As siglas de duas letras

No documento Universidade Federal do Rio de Janeiro (páginas 92-103)

6.2 ANÁLISE VIA TEORIA DA OTIMALIDADE

6.2.1 As siglas de duas letras

São quatro os formatos possíveis para as siglas de duas letras:

(i) CC (Consoante-Consoante)

Exemplos: PR, para Partido da República; FL, para Faculdade de Letras; PT, para Partido dos Trabalhadores; MP, para Ministério Público ou Medida Provisória; BC, para Banco Central.

(ii) VV (Vogal-Vogal)

Exemplos: UE, para União Europeia; AA, para Alcoólicos Anônimos; IE, para Instituto de Economia; UA, para Universidade do Amazonas; IO, para Instituto Oceanográfico.

(iii) CV (Consoante-Vogal)

Exemplos: BO, para Boletim de Ocorrência; QI, para Quociente de Inteligência;

DE, para Dedicação Exclusiva; NA, para Narcóticos Anônimos; PE, para Polícia do Exército.

93 (iv) VC (Vogal-Consoante)

Exemplos: AN, para Agência da Notícia; EM, para Ensino Médio; UP, para Universidade do Porto; AL, para América Latina; IF, para Instituto Federal ou Instituto de Física.

Os dados revelados nos testes mostram que as siglas de duas letras são sempre alfabetismos, com exceção do padrão VC, quando C for uma obstruinte (fricativa labial ou oclusiva)29. Em (10), a seguir, observa-se como cada uma das combinações C/V explicitadas acima foi realizada pela maioria dos informantes que participaram dos testes30:

(10)

CC VV CV VC

PR: [pe.ˈɛ.xɪ] UE: [u.ˈɛ] BO: [be.ˈɔ] AN: [a.ˈ .nɪ]

FL: [ɛ.fi.ˈɛ.lɪ] AA: [a.ˈa] QI: [ke.ˈi] EM: [ɛ.ˈ .mɪ]

PT: [pe.ˈte] IE: [i.ˈɛ] DE: [de.ˈɛ] UP: [u.ˈpe]

MP .mi.ˈpe] UA: [u.ˈa] NA .ni.ˈa] AL: [a.ˈɛ.lɪ]

BC: [be.ˈse] IO: [i.ˈɔ] PE: [pe.ˈɛ] IF: [ˈi.fɪ]

Desse modo, somente na combinação VC, com C sendo representando uma obstruinte, pode-se ter um acrônimo (a sigla IG, para Internet Grátis, é um

29 Estamos, aqui, endossando a ideia de que sibilantes não são propriamente obstruintes (WETZELS, 1992; CLEMENTS & HUME, 1995).

30É necessário ressaltar que nem todos os segmentos obstruintes empregados no formato VC levam à produção de um acrônimo. Os testes revelaram, por exemplo, que UP, para Universidade do Porto, é um alfabetismo.

94 bom exemplo), o que explicita que o formato VC é variável. Barbosa et alii (2003) não preveem essa variação e indicam que siglas de duas letras devem ser sempre soletradas. Em (11), a seguir, comprova-se o caráter variável desse padrão. Observe-se que a presença de nasais, laterais e vibrantes leva a sigla a ser soletrada:

(11)

EN (Escola Naval): C é nasal

alfabetismo

[ɛ.ˈ .nɪ]

IL (Instituto de Letras): C é lateral

alfabetismo

[i.ˈɛ.lɪ]

IR (Imposto de Renda): C é vibrante

alfabetismo

[i.ˈɛ.xɪ]

IF (Instituto Federal): C é obstruinte

acrônimo

[ˈi.fɪ]

A observação atenta aos acrônimos de duas letras nos remete a questões interessantes sobre a organização fonológica do português. Em primeiro lugar, essas formações acronímicas jamais criam monossílabos;

constituem sempre dissílabos paroxítonos, ocorrendo, nesses casos, a epêntese da vogal [ɪ] junto ao segmento obstruinte. Dessa forma, IF (Instituto Federal ou Instituto de Física), por exemplo, pronuncia-se como [ˈi.fɪ]. A inserção desse segmento vocálico para resolver questões referentes à sílaba é encontrada em diversas situações:

(a) nos grupos consonânticos ditos impróprios, a exemplo de ritmo, pacto, afta (CÂMARA Jr., 1970);

95 (GONÇALVES, 2004c), como em mares, fregueses e túneis.

Esses fatos revelam que [ɪ] é a vogal epentética por excelência em português, o que se confirma na produção de acrônimos como um todo, como teremos a oportunidade de ressaltar mais adiante.

Os dados observados sobre os acrônimos de duas letras evidenciam, além disso, a ideia de palavra mínima em português. Esta, como se sabe, é constituída por um monossílabo pesado ou por um dissílabo com duas sílabas leves, como é o caso das formações em exame. Tratar da questão da palavra mínima nesta tese, que analisa um processo não-concatenativo de formação de palavras, é relevante, uma vez que, assim como ocorre com os acrônimos, condições de palavra mínima também se impõem, por exemplo, aos hipocorísticos31, processo que bloqueia qualquer formação maior que duas sílabas e que não contenha pelo menos um pé.

Conforme Gonçalves (2004b), o troqueu moraico32 tem papel de destaque em processos de minimização, sendo, por isso, extremamente relevante na morfologia portuguesa (GONÇALVES, 2004b: 12). Cabré (1994),

31 Hipocorização é o processo morfológico por meio do qual antropônimos são encurtados de forma afetiva, gerando uma forma diminuta que mantém identidade com o prenome. Sendo assim, “Chico” é o hipocorístico de “Francisco”, e “Dedé” é a forma hipocorística de “André”, por exemplo.

32 O troqueu moraico considera o peso silábico, isto é, conta as moras (unidades de tempo de que as sílabas são constituídas). Cada duas moras formam um pé, com cabeça à esquerda.

Sílabas pesadas têm duas moras, logo formam sozinhas um pé.

96 analisando o catalão, defende que o argumento principal para que o troqueu moraico seja considerado como pé básico é sua pertinência em processos de minimização. Essas questões, como se pode perceber, trazem à luz a tese de que o pé básico do português é o troqueu moraico.

De acordo com a hierarquia prosódica proposta por Nespor & Vogel (1986), o pé é o constituinte que se situa entre a sílaba e a palavra fonológica.

Na ótica de Gonçalves (2004b), ocorre palavra mínima todas as vezes em que a palavra fonológica dominar um e somente um pé. Dessa maneira, monossílabos com rima ramificada (lar, mel e véu) e dissílabos com sílaba final leve (mala, neve e tolo) constituem palavras mínimas na língua portuguesa. Em se tratando dos monossílabos com rima ramificada, as duas moras do troqueu situam-se numa única sílaba pesada e, em se tratando dos dissílabos com sílaba final leve, as duas moras distribuem-se por duas sílabas leves.

Acrônimos de duas e três letras, como mostraremos à frente, sempre requerem condições de palavra mínima e, portanto, bloqueiam qualquer formação maior que duas sílabas e que não contenha pelo menos um pé.

Como se pode notar, o estudo da acronímia, bem como dos demais processos não-concatenativos de formação de palavras, pode fazer emergir aspectos importantes da gramática fonológica da língua portuguesa, servindo como evidência empírica, por exemplo, para a comprovação de propostas teóricas, como a tese de que o pé básico da língua é o troqueu moraico.

Convém salientar, ainda, que a tendência de acrônimos de duas letras não permitirem que segmentos obstruintes ocupem a posição de coda silábica ratifica um padrão geral do português brasileiro. Além disso, deve-se ressaltar que a inserção da vogal (epêntese) é uma solução para modificar sequências

97 que, de certa forma, poderiam levar segmentos sem licenciamento para a posição de coda silábica, como é o caso das obstruintes (COLLISCHONN, 2007). É exatamente isso que ocorre com os acrônimos de duas letras: insere-se a vogal [ɪ] após o segmento obstruinte justamente para modificar o estatuto silábico desse segmento, passando-o da posição de coda para a de onset, como se vê na representação abaixo, em (12):

(12)

A representação acima demonstra um processo de ressilabificação que ocorre pelo fato de, no primeiro momento do esquema, o segmento oclusivo [g]

estar em posição de coda silábica. Como consoantes oclusivas não têm licenciamento para ocupar essa posição, por conta da baixa sonoridade33, é necessário que haja a ressilabificação para que a sequência se enquadre nos padrões de uma sílaba bem formada no português brasileiro. No processo de ressilabificação, ocorre a epêntese de [ɪ] a fim de que haja a ligação de [g] à única posição que lhe cabe: a de onset.

33 Existe uma condição de sequência de sonoridade, fundamentada na Generalização de Sequência de Sonoridade (Sonority Sequencing Generalization), de Clements (1990), segundo a qual, em qualquer sílaba, o elemento mais sonoro constitui o núcleo e é precedido/seguido por elementos de grau de sonoridade crescente/decrescente. As obstruintes, em uma escala de 0 a 3, apresentam grau 0, cabendo a elas, portanto, apenas a posição de onset.

98 Outro fato importante que vem à tona na análise diz respeito ao acento.

Lee (2007: 128) afirma que, nos “não-verbos, o acento cai numa das duas últimas sílabas”. Assevera, ademais, que o acento proparoxítono dos não-verbos é irregular no português brasileiro e, para justificar essa tese, argumenta que “as palavras derivadas, novas, criadas ou as palavras de origem estrangeira não criam palavras proparoxítonas – as palavras de sigla ou de empréstimo sempre respeitam essas generalizações no português brasileiro” (LEE, 2007: 124). Como os acrônimos de duas letras formam sempre dissílabos paroxítonos, reforça-se a tese de Lee a respeito do acento dos não-verbos.

Os fatos fonológicos mencionados ajudam a comprovar uma das hipóteses desta tese: a de que acrônimos são, de fato, palavras da língua, uma vez que são submetidos aos mesmos padrões fonotáticos a que se submetem quaisquer palavras do português. O próprio Lee, conforme citação no parágrafo anterior, postula que “palavras de sigla [...] sempre respeitam essas generalizações do português brasileiro” (LEE, 2007: 124).

Essas generalizações sobre os acrônimos de duas letras levam à formulação das restrições abaixo, em (13):

(13)

CODA-COND [+ soante / - soante, + contínuo, + coronal] (Condições sobre a coda): Só são permitidos, na posição de coda, segmentos soânticos (nasais, líquidas e vogais) e sibilantes (fricativas alveolares e álveo-palatais);

penalizam-se oclusivas e fricativas labiais nessa posição (LEE, 1999).

Violação: quando oclusivas e fricativas labiais aparecerem na posição de coda.

99 HEAD-DEP-IO: não é permitido que se acentue segmento que não esteja presente no input.

Violação: quando algum segmento inserido for acentuado.

*MID]MWd: Palavras morfológicas não podem terminar em vogal média.

Violação: quando palavras morfológicas terminarem em vogais médias.

DEP-IO (Dependência do input no output): nenhum segmento deve ser inserido; não pode haver qualquer tipo de acréscimo no output.

Violação: quando houver epêntese.

A seguir, em (14), a hierarquia proposta para as restrições expostas acima:

(14)

CODA-COND ; HEAD-DEP-IO >> *MID]MWd >> DEP-IO

A restrição mais bem cotada no ranqueamento é CODA-COND [+

soante / - soante, + contínuo, + coronal], que bloqueia a emersão de candidatos que tenham segmentos oclusivos ou fricativos labiais na posição de coda. Dessa maneira, um candidato como [uf], para Unidade de Federação, é impossibilitado de emergir como vencedor na disputa, uma vez que apresenta o segmento fricativo labial [f] na posição de coda e essa infração é fatal, dada a alta cotação desse restritor na escala de prioridades.

100 observados, esse elemento inserido porta acento. Sendo assim, explorando o exemplo Unidade de Federação, o restritor em questão bloqueia a emersão do candidato [u.ˈfi], já que este apresenta a última sílaba – a que contém o elemento epentético – como tônica. Verifica-se, portanto, que essa restrição obriga a formação de dissílabos paroxítonos, exatamente o formato dos acrônimos de duas letras, o que explicita a relevância desse restritor.

Convém ressaltar que essas duas restrições enumeradas – CODA-COND e HEAD-DEP-IO – atuam em conjunto no ranking. Isso significa dizer que apresentam o mesmo grau de relevância, sendo as mais bem cotadas na hierarquia. No tableau, essa atuação em conjunto dos restritores é explicitada pela linha tracejada.

Muito importante na análise, embora menos cotada na hierarquia que as duas restrições já explicadas, o restritor de marcação *MID]MWd, formulado com base em Lee & Oliveira (2006), proíbe a realização de vogais médias no final de palavras prosódicas. Essa restrição é fundamental para que uma vogal média, por exemplo, não seja inserida junto ao segmento flutuante na posição

34 Para Beckman (1998), existe um pequeno inventário de posições linguisticamente privilegiadas que desempenham papel importante nos sistemas fonológicos. Essas posições são as que apresentam uma vantagem perceptual no sistema de processamento, via proeminência psicolinguística ou fonética, em relação a posições não-privilegiadas. Beckman (1998) destaca como fortes os seguintes constituintes: sílabas iniciais de raízes/palavras, sílabas acentuadas, onsets silábicos, raízes, vogais longas.

101 de coda. Dessa forma, um possível candidato como [ˈu.fe] (Unidade de Federação) infringiria *MID]MWd e seria eliminado da disputa.

A última restrição do ranking é DEP-IO, um restritor de fidelidade anti-epêntese. Uma vez que em todos os acrônimos de duas letras ocorre a epêntese da vogal [ɪ], está claro o motivo pelo qual DEP-IO é a restrição menos cotada na hierarquia. Sua entrada no ranqueamento, ainda que no fim, justifica-se para que justifica-se evite a injustifica-serção de outros possíveis justifica-segmentos no acrônimo.

Na Teoria da Otimalidade, as línguas exibem processos fonológicos em função de um conjunto de restrições universais, ranqueadas de maneira individual para cada língua. Dessa forma, consideramos que, no português brasileiro, “a epêntese ocorre pela interação entre a restrição CODA-COND, que proíbe obstruintes na coda, [...] com a restrição DEP” (COLLISCHONN, 2007: 210). Abaixo, em (15), mostra-se a interação desses restritores e a superioridade de CODA-COND em relação à DEP:

(15)

/pakto/ CODA-COND DEP

a.  [ˈpa.ki.to] *

b. [‘pak.to] *!

Enfim, abaixo, em (16), segue tableau com a análise completa do acrônimo IG (Internet Grátis). Observe-se que representamos a forma de input sem barras e por meio de letras. Como o input é a forma de entrada, essa foi, de fato, a forma na qual os informantes se basearam para ler as siglas nos

102 testes. O input, portanto, é gráfico, tal como foi apresentado, ou seja, por escrito, e corresponde à forma que motivou a leitura por parte dos sujeitos que participaram dos testes:

(16)

IG CODA-COND HEAD-DEP-IO *MID]MWd DEP-IO

a)  [(ˈi.gɪ)] *

b) [(ˈi.ge)] *! *

c) [(i.ˈgi)] *! *

d) [(ˈig)] *!

O primeiro candidato a infringir uma restrição é [(ˈig)], que viola CODA-COND por apresentar o segmento [g] (uma oclusiva) na posição de coda. O candidato [(i.ˈgi)], a seguir, infringe HEAD-DEP-IO, já que, nesse candidato, o acento recai sobre a sílaba que apresenta o segmento epentético e, de acordo com HEAD-DEP-IO, é proibido que se acentue algum segmento inserido.

Como esses dois restritores atuam em conjunto, os candidatos “c” e “d” são eliminados da disputa, porque violam, uma vez cada, uma das duas restrições mais importantes.

Pelo crivo de *MID]MWd, é eliminado da disputa o candidato [(ˈi.ge)], uma vez que a vogal média [e] é inserida e, conforme essa restrição, vogais médias em borda direita de palavras morfológicas são proibidas. Por fim, os candidatos

103

“a”, “b” e “c” violam, cada um uma vez, a última restrição, pois todos inserem algum elemento não presente no input. Como três candidatos já haviam sido eliminados da disputa, [(ˈi.gɪ)] emerge como output ótimo para o acrônimo IG.

A análise proposta para IG também vale para as demais siglas de duas letras, cujos acrônimos são sempre dissílabos caracterizados pela epêntese de [ɪ], tais como IF ([(ˈi.fɪ)]) e UF ([(ˈu.fɪ)]).

No documento Universidade Federal do Rio de Janeiro (páginas 92-103)