CAPÍTULO 2 CAMPO MISSIONÁRIO CONGOANGOLANO:
2.1 PENTECOSTALISMO ASSEMBLEIANO: CONTEXTO HISTÓRICO
2.1.2 Aspectos da religiosidade do povo africano
Na cultura africana, de um modo geral, o ser humano não é percebido de forma dicotômica. Céu e inferno, corpo e alma, deus e demônio são vivenciados como um muntu, um todo, em um processo de comunhão. O corpo é revestido de sentido, pois dele emana vida, sendo, portanto, responsável pelo processo de comunhão entre sensibilidade, acolhimento, solidariedade, hospitalidade com o mundo material: ar, mundo vegetal e animal. Nessa perspectiva, o corpo abrange o ser supremo: Deus, ancestrais, espíritos intermediários - benfeitores e malfeitores - que coexistem como uma força extrema ao criar uma rede de ações que são estabelecidas por influências espirituais entre as almas.
A cosmovisão religiosa africana revela traços da presença do bem e do mal como forças que precisam ser equilibradas, por serem fontes de energia em sua totalidade. Portanto, passíveis de reordenamento, por meio de forças emanadas de um espírito bom ou de forças destruidoras, como fora dito. Essa ideia ainda persiste mais nas aldeias do que nas cidades,
sendo transmitida às crianças por comunicação oral: jogos, histórias, adivinhações. Curiosamente, ocorre dentro de um processo pedagógico em que “a criança tenha uma experiência de comunhão com o meio ambiente, de forma que o adolescente, em última análise, se concebe como o universo em miniatura” (MALDONADO, 1980, p.70). Isso engendra a consciência do corpo, em um processo de relação com o mundo que não se limita os fenômenos concretos e palpáveis, porém estendida ao fenômeno abstrato e invisível. Um exemplo do grupo étnico que se utiliza desses dispositivos educativos é o bakongo proveniente de Angola, Congo e Zaire. Tal mecanismo ocorre em grupo, nas comunidades e assembleias.
Quanto às assembleias, ocupam um espaço de uma cerimônia litúrgica. São chamadas de palabres - sessões plenárias. Nesse ambiente, africanos e africanas procuram conservar elementos de caráter judiciário centrado na oratória. Algumas vezes, tornam-se espaço de divertimento, de relaxamento comunitário, ou seja, de transmissão do conhecimento sociocultural. Todos participam dessas cerimônias como um processo de reciclagem de saber étnico. Os descendentes das famílias se reúnem: chefes, oradores, juízes, conselheiros, testemunhas, membros de famílias e uma multidão de vizinhos curiosos. Geralmente, são reuniões marcadas para elucidar e solucionar conflitos entre aldeias, clãs. As histórias são contadas por um orador que, de pé, narra as peripécias a serem discutidas com locuções adverbiais repetidas pela multidão de seus partidários; assim se reconstitui a história por etapas e que é concluída com provérbios ou entoação de cânticos. De tempo em tempo, o orador, como um animador de sua comunidade, esboça um movimento de dança que é imediatamente seguido por seus partidários.35
As assembleias possuem três elementos que constituem a participação ativa do povo: i) o diálogo - na homilia; ii) o canto em ritmo local ; iii) a dança, acompanhada por movimento cadenciado e acompanhado por gestos. Segundo Londi (apud MALDONADO, 1980, p.72): “de um lado a dança representa uma certa intensidade, intimidade e profundidade de sentimentos; de um outro, simboliza uma tomada de contato com o domínio do mistério”. O seu valor nas assembleias lhe é atribuído pela harmonia do ritmo dos instrumentos, dos cantos. Estas são revestidas de caráter festivo, pois a explosão da alegria, do transbordamento de emoção surge do encontro com o outro. Com essas reflexões, ressalta-se a importância da convivência em grupo para o africano e a africana.
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2.1.2.1 Análise de elementos presentes no movimento pentecostal assembleiano e na religiosidade africana
A partir de observação de campo, em diferentes dias de realização de cultos, percebeu- se a participação dos congoleses e angolanos durante toda a liturgia. Ora cantavam, ora gritavam, falavam no dialeto comum a esses dois países (Lingala), davam testemunhos de fé por meio da ação do Espírito Santo em suas vidas. Tais manifestações pareciam manter uma estreita relação entre a liturgia africana e a realizada no pentecostalismo assembleiano. Todas engendravam ações que favoreciam a perpetuação da cultura dessas pessoas e de sua forma de ser. Esse fato pode ser constatado no relato do Pastor Jubis, 36 um dos entrevistados:
Esta igreja é muito importante porque pra nós africanos a liturgia brasileira é diferente da liturgia africana. Primeiro, o povo africano é um povo que passou por tempos difíceis. Mesmo assim, nunca deixou de ser alegre. Isso não acontece nas igrejas brasileiras. Nós falamos que o culto brasileiro é um pouco frio. Nós gostamos de cantar, dançar. Isso nos ajuda a esquecer as coisas ruins que passamos na nossa terra (entrevista realizada em 10/06/11).
Tanto o pentecostalismo quanto a religiosidade africana apresentam elementos que contribuem para que possam ocorrer, com maior possibilidade, fenômenos oriundos de circunstâncias emocionais e religiosas, por haver uma imbricada associação com aspectos socioculturais, econômicos que determinam a forma de os sujeitos vivenciarem a espiritualidade. Pastor Jubis, no relato acima, expõe fatores como: demandas comuns a um determinado ethos sociocultural e religioso - “esta igreja é muito importante porque pra nós africanos [...]”; a ausência de uma religiosidade institucional homogênea em sua composição - “[...] a liturgia brasileira é diferente da liturgia africana”; a experiência religiosa estar relacionada ao campo da subjetividade – “nós gostamos de cantar, dançar. Isso nos ajuda a esquecer as coisas ruins [...]”.
Ao se tratar da religião sob o ponto de vista sociocultural e emocional, abre-se uma gama de possibilidades de compreensão desse campo e suas representações. Estas possuem um caráter social que objetiva certa consciência do sujeito sobre si mesmo e do mundo que o circunda, possibilitando uma identidade coletiva.
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Pastor Jubis Otshunga Kitambala é congolês e pastor ajudante do Campo Missionário Congoangolano da Assembleia de Deus (Igreja dos africanos).
De acordo com Figueiredo (2006, p.100), a ideologia religiosa fornece subsídios aos indivíduos para uma ação objetiva e não somente um enriquecimento espiritual. Ou seja, proporciona ao individuo a possibilidade de se sentir mais fortalecido para vencer batalhas e impasses do dia a dia. Tal como no relato do pastor Leonardo Laza:
É um confronto de dois poderes. Na maioria dos estados,a feitiçaria é muito grande e o pentecostalismo vem crescendo,inibindo o poder da bruxaria,aí que fica mais forte. É por isso que um pastor africano sem dons, não consegue ter trabalho na África. Morre rapidinho. Perde família, perde esposa, perde tudo. A bruxaria é tanta que você tem quer ser um cara espiritualizado.37
Por sua própria natureza, as religiões engendram, por meio de símbolos, a noção de forças superiores que se instauram na vida do indivíduo, devendo ser passíveis de controle por intermédio de ritos. O local onde surge essa força superior é no próprio culto ou, no caso do presente estudo, nas assembleias africanas, como foi citado.
Em seguida, será realizada uma análise comparativa de alguns elementos comuns em ambas as estruturas religiosas.
No pentecostalismo assembleiano, a palavra é dotada de significado, de força, de reordenamento do grupo, da expressão de fé que resulta do carisma de seu fundador. Na religião africana, a palavra é força vital, expressão de energia que perpassa pela vida como um todo, como um muntu que repete o sentido de seu ethos sociocultural e religioso, a ser transmitida num passado-presente continuum; é a garantia da manutenção de sua existência sem a perda de sua identidade cultural: “Cada ritmo do batuque significa o nome de minha família. É igual ao código Morse. Se estou na floresta e faço um som, uma outra pessoa vai saber que é o filho do fulano da família X que esta se comunicando” (entrevista com jovem congolês de 20 anos de idade em 10/04/11). Esse legado é passado de geração a geração.
Na AD, a música tem expressão de liberdade, institucionalizada através de dogmas, doutrinas, valores e preceitos que a legitimam como tal. De certa maneira, possibilita, tal como na “assembleia” dos africanos, a presença da palabre - a participação ativa dos crentes.
Na AD é comum a prática do exorcismo através de sessões denominadas intercessórias onde a oração, os gritos, a louvação a Deus são evocados com o propósito de salvação das
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Depoimento dado pelo pastor Leonardo Laza Ndosi ao ser perguntado sobre as motivações do crescimento do pentecostalismo na África, em entrevista realizada em 10abr.2011.
almas que precisam ser resgatadas para Deus, por meio da ação do Espírito Santo. Na religiosidade africana, existem sessões de exorcismo de cura, encantamentos curativos, casamento, funerais e afastamento por luto, cerimônias de orações propiciatórias no cemitério, festa de intronização, que representam elemento vital e sagrado e que se desenvolvem em ambientes dançantes.
O uso do corpo, a musicalidade, os remete a lembranças que os mantêm ligados a uma tradição religiosa africana, a qual fora introduzida no pentecostalismo. Por esta razão, percebemos que o pentecostalismo possui uma liturgia que se assemelha a aspectos da cultura negra no Brasil. Nesse sentido, vimos que a África, como afirma Oliveira (2004, p.71), “nunca saiu de um negro, nem pode ser dissociada da negritude”. Negritude que traduz a força dos antepassados e que remete à resistência na busca pela liberdade.
Ao se fazer uma análise comparativa dos cultos pentecostais com a religiosidade africana, é notável que em ambos existam fenômenos que se aproximem, como: a cura, o exorcismo, o êxtase, a dança, onde o corpo torna-se elemento central de manifestações “espirituais” e/ou emocionais. Por isso, o culto é visto como lugar de festa, de possíveis rupturas de situações vistas como algo a ser combatido, fonte de considerações a seguir.