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Aspectos Climatológicos e das Coberturas Vegetais

LAGUNAR CANANÉIA IGUAPE

3.3 Aspectos Climatológicos e das Coberturas Vegetais

A ossatura litológica e padrões geomórficos do Complexo Lagunar e da Ilha são superimpostos por oscilantes condições climáticas. As heterogeneidades manifestam-se tanto em mudanças perceptíveis ao longo de intervalos anuais, correlacionadas as distintas estações do ano, quanto a mudanças de escalas temporais mais amplas, referentes sobretudo a complexa interação de forças de circulação atmosférica.

Birot (1959) já destacava que muitas vezes nas latitudes tropicais os contrastes entre distintas fachadas dos continentes são mais relevantes do que suas diferenças zonais, destacando a oposição entre segmento ocidental e oriental da América do Sul. A influência das correntes marítimas, massas de ar atmosféricas e seus jogos de influência em muito pesava

neste diagnóstico. Cabe registrar inicialmente oscilações climáticas perceptíveis em escalas temporais mais amplas, dentro do escopo de análise da climatologia dinâmica. Monteiro (1988) aponta que o Complexo Lagunar, como fachada litorânea do Vale do Rio Ribeira do Iguapé, mostra-se com clima fortemente influenciado pela interação de massas de ar tropicais e polares.

Cruz (1972) ao tratar especificamente do litoral sudeste do Brasil realça o encontro entre massas polares e tropicais, cujo encontro forma a “frente polar” que se desloca segundo o grau de intensidade das massas frias. Aponta que o litoral paulista se insere numa área pautada por interação entre distintos mecanismos de circulação atmosférica. Enfatiza a formação de sistemas frontais e frente resultantes da interação das massas polares com as massas de ar aquecidas dos trópicos. A presença dos sistemas elencados geram uma gama ampla de alterações nos padrões atmosféricos e mesmo oceanográficos e hidrológicos, podendo ocasionar da diminuição significativa das temperaturas a oscilações nos comportamentos da maré e da dinâmica de erosão e sedimentação flúvio-marinha.

Monteiro (1969) buscou inter-relacionar, entre os paralelos 20 e 24, quantidade de precipitações e atividade das massas polares em série histórica de dados. Mostrou que o ano mais úmido na série apresentada uma atividade polar 50% acima da média registrado, com mais intensa dinâmica frontal no litoral haja vista oposição da massa Tropical Atlântica. Já o ano mais seco da série histórica analisada apontou diminuição da atividade polar em 30% abaixo da média em questão. Enfatiza que ao longo de intervalos de tempo das décadas as intensidades e frequências com que o litoral é alcançado por estas massas de ar oscilam amplamente, ao ponto de contribuírem para alterações das condições usuais de inúmeros parâmetros climatológicos anuais. As quantidades de tempestades marinhas e pluviosidades encontrariam-se entre os fenômenos cuja frequência varia de acordo com a dinâmica das massas de ar.

Referentes às variações das condições médias anuais, Souza (2014) elenca alguns elementos da bibliografia que considerou adequados para sintetizar tal aspecto. Ab’Saber (1956) e o Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura da Universidade Estadual de Campinas (CEPAGRI - UNICAMP, 2012) apontam que, de acordo com a classificação climática de Köppen, o litoral do estado de São Paulo é pautado pelo clima tropical constantemente úmido. Nascimento e Pereira (1988), com base em análise de dados adquiridos entre 1977 e 1986, elencam que a temperatura máxima média alcançada foi de

26ºC e a mínima média de 18ºC. Magalhães (2003) enfatiza que no Complexo Lagunar de Cananéia-Iguape embora as condições de umidade permaneçam altas durante o ano todo, a distribuição das chuvas não é equitativa. Destaca que o período mais chuvoso se dá entre os meses de Outubro e Março, e os de menos chuvas se concentram entre Abril e Setembro. Mesmo esta divisão deve, porém, ser considerado como relativa. Magalhães (2003) aponta ainda neste sentido que no inverno chove em média 33% dos dias enquanto no verão em mais de 50% deles.

Nascimento e Pereira (1988) enfatizam que a região lagunar mantém altos índices de umidade relativa do ar ao longo do ano todo, usualmente entre 82 e 84%. Magalhães (2003) ainda destaca que nas épocas mais frias e quentes as temperaturas podem alcançar picos de frio e calor que destoam significativamente dos valores médio. Nos meses de Junho e Julho afirma que as temperaturas mínimas podem ficar reduzidas abaixo dos 10ºC, enquanto em Dezembro, Janeiro e Fevereiro as mais altas temperaturas podem ultrapassar 40ºC. Dados específicos para Ilha do Cardoso estão disponíveis por meio de estação pluviométrica que permaneceu ativa no núcleo de Itacuruça entre 1959 e 1995, com valores sumarizados na Tabela 1.

A análise da variação anual da pluviosidade (ver tabela 1) mostra uma dinâmica pujante de chuvas, não sendo possível encontrar nenhum ano que a chuva anual seja inferior a 1400 mm. Impera a abundância das águas, como esperado para uma área litorânea de padrão subtropical. Notamos porém variações significativas na magnitude das pluviosidades anuais, com anos que podem apresentar-se reduzidos a metade ou em mais de 50% superiores a média histórica. Como casos que se realçam estão o ano de 1963, com a mais alta pluviosidade registrada (superior a 3000 mm) e o de 1978, de menor quantidade de chuvas conhecidas (1413 mm). Mesmo este registro pluviométrico de menor magnitude da série histórica porém tem um valor absoluto significativamente expressivo. Observa-se portanto uma grande margem de variabilidade nos padrões de chuvas, ainda que elas permaneçam com patamares expressivos ao longo de toda série de dados analisada.

A observação da série histórica também permite notar significativas variações em relação as chuvas mensais médias. Nota-se que, como no restante do Complexo Lagunar, maior incidência de chuvas concentra-se entre Outubro e Março. Salienta-se porém que os picos

Tabela 1 – Dados Pluviométricos – Itacuruça (Ilha do Cardoso)

Chuva Mensal (mm)

Ano

Janeiro Fevereiro Março Abril Maio Junho Julho Agosto Setembro Outubro Novembro Dezembro Total

1959 --- 322 402,6 215 277 19,7 8,8 149,3 115,6 143,2 123,3 190,5 1967 1960 239,5 1034,7 220,9 196,5 200,1 77,7 47,2 150,7 95,5 237,9 284,7 146,1 2931,5 1961 260,7 702,9 294,3 479,1 117,2 204,6 55,3 20,7 357,6 145,4 154 204 2995,8 1962 312,9 271,5 479,1 232,6 128,8 55,5 89,8 66,9 209,2 317,8 74,5 208,8 2447,4 1963 840,6 339,5 518,7 184,8 61 85,8 153,9 95,7 59,8 158,5 283,6 224,3 3006,2 1964 211,6 295,8 167,4 223,7 109,7 297,7 75,9 119,4 149,2 280,3 207,1 299 2436,8 1965 309,1 326,1 368,5 413,8 332,4 68,1 163,4 67,1 102,8 104,7 192,4 470 2918,4 1966 349,6 460,2 283,6 325,8 234,8 46,7 62,6 70,7 105 213,2 134,7 185,5 2472,4 1967 329,5 593,2 584,5 251,7 38,6 144,1 155,5 34,3 85,1 134,3 190,6 208,2 2749,6 1968 380,3 125,3 281,8 201,9 45,2 44,9 52,9 44,1 57 172,8 73,3 123,5 1603 1969 155,5 296,3 450 332,6 173,3 326,2 78,3 56,4 61,5 212,7 315,3 160,5 2618,6 1970 163,5 312,6 275,6 534 157,3 38,4 172,7 141,9 170,8 156,8 122,8 253,8 2500,2 1971 197,1 142,6 116,4 62,1 225,1 90,1 37,2 62 76,4 98,2 45,4 98,3 1250,9 1972 318,1 365,9 137,2 163,3 108,7 51,8 43,7 168,6 186,4 227,1 76 359,7 2206,5 1973 285,1 309,4 306,8 563,9 256,6 34,1 147,7 170,9 125,3 92,7 76 133,9 2502,4 1974 282,7 195,2 226,9 157,1 78,3 84 54,4 52,5 61,5 167,5 125,1 131,9 1617,1 1975 290,6 230,6 316,4 108 448,3 64,2 92,6 86,5 133,1 215,5 197,1 261,1 2444 1976 555,9 562,8 264,2 81,5 248,7 63 137,6 73,2 167,4 104,5 117,2 254,3 2630,3 1977 264,1 182,1 252,5 190 71,4 151,7 37,5 71 157,7 250,1 280,3 94,8 2003,2 1978 167,9 204,6 259,4 93,3 82,2 61,8 35 154,4 56 72,8 111,4 114,3 1413,1 1979 226,6 196,6 475,7 175,4 154,3 19,5 94 62,2 101,2 127,8 214,1 193,1 2040,5 1980 218,2 566,7 330,8 67,5 42,9 198,4 162,2 82,3 131,7 174,3 113,7 508,7 2597,4 1981 530,3 314,2 298,6 138,4 101,8 120,3 93,2 67 37,2 94,5 106,9 169,1 2071,5 1982 218,9 248 426,6 214,7 211,7 280,9 96,1 45,6 40,8 302,1 268,4 120 2473,8 1983 241,9 133,8 459,1 233,9 439,9 213,4 135,4 23,1 288,2 144,1 118,3 349,7 2780,8 1984 505,4 136 234,7 96,4 73,2 78,5 39,9 153,5 80,4 61 190,6 131,9 1781,5 1985 150,4 239,3 300,8 134,2 62,7 68,4 23,8 21,9 95,5 66,5 185,1 94,4 1443 1986 155,5 573,8 454,8 176,1 87,8 20,3 136 31,5 109,4 97,5 143,2 499,5 2485,4 1987 287,3 255,4 197,3 300 261,9 151,8 23,6 53,3 187,9 146,5 64,9 202,7 2132,6 1988 422,9 456,7 187,1 205,9 271 70,4 43,2 13,7 132,8 230,5 43,1 151,3 2228,6 1989 402,5 325,8 402,8 155,7 157,6 120,8 214,5 46,3 173,4 75,8 108,2 151,9 2335,3 1990 459,5 76,2 333 215,9 102,7 49 167,6 91 96,8 109,9 141,3 107,7 1950,6 1991 238,4 264,7 373,6 128,4 152,3 175,8 20,6 61,4 95,7 184,2 189,9 182,9 2067,9 1992 112 78,4 181,7 96,2 216,9 14,9 101,2 59,6 75,7 134,6 244,3 --- 1315,5 1993 159,7 144,8 404,6 201,3 64,7 96,7 133,4 38,3 229,2 62,3 --- --- 1535 1994 - 394,4 525,4 285 154,2 82,4 102,4 8,1 28 --- 144,5 184,5 1908,9 1995 624,8 843 528 66,4 78,9 89,7 42 50,8 139,3 158,8 --- --- 2621,7 Média: 310,53 338,41 333,01 217,13 162,95 104,36 89,44 73,97 123,68 157,68 156,04 210,88 2278,08 Fonte: adaptado de DAEE (2015)

extremos de pluviosidade registrados para cada mês ao longo dos anos podem se aproximar do triplo ou da metade dos valores das referidas médias. Como exemplos podemos citar Fevereiro de 1960, que registra o maior valor mensal de pluviosidade da média histórica - 1034,7 mm de chuva, ante 338,41 mm para a média do mês referido. Já Julho de 1959 ilustra bem o caso de