• Nenhum resultado encontrado

As situações de trabalho e o risco que oferecem

O Trabalho no Hotel entre o Bem-Estar e o Adoecimento

5.1 As situações de trabalho e o risco que oferecem

Os tipos de riscos encontrados relacionados ao trabalho das camareiras podem ser classificados nos três grupos mencionados no capítulo 2: ambiental, humano, e situacional. Em termos dos riscos ambientais, foram constatados os tipos químico e biológico. Em relação aos riscos humanos, além dos psicossociais como a forma de gestão mencionada no capítulo anterior, foram constatados os riscos ergonômicos, como as posturas e posições inadequadas e sobrecarregadas, pouco conforto, ritmo acelerado, entre outros. No que se refere aos riscos situacionais, esses se concretizam na ausência de proteção adequadas ou suficientes. A seguir será evidenciado cada um dos tipos encontrados, numa tentativa de clarificar o impacto do trabalho na saúde das camareiras.

5.1.1. Riscos Psicossociais

Dentre os riscos humanos, tem sido visto neste trabalho as sobrecargas relacionadas à organização e à gestão do trabalho dos hotéis pesquisados. Organização e gestão que exigem produtividade e ritmo acelerado de trabalho, o que resulta numa carga de trabalho inadequada. Os riscos deste item são aqueles categorizados em “psicossociais”, e que estão diretamente

relacionados às formas de organização do trabalho evidenciadas no capítulo anterior. Suas repercussões aparecem em formas diversas de sintomas e queixas relacionadas à saúde, que vão desde a desregulação gastrointestinal até a sensação de fadiga.

As camareiras reconhecem que depois do trabalho no hotel passaram a apresentar sintomas que antes não as acometiam com tanta freqüência. Esses sintomas estão aqui evidenciados como uma indicação de prováveis resultados da organização do trabalho sobre a saúde dessas mulheres. A metodologia aplicada à pesquisa apenas levanta a hipótese de que tais queixas podem ser decorrentes das situações de trabalho apresentadas no capítulo 4. Os resultados dos riscos psicossociais como queixas de sintomas que as camareiras relacionam com o trabalho podem ser exemplificados na tabela abaixo20

:

Tabela 04: Variação dos sintomas por freqüência e percentagem do total

Sintoma Freq. % do total

Insônia 4 30% Apetite demais 2 15% Dor de estômago 1 7,7% Falta de apetite 3 23% Tremores 2 15% Suores frios 2 15% Palpitações 3 23% Constipação intestinal 5 38,46% Disenteria 1 7,7% Nervosismo 6 46,1% Esquecimento 5 38,46% Ansiedade 5 38,46% Choro fácil 6 46,1% Fadiga 7 53,8% Náusea 2 15% Resfriados constantes 3 23% Alergias constantes 4 30% 20

A percentagem apresentada na tabela não tem valor quantitativo, está contida apenas para facilitar a visualização das freqüências com que apareceram.

Raiva 3 23%

Tristeza 5 38,46%

Medo 2 15%

Irritabilidade 3 23%

Essas queixas podem estar relacionadas ao que fora discutido anteriormente sobre o Estresse. Indo ao “pé da letra”, e classificando tais sintomas na escala de gravidade do Estresse, essas trabalhadoras apresentam respostas fisiológicas da 2ª fase, a “de resistência”. Nesta fase o organismo usa suas forças para manter-se em vigília, sustentando as respostas para as exigências diárias. O principal sinal é a sensação de desgaste, de fadiga, que foi a queixa central das entrevistadas.

No que se refere às queixas somáticas, as que tiveram mais importância foram fadiga, constipação intestinal e alergias constantes. Já os sintomas psíquicos foram nervosismo e choro fácil; esquecimento, ansiedade e tristeza; e por último, insônia. Esses sintomas podem representar um desequilíbrio homeostático, e também estar associados a futuros desencadeamentos de enfermidades. Os sintomas são sinais manifestados tanto na área somática quanto na área psíquica, e denotam uma luta constante do corpo para manter-se ativo e restaurar sua homeostase interna. Lembremos que entre os principais fatores desencadeadores do Estresse estão as tensões no trabalho e as pressões e exigências além do suportável (FILGUEIRAS e HIPPERT, 2002).

De acordo com a classificação de Hans Selye (1974), o estresse apresentado pelas camareiras seria o “distresse”, ou “estresse ruim”, que desregula as funções globais do organismo. Geralmente as exigências de um trabalho sobrecarregado resultam em desequilíbrio do organismo e conseqüentemente em adoecimento. Essa classificação já era esperada e não surpreende, visto que na configuração atual do mundo do trabalho, o distresse é a condição mais habitual.

Não existem proteções para esse tipo de risco. Para que os sintomas apresentados na tabela 03 possam diminuir, escolhas gerenciais que reduzam a sobrecarga de trabalho e confiram mais autonomia às trabalhadoras precisariam ser colocadas em prática. Pode-se inferir que não são resoluções fáceis diante de uma lógica de trabalho que se preocupa cada vez menos com a

saúde do trabalhador. Porém, a renormalização do trabalho discutida anteriormente funciona como estratégias de “coping”, que ajudam a aliviar as tensões do trabalho.

5.1.2. Riscos químicos

No que se refere aos riscos ambientais químicos os produtos comuns aos dois hotéis são: detergente, sabão, água sanitária, polidor de alumínio, ácidos, lustra móveis, cera, óleo vegetal, desinfetantes, “vidrex”, álcool, saponáceo. O “cloro”21

(água sanitária com alta concentração) e o “T-50” (um desinfetante concentrado) são utilizados apenas no H1. Essas substâncias, comuns à higienização ou desinfecção de ambientes de uso coletivo doméstico, são divididas em dois grupos: os domissanitários e os solventes (AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA, 2010; AZEVEDO & ROSA, 1982). Os domissanitários são os sabões e detergentes, os desinfetantes, os agentes de limpeza, os inseticidas e os repelentes domésticos. São substâncias que apresentam habitualmente riscos leves e moderados, e intoxicam através do contato com pele e mucosas, inalação ou ingestão (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 1970; AZEVEDO & ROSA, 1982). São a 2ª causa mais freqüente de intoxicação humana, cerca de 9% no Brasil. A maioria das pessoas intoxicadas é composta de mulheres (adultas e adolescentes) seguidas por crianças de ambos os sexos (FIOCRUZ/SINITOX, 2010). Os solventes, por sua vez, formam um grupo de substâncias químicas orgânicas, altamente corrosivas e inflamáveis.

21

O cloro é a substância utilizada em estações de tratamento de água e nas indústrias, que o utilizam como matéria-prima para o branqueamento de celulose, fabricação de PVC e de produtos para o tratamento de piscinas; o hipoclorito de sódio, em alta concentração, só é comercializado no atacado e chega ao consumidor doméstico somente na forma de Água Sanitária; a Água Sanitária é uma solução que contém 2,5% de cloro ativo em água. Desse modo, mesmo que popularmente se fale “cloro”, trata-se ainda da água sanitária, porém, com uma maior concentração.

Os dois tipos de substâncias utilizadas para a limpeza dos ambientes dos hotéis são passíveis de causar reações tóxicas (SCHVARTSMAN, 1991). No anexo D estão descriminadas as possíveis reações aos domissanitários e aos solventes.

Todos os sintomas dispostos no anexo em questão são uma coletânea das formas prováveis de intoxicação através dos produtos domésticos de limpeza. Não se esperou encontrar tais reações no campo. Esta lista encontra-se exposta em termos de ilustração das possibilidades de envenenamento por conta das substâncias utilizadas no trabalho de limpeza das camareiras de hotéis. Algumas dessas reações sentidas pelas camareiras estão exemplificadas abaixo:

Olha, aqui o que é ruim é assim, os produtos, não é? A gente pega direto nos produtos e corta a mão da gente. O “cheirinho” é muito forte e o cloro também! Eu “fedo” a água sanitária o tempo todo (Selma, H1).

(...) uma vez eu coloquei cloro num banheiro que tava podre, saiu até fumacinha! E aquilo irritou meus olhos e meu nariz. Comecei a espirrar e os olhos coçaram e ficou irritado. (...) fiquei lavando com água e passando um paninho úmido para aliviar, mas só depois de um tempo passou (Vilma, H1).

Veja as minhas mãos! Elas despelam e até a impressão digital some! (Francisca, H1).

Eu tenho alergia aos produtos, mas fazer o quê? Não é? (...) Me dá espirro, dor de cabeça, até tontura me dá! (Samira, H2).

A gente usa mais cloro, porque eles não dão água sanitária (Noêmia H1). É cloro puro, mas a gente “destempera” (Vilma, H1).

No H1, como já fora apontado, as camareiras não dispõem de luvas de proteção, nem máscara para evitar inalação de respingos e gazes. O contato direto com a pele, assim como a inalação das substâncias provocam reações orgânicas: irritação ou corrosão da pele e mucosas, dermatite de contato, lesões corrosivas, irritação de vias aéreas superiores, irritação ocular, náuseas, tonturas, rinite, asma, cefaléia. Esses sintomas narrados fazem parte das reações previstas no anexo D em níveis leve e moderado, o que significa que seriam facilmente evitadas com a proteção individual simples.

Exemplos como náusea, tontura, cefaléia, dermatite, descamação, cortes, irritações da pele, dos olhos, das vias aéreas e da boca, espirros freqüentes, rinite e pruridos foram reações narradas pelas entrevistas, relacionadas aos produtos químicos:

De vez em quando eu fico gripada. É tipo alergia. Basta lavar o banheiro, o cloro, pronto, eu já fico... De vez em quando eu fico gripada, isso aí eu tenho. É tipo alergia, basta eu lavar o banheiro com cloro, pronto! (...) De vez em quando eu pego no cloro, quando eu boto muito, dá um espirro danado (Noêmia, H1).

Tenho muita alergia aos produtos e os cheiros deles, das coisas que a gente usa pra limpar (Adélia, H2).

Embora sejam produtos de uso no cotidiano doméstico, o diferencial mais específico dessas trabalhadoras é o tempo da exposição às substâncias, muito maior que o habitual de uma casa. Se elas não têm proteção, essa exposição fica mais intensa e pode causar reações como as exemplificadas acima.

Esses riscos são simples de eliminar porque se relacionam estritamente com as “condições” de trabalho, e por fazerem parte dos níveis leve e moderado de risco. Conseqüentemente, os níveis necessários de segurança também são os mais fáceis de serem estabelecidos, pois requerem boas práticas de manipulação associadas ao uso do equipamento de proteção individual, que no caso refere-se às luvas e botas de borracha, máscaras e óculos. Também é fácil eliminar o uso de cloro e orientar o uso de ácidos com as devidas proteções. Trata-se de questões que requerem um pouco de atenção gerencial e um custo financeiro mínimo diante dos benefícios que resultam de tais alterações não apenas para as trabalhadoras, mas também para a empresa.

5.1.3. Riscos biológicos

Riscos biológicos dizem respeito à probabilidade da exposição ocupacional a agentes biológicos (BRASIL/MTE/NR 32). Esses agentes são organismos como vírus, bactérias, parasitas, protozoários, fungos, bacilos, riquétzias etc.. Estão presentes no ambiente na forma de esporos, células, toxinas, fragmentos moleculares entre outras. Tais organismos são encontrados em sangue, urina, escarros, sêmen, gotículas de tosse ou espirro etc.

Os tecidos ou os órgãos são as vias de entrada por onde um agente penetra em um organismo, podendo ocasionar doenças. Essa entrada pode acontecer por via cutânea (contato direto com a pele); parenteral (inoculação intravenosa, intramuscular, subcutânea); por contato direto com as mucosas; por via respiratória (inalação); e por via oral (ingestão). Exemplos de contaminação de doenças infecciosas por diversas vias de contágio são:

 Via cutânea: hepatites B e C, HIV, raiva.

 Via respiratória: rubéola, sarampo, influenza, viroses respiratórias, outras.  Via oral: hepatite A, cólera.

Essas transmissões podem ser distintas em duas formas: a direta, em que não existe a intermediação de veículos ou vetores (exemplo: transmissão por gotículas e contato com a mucosa dos olhos); e a indireta, em que a transmissão se dá por meio de vetores (exemplo: perfurocortantes, roupas, superfícies).

Os riscos de contágio por agentes biológicos são classificados em quatro classes, que funcionam como uma escala de menor para maior (BRASIL/MTE/NR 32):

Classe 1 O agente não oferece risco nem para quem manipula nem para a comunidade.