CAPÍTULO 4 – A PESQUISA EM RELATIVISMO LINGÜÍSTICO HOJE: OS
4.6. S TEVEN P INKER E OS NEO - WHORFIANOS
4.6.1. As dez versões do RL para Pinker (2007)
É importante deixar claro, aqui, que a instância do RL a que Pinker se opõe é a versão forte, a do determinismo lingüístico. Assim, para apresentar o DL como uma teoria à qual se deve preferir a semântica conceitual, Pinker separa e critica dez
160 “there is a way in which words are tied to reality even more directly. They are not just about facts about the world stored in a person’s head but are woven into the causal fabric of the world itself.”
diferentes “versões” do RL/DL ou, como ele as chama, “hipóteses de Whorf” (Pinker, 2007: 126ss.).
4.6.1.1. As versões banais: de 1 a 5
A primeira é a versão que diz que a língua afeta o pensamento porque adquirimos a maior parte do nosso conhecimento através das conversas e da leitura.
Naturalmente, a banalidade dessa versão se dá porque ela nada mais faz do que definir língua como meio principal de comunicação dos seres humanos.
A segunda é a que diz que estruturas sentenciais nos obrigam a moldar os eventos de acordo com as características da nossa língua (como Slobin (1996) quis demonstrar com o experimento de narrativas em línguas diferentes partindo de figuras).
Ainda que não comente o fato de que línguas diferentes criam moldes estruturais diferentes para os eventos (ou impedem a construção da representação dos eventos de certas formas – cf. acima, neste mesmo capítulo, a discussão de Slobin (1996) ou outros capítulos não discutidos de Gumperz & Levinson (1996) e Gentner & Goldin-Meadow (2003)), Pinker considera essa versão quase tão banal quanto a primeira, visto que os falantes de uma mesma língua não são forçados a moldar ou construir um evento de uma maneira específica, e podem fazer escolhas ou avaliar escolhas alheias no modo de construção dos eventos.
A terceira versão é a que diz que o inventário lexical de uma língua reflete o tipo de coisas com as quais os falantes de uma língua têm que lidar em suas vidas e, portanto, sobre as quais podem pensar. A banalidade dessa versão do relativismo já foi demonstrada em vários lugares acima nesta tese, em especial com relação à grande farsa do vocabulário esquimó. Pinker ressalva, no entanto, que, mesmo dentro de uma comunidade de falantes de uma mesma língua, é possível que o aprendizado ou uso constante de certos conjuntos lexicais gere maior familiaridade ou interesse com aquele campo semântico ou aquele aspecto do mundo.
A quarta versão é a que confunde língua com o inventário de significados possibilitados por ela (excluindo daí o aspecto gramatical ou material da língua) e que, portanto, identifica diretamente língua e pensamento. Essa versão é naturalmente vácua pela própria confusão que faz com relação ao uso do termo língua.
A quinta versão é curiosa porque envolve uma espécie de meta-formulação do RL. O exemplo de Pinker é o de experimentos para testar a hipótese whorfiana: ao se entregarem três fichas de cores verde, azul e azul esverdeado para um sujeito e solicitar que ele escolha as duas que pertencem à mesma categoria, a natureza ambígua da proposta do experimento fará com que o sujeito escolha as duas que, em sua língua, sejam descritas pelo mesmo nome. Assim, os nomes das entidades são atributos relevantes para os falantes das línguas. O que Pinker nos diz aqui é que a escolha do falante não diz respeito ao modo como ele efetivamente pensa, mas sim ao modo como ele tem que executar uma tarefa ambígua e mal-formulada, utilizando-se da língua. Para Pinker, trata-se de um modo de influência da língua no pensamento, mas um modo vazio, já que motivado por uma formulação de tarefa pouco clara e com pouca relevância.
4.6.1.2. As versões mais interessantes: 6 e 7
A sexta versão diz respeito ao fato de que podemos usar a língua objetivamente como um dos modos de acesso à nossa memória de trabalho/de curta duração (working memory), através de pequenos trechos de fala interior, chamados por Pinker de loops fonológicos. Eles auxiliam computações mentais do mesmo modo que a memória de trabalho de um computador. Assim, o uso da versão física da língua como medium para a memória de trabalho facilita a computação mental (por exemplo, matemática, mnemômica ou lógica). Da mesma forma, a presença de certos termos para expressar conceitos complexos em certas línguas ou grupos lingüísticos favorece a computação mental acerca do campo conceitual em questão, já que o processamento pode lidar com aquele conceito como um “pacote” fechado pelo termo, liberando espaço de trabalho para o restante do processamento. Esta versão do RL não é determinista para Pinker (nem “completely boring [completamente chata]”) pois as línguas não são objetos estanques e podem se alterar através de neologismos, empréstimos, processos de gramaticalização, entre outros processos criativos e expansivos. Um outro ponto importante para ele é que muitos dos loops fonológicos que utilizamos na memória de trabalho não são exatamente lingüísticos: pode se tratar de códigos, abreviações, siglas, expressões mnemônicas, números, entre outros. Pinker relata o experimento feito por Stanislas Dehane e Elizabeth Spelke com falantes de inglês e russo, no qual os falantes
respondiam perguntas sobre somas de números de dois dígitos de duas formas: de forma aproximada e de forma exata. Para lidar com resultados aproximados, os falantes utilizavam um sistema de cálculo mental, enquanto que para lidar com resultados exatos, os falantes freqüentemente fizeram uso de loops fonológicos do tipo “palavras mentais” para auxiliar na computação.
A sétima versão é a que diz que línguas diferentes forçam os falantes a prestar atenção a certos aspectos do mundo quando os obrigam a dizer certas coisas. Assim, o inglês e o português nos forçam a pensar em quando os eventos acontecem e em suas estruturas temporais, enquanto que o turco nos força a dizer sempre se um evento foi presenciado pelo falante ou se eles souberam dele por outrem. Expressões para lidar com o domínio do espaço fazem a mesma coisa: os falantes de inglês são obrigados a distinguir in de on, que são duas preposições que denotam relações espaciais geralmente denotadas pela mesma preposição em português. Neste ponto, podemos mencionar os experimentos e pesquisas neo-whorfianas (algumas resenhadas neste capítulo) como Pinker também faz. A sua crítica, no entanto, se parece com a que já esbocei acima: o fato de falantes de uma língua serem obrigados a prestar atenção a certos aspectos da realidade não quer dizer, em absoluto, que eles não sejam capazes de lidar com os aspectos não obrigatórios em suas línguas. Assim, temos meios de dizer se o evento foi presenciado por nós ou se soubemos dele por outrem também em português e inglês.
4.6.1.3. As versões genuinamente deterministas: de 8 a 10.
A oitava é a que diz que as palavras e estruturas gramaticais exercem efeito profundo no modo como pensamos, mesmo quando não estamos usando a língua.
A nona é a versão radical que iguala pensamento e linguagem em todos os aspectos, postulando que a língua é o próprio medium do pensamento. Daí deriva a conseqüência de que não se pode pensar sobre um conceito que não tenha a ele anexada uma palavra.
A décima, finalmente, é a mais radical: se duas culturas falam línguas cujos repertórios de conceitos/palavras são diferentes, suas crenças são incomensuráveis, e a comunicação entre elas é impossível. Esta é a versão que Pinker identifica em Whorf.
Essas versões fortes do RL são as que Pinker chama de versões tradicionalmente sexies, ou “sedutoras”. São as versões chocantes, mas que atraem as pessoas com uma
aura de misticismo e fascínio. As versões triviais pouco interessam, e as versões que Pinker considera interessantes se confundem em alguma medida com as determinísticas, mesmo na pesquisa experimental contemporânea. Para ele (loc. cit., p. 135-6), uma demonstração da validade do determinismo relativista precisa mostrar três coisas: (a) que os falantes de uma certa língua consideram extremamente difícil, ou mesmo impossível, pensar algo que seja natural para falantes de uma outra língua; (b) que a diferença encontrada é genuinamente de raciocínio (ou, nas palavras de Lucy acima, extra-lingüísticas), e não apenas de linguagem ou misturada com a linguagem, o que impossibilita a medição objetiva do experimento através de resultados subjetivos demais e (c) que a diferença encontrada seja causada pela língua específica, e não encontrada por outras razões e apenas refletida na língua. Até onde fui com a pesquisa desta tese, não encontrei nenhum experimento que conseguisse provar o determinismo lingüístico nesse grau.