado: trata-se de uma crise decorrente de um modelo de desenvolvimento e crise de determinado sistema de relações sociais, onde a questão central diz respeito às relações da sociedade com o Estado, que passam a ser fortemente questionadas e ao mesmo tempo passam a concentrar as principais alternativas propostas para o equacionamento da fragilidade crescente do sistema e seu ascendente descrédito político- ideológico.

Estes aspectos que compõem o cenário da crise do modelo atual de welfare state vigente na Europa Ocidental são vistos, pois, de forma sintética e objetiva como consequência direta e mais acentuada da “crise decorrente de um modelo de desenvolvimento e crise de determinado sistema de relações sociais.” (ROSANVALLON, 2000). Para o autor, “são as relações da sociedade com o Estado que são questionadas”. As

reformulações dos sistemas de proteção social terão que considerar e incorporar as mudanças que ocorrem no mundo do trabalho e as novas atribuições e competências atribuídas ou esperadas do Estado, além das novas e distintas relações deste com a sociedade, sobretudo quando se advoga a maior autonomia das esferas locais e comunitárias como forma de compartilhar responsabilidades e aumentar a capacidade resolutiva e a eficiência dos sistemas.

Considerando-se que a construção das políticas de welfare state nos mais distintos países obedeceu à mesma lógica quanto à questão da responsabilização e da negação relativas à distribuição de funções e atribuições aos indivíduos e aos grupos sociais, Giddens (1996) identifica na centralização de funções e competências pelo Estado como uma das causas principais da atrofia do sistema e cristalização das relações do setor público com a sociedade que têm impedido o setor de empreender sua renovação e atualização consoante as condições vigentes no mundo contemporâneo, sobretudo quanto à nova e dinâmica estrutura de mercado e as relações aí construídas e, ainda, na sempre controversa e conflituosa convivência entre a estática e inflexível burocracia securitária e a crescente busca de autonomia pelas comunidades locais e os indivíduos.

Estes foram relegados e desprezados como meio e instrumento de articulação e elaboração das políticas sociais, passando ao largo na implementação e controle das funções públicas que se tornaram obsoletas e onerosas em excesso e, principalmente, pouco efetiva no atendimento das expectativas e exigências da sociedade.

Para Giddens:

[...] sua força propulsora é a proteção e a assistência, mas ele (o sistema de proteção social) não dá espaço suficiente à liberdade pessoal, pois algumas formas de welfare state são burocráticas, alienantes e ineficientes, e além disso, os benefícios das políticas de welfare state podem gerar consequências perversas que solapam o que foram projetadas para realizar. (GIDDENS, 2001, p. 74)

Ademais, para este autor, as dificuldades do welfare state são financeiras somente em parte.

Aliados aos aspectos econômico-financeiros, outros elementos se somam para tornar o sistema em inoperante, ineficiente e perdulário, pois

as normas do welfare state tornam-se frequentemente aquém do ótimo, ou criam situações de perigo moral: o perigo moral existe quando as pessoas usam a proteção do seguro para alterar seu comportamento, redefinindo com isso o risco pelo qual estão seguradas. (GIDDENS, 2001, p. 89)