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Capítulo 3: A ciência entra na roda

3.4.   No Brasil 176

3.4.1.   As televisões públicas 176

Em relação aos programas especializados em ciência no Brasil, um dos primeiros que se conhece é a série Nossa ciência, que estreou na televisão pública TVE do Rio de Janeiro, em 1979. O objetivo do programa era divulgar a produção científica e acadêmica do Rio de Janeiro já que a emissora não possuía dinheiro para realizar esse trabalho em outras regiões do Brasil. O programa inovou não só no conteúdo, mas no formato também, visto que foi um dos primeiros, nesse momento de abertura política e       

90 Cf. Informações obtidas no site do programa Nova, da PBS. [citado 30 nov. 2015] Disponível em: http://pbs.org/nova

redemocratização, a convidar especialistas e entrevistá-los. Mas terminou devido à falta de recursos e investimento da própria TV Educativa, que contava com escassos recursos governamentais.

Idealizado pelo jornalista e professor Nilson Lage, o programa era transmitido às sextas-feiras, uma vez por mês. Segundo Juberg (2001), foram produzidos somente 10 programas, desses, somente quatro foram recuperados e analisados.

O programa era relativamente longo, com uma hora de duração, sendo 30 minutos reservado para debate. O então presidente da SBPC Ennio Candotti abriu o primeiro programa, que discutiu a importância da divulgação científica no Brasil, em seguida, ele comentou assuntos relacionados às pesquisas em andamento no Rio de Janeiro, dando destaque para as realizadas pelo Instituto Oswaldo Cruz. Segundo Juberg, entre os principais assuntos abordados nas séries recuperadas estão temas relacionados às políticas públicas para a ciência, saúde e meio ambiente.

Anos mais tarde, em 1987, a TVE voltou a veicular programas de divulgação da ciência. O Tome Ciência, com duração de 30 minutos, era apresentado aos sábados e estava estruturado da seguinte maneira: noticiário de reportagens sobre os avanços tecnológicos e entrevistas sobre política científica. (Andrade, 2004: 145).

A TV Cultura, objeto de análise dessa tese, também produziu diversos programas especializados em divulgação científica – muitos deles infantis. Como vimos anteriormente, nos anos 1970, a emissora já era referência em documentários educativos que tratavam de temáticas científicas entre os quais destaco: Século XX, Século XXI, Civilização – a história do homem ocidental, O mundo selvagem dos animais, entre outros91; muitos desses documentários eram nacionais, outros eram realizados em parceria com outras televisões estrangeiras.

Também é nesse canal que estão as categorias mistas Entretenimento/Educação, representada pelo Rá-Tim-Bum, Glub Glub, X-Tudo entre outros. Não se pode esquecer do projeto Telecurso, que disponibilizava videoaulas para       

91 As referências a esses documentários foram encontradas nos relatórios de atividades que estão no arquivo do Centro de Memória da Fundação Padre Anchieta. No entanto, as fitas desses vídeos não foram encontradas, de forma que não foi possível analisar o material.

jovens e adultos, realizado em parceria com a Fundação Roberto Marinho92. Como se viu anteriormente, esse perfil da TV Cultura, de televisão educativa, tornou-se mais forte a partir de 1995, quando o então presidente da Fundação Padre Anchieta decidiu investir na programação infantil. Lançando mão do apoio de empresas privadas, entre as quais se destaca a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), em maio de 1994, estreou no canal o programa infantil Castelo Rá-Tim-Bum, uma reprogramação do Rá-Tim-Bum, com novos cenários. Em entrevista, o ex-diretor da Fundação Padre Anchieta Roberto Muylaert comentou:

Na minha segunda gestão, o Banco Mundial, junto com o diretor da Childrens Television, veio me oferecer 18 milhões de dólares para fazer o Vila Sésamo e não precisaria fazer mais nada; perguntei se não poderia ser produção brasileira, porque estava pensando em formar mão de obra aqui. E eles disseram que sim, mas que teria que ser um programa tal como o Vila Sésamo. E eu questionei se não daria para ser algo nosso – brasileiro. Nós temos aqui um projeto interessante, voltado para o público infantil. Eles negaram. E lá se foram 18 milhões. Bom, eu peguei o projeto que já existia fui à Fiesp, falei com o Mario Amato, pedi um financiamento de 2 milhões de dólares e convidei o Fernando Meirelles, que, inclusive, criou o nome

Rá-Tim-Bum e foi um sucesso absurdo. Anos mais tarde, voltei à

Fiesp, o presidente na época era o Carlos Eduardo Moreira Ferreira, que não tinha a menor sensibilidade para nada, mas que, devido à enorme audiência do programa, aceitou continuar o financiamento para um projeto de entretenimento para o público infantil. Eu cheguei com um outro projeto que se chamava Castelo Mal-Assombrado, eu acho. E ele falou que só aceitaria financiar se tivesse Rá-Tim-Bum no nome e mudamos para Castelo Rá-Tim-Bum.

O programa era escalado para ir ao ar no início do horário nobre durante a semana e, apesar de tratar de diversos assuntos, discutia, em muitos momentos, ciência, apresentando, por exemplo, quadros com os personagens Professor Tibúrcio e Tíbio e Perônio. Em artigo sobre o tratamento dado pela mídia televisiva à ciência e sua divulgação, Sirlene Alferes e Carmen Augustini (2008) analisaram blocos do programa infantil no qual esses personagens são protagonistas e constataram a existência de determinados signos relativos ao mundo da ciência recorrentes no programa, entre eles as autoras destacaram: a utilização de enciclopédias e/ou livros manuais, o laboratório como o espaço de trabalho do cientista e, por fim, o jaleco branco. Ainda segundo as autoras, no quadro com o professor Tibúrcio predomina um discurso pedagógico       

autoritário. O personagem principal fala voltado para a televisão, o telespectador, nessa lógica, é mais um “aluno”, que, juntamente com outras crianças, aceita e compreende as explicações colocadas por ele passivamente, sem realizar qualquer questionamento.

Também foi analisado pelas autoras Alferes e Augustini outro programa que ficou muito popular na TV Cultura nos anos 1990 a série O Mundo de Beakman93. Apresentado diariamente às 19h30 (exceto aos sábados e domingos), o programa mostrava como a divulgação científica podia ser algo agradável, conquistando assim o público. No Mundo de Beakman havia um apresentador/cientista, sua assistente e Lester, um rato94 de laboratório. O programa tirava as dúvidas que vinham por meio de carta/fax (além das dúvidas e questionamento dos próprios personagens e, em especial, do rato), e o apresentador mostrava dados científicos e realizava experiências simples em seu laboratório, para as quais as crianças eram constantemente alertadas de que “deveriam ter o auxílio de um adulto”.

Uma importante observação feita pelas autoras em relação aos personagens Tíbio e Perônio e ao Beackman era o fato de que, enquanto os cientistas do Rá-Tim- Bum chegavam juntos à conclusão sobre determinado assunto, Beackman possuía todas as respostas para as dúvidas apresentadas pelos telespectadores e seus ajudantes, “trazendo à tona a imagem de que ciência pode ser feita por um só cientista e/ou a imagem de que o cientista detém todo saber científico e não os outros (leigos)” (Alferes e Augustini, 2008:14). Para elas, em maior ou menor grau, todos esses programas consideram a ciência uma espécie de “entidade” que deveria ser exaltada.

Por fim, outra observação pertinente das autoras é o intenso uso das cores nos programas. É como se a produção buscasse, com esse colorido, atrair o público infantil para o mundo científico.

Outros programas da TV Cultura relacionados à ciência foram produzidos nos anos 1990 em meio à Conferência do Rio para a ecologia, a Eco-92, e até hoje compõem a grade de programação da emissora, são eles: Tribo e Trilhas, Repórter Eco,       

93 Série de televisão composta por 91 episódios, dirigida por Jok R. Church para ser veiculada na televisão americana. Os direitos de exibição foram comprados pela Fundação Padre Anchieta também na segunda gestão de Muylaert.

Expedições, Planeta Terra. Com um viés ecológico, esses programas eram apresentados aos domingos no fim da tarde e compunham o bloco do meio ambiente. Roberto Muylaert,comenta os programas sobre ciência na TV Cultura:

A gente decidiu fazer o Repórter Eco por conta da Conferência Mundial do Rio de Janeiro. Uma maneira de estruturar o programa e colocá-lo numa lógica de programação foi trazer novas séries com o mesmo formato e linguagem; decidiu-se que aos domingos haveria o bloco ecológico.95

Em estudo sobre o Repórter Eco, a pesquisadora Lucia Guido, ressaltou um fato interessante: todos esses programas voltados para ecologia são apresentados por mulheres. Tendo em vista que o Planeta Terra tem como símbolo a figura materna, "mãe - terra", "mãe - natureza", pode-se dizer que a imagem feminina na relação espectador/programa trazia maior confiabilidade às notícias e reportagens (Guido, 2005:102).

O programa Tribos e Trilhas, produzido pela Hipermídia Comunicação, apresenta as paisagens brasileiras de forma a incentivar um turismo sustentável, trazendo informações sobre os lugares, comidas típicas e locais baratos e de qualidade para se hospedar. Em alguns programas, há destaque para projetos sociais, especialmente aqueles promovidos pelas organizações sociais das regiões visitadas. (Guido, 2005: 89).

Já o Repórter Eco faz uma abordagem mais informativa sobre determinadas regiões do país, enfatizando as pesquisas científicas realizadas nesses locais e os projetos de conservação ambiental. Na época que antecedeu a Eco-92, o Repórter Eco era apresentado em formato drops no horário nobre da televisão das 19h50 às 20h com notícias breves relativas ao Brasil e ao mundo. Durante a conferência, o programa passou a ter 30 minutos, fazendo a cobertura completa dos eventos e realizando matérias sobre os temas discutidos. Com o fim da Eco-92, o programa manteve a marca das entrevistas, chamando especialistas de áreas relacionadas ao meio ambiente, com destaque para antropólogos e geógrafos. Além disso, a produção criou o hábito de convidar indivíduos atuantes de organizações não governamentais para falar de seus       

projetos de preservação ambiental, tornando confuso para o telespectador quais os lugares das falas dos especialistas e dos defensores das causas relacionadas ao meio ambiente, ou seja, há pouca clareza sobre o que é pesquisa científica promovida por política pública e pela iniciativa privada na área de preservação ambiental.

O programa Expedições, produzido pela RW Vídeos, aborda principalmente as paisagens naturais brasileiras, apesar de trazer algumas reportagens de denúncia de crimes ambientais. Por fim, o Planeta Terra é o programa que fecha o domingo ecológico da TV Cultura, apresentando documentários de vários países.