3.3 O percurso pedagógico e metodológico do cordel
3.3.4 Os textos trabalhados
3.3.4.1 As rodas de leituras
Se a linguagem é vista como lugar de interação, em que cada sujeito se constitui a partir do processo de interlocução, o ensino de LP implica em três práticas: leitura de textos, produção de textos e análise linguística (GERALDI, 2013b). Em relação à leitura é preciso considerar que essa não é apenas uma decodificação de sinais gráficos, mas, principalmente, a busca por significações (IDEM). Nesse sentido, o aluno-leitor não é passivo; aliás ocorre o oposto, o aluno-leitor sempre tem uma compreensão responsiva sobre o enunciado lido, uma vez que há a contrapalavra direcionada ao texto que lê (GERALDI, 2013). Podemos compreender o processo de leitura realizado pelos alunos a partir do seguinte dizer:
O produto do trabalho de produção se oferece ao leitor, e nele se realiza a cada leitura, num processo dialógico cuja trama toma as pontas dos fios do bordado tecido para tecer sempre o mesmo e outro bordado, pois as mãos que agora tecem trazem e traçam outra história. Não são mãos amarradas – se o fossem, a leitura seria reconhecimento de sentidos e não produção de sentidos; não são mãos livres que produzem o seu bordado apenas com os fios que trazem nas veias de sua história – se o fossem, a leitura seria um outro bordado que se sobrepõe ao bordado que se lê, ocultando-o, apagando-o, substituindo-o. São mãos carregadas de fios, que retomam e tomam os fios que no que se disse pelas estratégias de dizer se oferece para a tecedura do mesmo e outro bordado.
26 Tais rodas limitaram-se ao espaço físico de cada classe, ou seja, não ocorreu interação entre as turmas A, B e C.
É o encontro destes fios que produz a cadeia de leituras construindo os sentidos de um texto. E como cadeia, os elos de ligação são aqueles fornecidos pelos fios das estratégias de produção do outro (o autor) com o leitor se encontra na relação interlocutiva de leitura. A produção deste leitor é marcada pela experiência do outro, autor, tal como este, na produção do texto que se oferece à leitura, se marcou pelos leitores que, sempre, qualquer texto demanda. Se assim não fosse, não seria interlocução, encontro, mas passagem de palavras em paralelas, sem escuta, sem contrapalavras: reconhecimento ou desconhecimento, sem compreensão. (GERALDI, 2013, p.166, ênfase acrescentada)
A leitura dos folhetos de cordéis realizada pelos alunos implica um encontro de vozes: de um lado, as vozes do produtor diante de sua escolha de signos e, de outro, as vozes dos alunos diante do texto; são vozes que dialogam: em determinados momentos sobre o texto lido e, outros momentos, sobre si mesmo, e dessa forma o sujeito compreende o dizer alheio que agora é carregado de suas palavras e vai se constituindo enquanto tal. É o encontro destes fios – palavras – que produz a cadeia de leitura, que por sua vez, constrói os sentidos de cada texto (GERALDI, 2013).
Nessa perspectiva, as rodas de leituras são inúmeros encontro de vozes: as vozes que estão no texto, as vozes dos cordelistas, as vozes de cada aluno que se encontra nesse círculo de leitura e minha própria voz. Assim, é importante lembrar que cada roda de leitura compunha cerca de 4 alunos, algumas rodas haviam mais; outras, menos. Os folhetos de cordel que estavam disponíveis aos alunos se encontram na bibliografia neste trabalho – totalizando 17 folhetos. Cada roda escolhia alguns textos e após tais leituras, quando havia interesse, ocorria a troca de textos entre grupos.
Nas rodas de leitura também há a necessidade de respeitar a caminhada do aluno enquanto leitor (GERALDI, 2013b). Embora, as atividades de leitura não fossem de narrativas longas e as condições de leitura remetessem ao âmbito escolar, ou seja, o espaço e conforto para leitura eram limitados, o respeito nessa atividade ocorreu de duas formas: pela seleção de textos feita pelos alunos (alguns alunos também leram mais cordéis que outros) e pelo abandono, isto é, muitos alunos durante as atividades de leitura desejaram abandonar a história que estavam lendo e, consequentemente, trocaram por outras histórias disponíveis naquele momento.
Assim, “O testamento do cachorro”, de Leandro Gomes de Barros, “Sinais do fim do mundo”, de José Severino Cristóvão, “O garanhão que se lascou com um travesti”, “Dicionário Paraibês”, “As histórias de Antônio Tranca-Rua” e “A briga das duas velhas vendedoras de tabaco”, de Vicente Campos Filho, “Inferno nas torres” de Josué Cassiano de
Oliveira, “Promessa não é dívida vale voto”, “Seu Lunga: tolerância zero” e “O que tem na
bolsa da mulher”, de Davi Teixeira, foram os cordéis mais lidos durante as atividades.
A partir dos textos mais escolhidos, é possível notar que alguns conteúdos temáticos são mais envolventes ou polêmicos que outros, em outras palavras, os alunos que haviam nascido na cidade tiveram pouco interesse pelos cordéis sobre a Paraíba, por exemplo. Já os filhos de migrantes se aproximaram mais dos textos sobre a Paraíba ou Lampião. Personagens como Antônio Tranca-Rua e Seu Lunga instigaram a curiosidade daqueles que não os conheciam. Assuntos cotidianos como briga, a bolsa da mulher, atentados terroristas também chamaram muita atenção deles. No entanto, “O garanhão que se lascou com um travesti” e “O testamento do cachorro” chamou atenção de todos os alunos, devido aos seus conteúdos temáticos, provocando algumas discussões paralelas sobre os assuntos.
Após tais leituras e breves discussões nas rodas, iniciei as discussões com todos os alunos. A intenção era de provocar novamente um encontro de vozes para que o aluno compreendesse quais vozes estavam presentes nos textos, além de perceber as relações com textos de outros gêneros, bem como as relações entre os próprios cordéis, no qual a estrutura composicional, o estilo e o conteúdo temático pudessem ser analisado.