4.1 ESTRUTURA E ORGANIZAÇÃO DO APL CALÇADISTA DE CAMPINA
4.1.2 Aspectos Institucionais do APL calçadista
Conforme já mencionado, o arranjo produtor de calçados possui uma ampla variedade de instituições que dão suporte, de modo variado, às empresas produtoras. As formas de apoiar as empresas vão desde consultorias em gestão da produção à organização, ao incentivo à participação em feiras e rodadas de negócios no setor de calçados. Dentre as instituições que participam do APL de calçados da Paraíba, além das empresas produtoras, pode-se citar o CTCC/SENAI, SENAC, SEBRAE, UFPB, UFCG e UEPB.
Embora esse conjunto de instituições seja apontado como instituições de apoio ao APL, como resultado da presente pesquisa nem todas foram citadas, como se pode conferir na tabela 3.
Tabela 3 - Relacionamento interinstitucional das empresas do APL Instituição Capacitação de empregados (Nº de empresas que utilizam) Capacitação gerencial (Nº de empresas que utilizam) Recursos Produtivos (Nº de empresas que utilizam) Divulgação (Nº empresas que utilizam) Apoio (Nº de empresas que utilizam) CTCC/SENAI 5 4 1 1 4 SENAC 0 0 0 0 0 SEBRAE 2 3 1 3 4 UFPB 0 0 0 0 0 UFCG 0 0 0 0 1 UEPB 0 0 0 0 0
Fonte: Pesquisa direta
Como é possível perceber na tabela 3, o uso intenso das instituições de apoio ao APL é feito para fins de capacitação de empregados e apoio. Independente do tipo de relacionamento das empresas com as instituições, o SENAI e o SEBRAE são as que mantém maior proximidade com as empresas. No caso do SEBRAE, há um projeto voltado especificamente para o atendimento das necessidades das empresas do APL, e isso justifica o
maior contato com estas. Salienta-se ainda que, segundo as empresas pesquisadas, o apoio está relacionado ao incentivo à participação de feiras, rodadas de negócio, entre outros.
Ao voltar a atenção para a interação empresa-instituição de apoio, é possível visualizar que 5 empresas buscam o SENAI para capacitação de empregados e 2 indicaram buscar o SEBRAE, com tal finalidade. Esse fato aponta para uma característica do APL, que será melhor discutida em seção posterior, que é a baixa busca da qualificação dos empregados. Segundo Andrade (2011), essa característica do APL está ligada à concepção dos empresários de que isso significa uma perda, um gasto, de tempo/dinheiro sem retornos significativos.
Dentre as ações demandadas pelas empresas produtoras de calçados, por parte das instituições de apoio, está a realização do planejamento da capacidade, que se traduz em planos de negócio. Os planos de negócio além de facilitar o acesso ao crédito, sendo requisitado pelas instituições financeiras, servem de instrução aos empresários sobre suas empresas.
Mantendo o foco na interação interinstitucional, as empresas foram abordadas sobre como se relacionam entre si. Sete categorias foram propostas: a empresa enquanto cliente, a empresa enquanto fornecedor troca de experiências com outras empresas, compras conjuntas realizadas por empresas, participação em feiras e transferências de competências (como concepção de novos produtos e processos, inserção/absorção de novas tecnologias, etc.) como mostra a tabela 4. As alternativas colocadas para os respondentes não são mutuamente excludentes, podendo uma empresa se classificar como fornecedora e cliente, e ainda realizar compras conjuntas com outras empresas, concomitantemente, por exemplo.
Tabela 4 - Tipos de relacionamentos interempresariais Cliente Fornecedor experiências Trocas de conjuntas Compras
Participação conjunta em feiras Transferência de competências Outros (Troca de Matéria-Prima) 6 5 1 5 1 1
Fonte: pesquisa direta.
É visível, na tabela 4, que cerca de metade das empresas pesquisadas mantêm relação fornecedor/cliente entre si, tendo, ainda, uma empresa declarado manter relação de troca de matéria-prima. Dentre as empresas que mantêm relação de fornecimento/compra de matéria prima, uma alegou só o fazer quando há necessidade emergente de matéria-prima em falta.
Ademais, um terço das empresas mantém relação de troca de experiência e participação conjunta em feiras.
Desse modo, se as empresas não têm nos produtores locais suas fontes de matéria- prima, a aquisição de matéria-prima é feita com fornecedores de outras regiões, o que destina a essas localidades os recursos financeiros devotados ao suprimento da cadeia produtiva do APL.
Como discutido no capítulo 2, a priorização de fornecedores de outras regiões não fecha o ciclo de agregação de valor para os produtos locais. Por outro lado, ao priorizar fornecedores locais, além de reservar a uma esfera local a agregação de valor aos produtos da cadeia produtiva, é estreitado o laço entre os produtores da referida cadeia, bem como é promovida a evolução das empresas, de modo geral, uma vez que essas aprendem juntas e se adéquam às exigências impostas pelas empresas à jusante da cadeia produtiva.
No que toca à interação das empresas do APL como cliente-fornecedor, os resultados apontam para a existência de relação incipiente das empresas do APL com os fornecedores, o que corrobora com Alves (2005).
Isso denota fraca troca de informações e conhecimento entre os membros da cadeia produtiva de calçados, uma vez que os fornecedores podem ser vetores de transmissão de informações e conhecimentos. Talvez esse fato seja uma possível racionalização do motivo de apenas um terço das empresas pesquisadas ter declarado manter relações de troca de experiência. Andrade (2011) remata que, em sua pesquisa, os índices de geração de conhecimento do APL alcançaram níveis de alerta para a baixa interação/aprendizagem entre os participantes do mesmo arranjo.
Quanto ao relacionamento de incumbência de competências a outros membros do arranjo, o baixo número de empresas que possui esse tipo de relacionamento (apenas uma empresa) é possivelmente explicado pelo fato de essa natureza de relacionamento ser mais comum entre as empresas a as instituições de apoio. Nesse aspecto, Andrade (2011) aponta que há considerável nível de dependência das empresas em relação às instituições que apóiam o APL, sobretudo o CTCC, no que toca à concepção de novos produtos.
Um fator relevante para a análise de um APL é a observação do destino dos seus produtos. No caso das empresas pesquisadas, a produção tem cerca de metade do seu montante destinada ao atendimento do mercado consumidor regional nordestino e a outra metade destinada ao atendimento da demanda das demais regiões do país. Do montante total da produção, apenas cerca de 10% é voltado ao atendimento do mercado paraibano.
Cabe, ainda, salientar que, com exceção da região nordeste que, incluindo o mercado local, tem a comercialização bem dividida entre consumidor final e atacadistas/varejistas, o destino dos produtos é predominantemente direcionado para atacadistas/varejistas. Ou seja, a comercialização dos produtos do APL só se dá diretamente com o consumidor na esfera local.
Nenhum produtor, dos abordados nessa pesquisa, reportou o envio de seus produtos para o exterior. Embora esse achado possa indicar um contra-senso em relação à revisão teórica empreendida no capítulo 2 da presente pesquisa, há de se levar em consideração que naquele momento abordava-se o setor calçadista, como um todo, e aqui apresenta-se o resultado da pesquisa realizada estritamente com empresas componentes do Arranjo Produtivo Local. Ademais, não compôs a amostra da presente pesquisa nenhuma empresa de médio ou grande porte, que poderiam influenciar significativamente os indicadores de exportação, uma vez que, historicamente, aquelas empresas estão mais propensas à exportação.
Embora o destino da produção a outras regiões traga benefícios relativos á visibilidade externa do APL, o comércio de suas mercadorias na esfera local também pode representar vantagem competitiva, uma vez que a endogeneidade capacita a empresa a obter melhor desempenho na esfera local, conferindo-lhe melhores condições de se adequar ás exigências do consumidor local, seja este o cliente final ou outras empresas. Desse modo, os atores do APL vão se configurando de modo a atender as demandas dos demais atores locais do arranjo, independente da natureza de suas ações.
Sem dúvida, as instituições financeiras colocam-se como fundamentais atores para o fortalecimento de um arranjo local, pois são importantes fomentadores do desenvolvimento dos APL, por disponibilizar recursos financeiros às empresas componentes do arranjo. Disponibilidade de recursos financeiros torna-se muito importante principalmente por os APLs serem compostos majoritariamente por MPEs, que, de modo geral, dispõem de restrito capital de giro. Por outro lado, em se tratando de empresas desse escopo, é comum a queixa de carência de linhas de crédito específicas, que facilitem o acesso ao crédito. Isso figura como um dos achados de Alves (2005): falta de crédito e incentivos fiscais às MPEs.
Nesse aspecto, na corrente pesquisa foi constatado uma taxa de 20% de empresas (três empresas) que obtiveram algum tipo de financiamento nos últimos 5 anos. Dessas três empresas, uma utilizou o financiamento para aquisição de matéria-prima, outra para fins de modernização da empresa e a outra obteve crédito para isenção de impostos. Há, nesse resultado, um indicativo que as empresas do APL podem estar atuando com restrições
financeiras, levando em conta as características das empresas de micro e pequeno porte, acima reportadas.
Dentre as três finalidades da aquisição de crédito, acima descritas, apenas o investimento em modernização da empresa denota um esforço de inovação, nesse caso ao nível de processo. Esse resultado corrobora com Albuquerque Neto e Silva (2008), uma vez que estes constataram que há poucas ações inovativas no APL em apreço, sendo escassos os investimentos em inovação, por parte dos empresários.
A falta de crédito e o baixo investimento em inovação para o APL são, claramente, fatos danosos ao desenvolvimento do arranjo, reduzindo suas perspectivas de expansão, e até mesmo de sobrevivência, sobretudo considerando-se o atual contexto global, discutido anteriormente. Ações coletivas, envolvendo todos os atores do APL, inclusive as empresas, são requeridas para a superação dessa situação.
Com a finalidade de averiguar o senso de coletividade e a percepção de benefícios da atuação em conjunto, por parte dos gestores das empresas componentes do APL de calçados da Paraíba, foi questionado se estes achavam que a associação conjunta contribui para o aumento da competitividade. Contactou-se que 93% dos respondentes têm convicção de que a associação conjunta é benéfica às empresas, ao passo que apenas uma respondente apontou não haver benefício na associação conjunta.
Isso indica que, embora as empresas produtoras de calçados mantenham competição entre si, estas percebem que, cooperando entre si, podem obter melhor competitividade para o setor. Esse achado indica que os produtores têm internalizado o conceito de coopetição, outrora discutido na revisão da literatura.
No entanto, embora as empresas produtoras de calçados do APL enxerguem no estabelecimento de parcerias uma relação direta com a aquisição de competitividade, de fato poucas lançam mão de parcerias, de modo a obter apoio estratégico e competitivo. Nesse quesito sobressaem-se as parcerias com as instituições de ensino/pesquisa e fornecedores às parcerias enlaçadas com clientes e concorrentes.
Nas seções seguintes são analisadas as dimensões relativas à gestão dos recursos produtivos e métodos de metrificação da produtividade, bem como os indicadores utilizados pelas empresas componentes do APL.
4.2 GESTÃO DOS RECURSOS DE PRODUÇÃO UTILIZADOS PELAS EMPRESAS