CONTÁBEIS
DESEMPENHO ECONÔMICO-FINANCEIRO DAS INDÚSTRIAS CALÇADISTAS DE CAPITAL ABERTO
2.1 Aspectos gerais do setor calçadista brasileiro
No ano de 2010, segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), o setor calçadista brasileiro era composto por aproximadamente 8,2 mil indústrias, as quais geravam em torno de 348,7 mil empregos. A produção era de 893,9 milhões de pares, dos quais 143,0 milhões eram destinados para exportação.
O Brasil está organizado em polos produtores espalhados em diversos estados.
Conforme Cury (2011), além do Rio Grande do Sul e da cidade de Franca, no interior de São Paulo, que concentravam a maior produção de calçados do Brasil, vinham ganhando destaque no mercado estados como Ceará, Bahia e Pernambuco.
Nem mesmo a desvalorização cambial e a concorrência asiática evitaram a recuperação do setor calçadista brasileiro em 2010. Incentivadas pelo aquecimento do mercado interno, as vendas de calçados apresentaram o melhor resultado da década e colaboraram para a retomada do crescimento do ramo (CURY, 2011).
Em 2011, o Brasil era o terceiro maior produtor de calçados em nível mundial e o oitavo maior exportador até 2010 (ABICALÇADOS, 2012). Em 2010, do total de 860 milhões de pares de calçados produzidos, foram exportados em torno de 140 milhões (CURY, 2011). A indústria brasileira de calçados apresentou resultados de exportação que superavam a conta de um bilhão de dólares ao ano. Todavia, a valorização da moeda nacional, a concorrência dos países asiáticos e a crise financeira internacional, acabaram prejudicando os resultados dos produtos brasileiros no mercado internacional. As exportações de calçados brasileiros, em 2011, reduziram em 12,8%
no valor e 8,4% na quantidade em relação ao ano anterior. Foi o pior resultado obtido desde a década de 90 (ABICALÇADOS, 2012).
Além da queda nas exportações, houve um aumento na importação de calçados no Brasil. Como o país possuía capacidade produtiva e tecnologia capazes de atender completamente a demanda nacional, a entrada de produtos similares a preços bem abaixo dos praticados no mercado, poderia acabar desencadeando um processo de desindustrialização do setor. Verificou-se ainda que os indicadores de volume e receita de vendas no comércio varejista cresceram 3,6% e 11,8% em 2011, respectivamente. Já a produção nacional reduziu 8,4%, parte pela redução das vendas no mercado externo e parte pela penetração das importações no consumo interno aparente (ABICALÇADOS, 2012).
A performance do setor em 2012 foi amparada pelo segmento de calçados de plástico e borrachas, basicamente chinelos e sandálias, que não sofriam tanta
ameaça dos produtos importados, eram produzidos em grande escala e no qual a mão de obra não era tão intensiva (VALOR ECONÔMICO, 2013).
Em 2013, o mercado interno exibiu uma desaceleração no crescimento, fechando o ano com expansão de 2% e movimentando cerca de R$ 46 bilhões (ARAÚJO, 2014).
Em 2014, o Brasil seguia como o quarto maior consumidor de calçados no mundo. Todavia, apresentou uma redução de 4,9% do volume de pares consumidos no ano. Esse movimento mostrava que o mercado já dava sinais da crise que foi acentuada no ano seguinte (ABICALÇADOS, 2016). A demanda de exportação também caiu, ao longo de 2014, o que representou uma redução de 3,9% comparado ao ano anterior. Na época, Heitor Klein, presidente da Abicalçados, avaliou que o cenário era decorrente dos problemas ocorridos com os embarques para a Argentina – segundo principal mercado das indústrias brasileiras – somados aos problemas recorrentes do Custo Brasil, às bruscas oscilações cambiais e à instabilidade política e econômica nos principais mercados (COMEX DO BRASIL, 2014).
A expectativa de Klein, de que haveria crescimento nos embarques em 2015 (COMEX DO BRASIL, 2014) não se concretizou. Em 2015, a retração nas exportações foi de 10% em relação a 2014, o que representou US$ 106,8 milhões a menos.
Com queda em todos os indicadores de performance, o ano de 2015 foi um teste à sobrevivência do setor calçadista. O volume do varejo apresentou redução de 8,6% e as exportações redução de 10,0% (ABICALÇADOS, 2016).
Em 2016, o desempenho negativo da economia brasileira, o alto endividamento assumido pelo consumidor e a inflação fizeram com que a compra de calçados ficasse, mais uma vez, em segundo plano, fato esse que refletiu negativamente na atividade. No primeiro semestre do ano, o volume do varejo de calçados caiu 11%, assim como a produção do segmento que, no mesmo período, teve uma queda de 4,6%. Inclusive as exportações de calçados, amparadas na expectativa de que a valorização do dólar frente ao real as beneficiasse, tiveram uma redução de 3% no primeiro semestre de 2016, comparado com o mesmo período do ano anterior. De acordo com o Presidente da Abicalçados, os motivos seguiam os mesmos, reforçados pelas incertezas do mercado marcadas pelo processo de impeachment pelo qual passou o país (ABICALÇADOS, 2016).
De janeiro a outubro de 2016 foram criadas 4 mil novas vagas de emprego. Só em agosto, foram exportados 10 milhões de pares de calçados, um faturamento 27%
maior que o obtido em agosto de 2015. Para Heitor Klein, presidente da Abicalçados, havia claros sinais de que o pior momento havia passado (G1, 2016).
O parque calçadista brasileiro, segundo a Abicalçados (2017), fechou 2016 com cerca de 7,7 mil empresas, gerando mais de 300 mil postos de trabalho diretos.
Produziu 944 milhões de pares de calçados, dos quais exportou 126 milhões de pares para mais de 150 países. O setor atualmente possui quatro empresas listadas na B3: Alpargatas S.A., Cambuci S.A., Grendene S.A. e Vulcabras/Azaleia S.A..
2.1.1 Alpargatas S.A.
Fundada em 3 de abril de 1907, a Alpargatas S.A. está sediada em São Paulo, possuindo treze unidades fabris no Brasil, sendo cinco fábricas e oito satélites. Possui operações internacionais próprias com sede em Buenos Aires, Nova York, Madri,
Natalia Steinhaus Lima, Daniel Wartchow
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Paris, Londres e Bolonha. Na Argentina, a produção é realizada em oito fábricas distribuídas pelo país. Possui, ainda, forte presença no varejo, com 698 lojas em todo o mundo. Atualmente a empresa é detentora das marcas Havaianas, Dupé, Topper, Sete Léguas, Meggashop e Osklen, além de detentora da licença de fabricação e distribuição da Mizuno no Brasil.
Controlada pela J&F Investimentos S.A., maior grupo econômico privado do Brasil, pertence ao grupo de empresas Nível 1 de Governança Corporativa da B3, privilegiando a transparência na prestação de contas (ALPARGATAS, 2013).
2.1.2 Cambuci S.A.
Fundada em São Paulo em 1945, a Cambuci S.A. é uma multinacional 100%
brasileira que está presente em 14 países, dentre eles Argentina, Chile, Japão e Espanha. É gestora das marcas de artigos esportivos Penalty e Stadium, gerando, só no país, aproximadamente 3 mil empregos diretos.
No Brasil, possui uma unidade fabril em Itabuna, na Bahia, onde fabrica bolas, e outra unidade em Itajuípe, também na Bahia, onde são produzidas camisas, calções e meias das marcas Penalty. Possui, também, uma terceira fábrica na Paraíba. No exterior, conta com uma fábrica no Paraguai, a qual produz artigos de confecção e calçados, e outra na Argentina (CAMBUCI S.A., 2017).
2.1.3 Grendene S.A.
Fundada em Farroupilha, Rio Grande do Sul, em 1971, a Grendene S.A.
comercializa seus produtos para o mercado interno e externo, emprega mais de 24 mil funcionários e possui mais de 50 marcas. Conta com seis fábricas, sendo duas no Rio Grande do Sul, três no Ceará e uma na Bahia, além de duas lojas exclusivas da marca Melissa, uma em São Paulo e outra em Nova York (EUA). A Companhia produz calçados com as marcas Melissa, Grendha, Zaxy, Rider, Cartago, Ipanema, Grendene Kids e Zizou (GRENDENE S.A., 2017).
2.1.4 Vulcabras/Azaleia S.A
Fundada em 1952, a Vulcabras/Azaleia S.A. emprega mais de 13 mil colaboradores e conta com cinco unidades distribuídas pelo país, sendo três unidades produtivas (Ceará, Bahia e Sergipe), um centro de desenvolvimento no Rio Grande do Sul e um centro administrativo em São Paulo. Possui, também, duas filiais/centros de distribuição no Peru e na Colômbia.
A comercialização de seus produtos é feita por intermédio de representantes comerciais, distribuidores e clientes diretos em mais de 30 países, alcançando mais de 15 mil pontos de venda no mercado nacional e 3 mil no exterior. Atualmente, a empresa é detentora das marcas Olympikus, OLK, Botas Vulcabras, Azaleia, Dijean e Opanka (VULCABRAS/AZALEIA S.A., 2017).