O projeto corporativista e o aprofundamento da sindicalização oficial
1.2. Assembleia Nacional Constituinte e a “representação profissional”
A sindicalização oficial seria novamente impulsionada com o estabelecimento das normas de participação na Assembleia Nacional Constituinte. Esta seria composta por deputados eleitos pelo voto popular e por delegados classistas representantes dos sindicatos oficiais de empregadores e empregados. A denominada “representação profissional” havia sido formulada pelos tenentes em seu propósito de aceleração do modelo institucional corporativista, inclusive já estando presente no Código Eleitoral instituído em fevereiro de 1932.
A concepção de “representação profissional” fora proposta em contraposição à percepção ilusória de cidadania, e objetivava assim, enquanto forma de representação real não-partidária, superar os limites impostos pelo simples voto direto e secreto. No entanto, esta forma de representação apenas se realizaria por meio da sindicalização oficial, que também adquiriria a incumbência de fomentar a educação popular ao redor de suas sedes e estreitar cada vez mais as formas autônomas de organização dos trabalhadores. O Decreto nº 22.696, promulgado em 11 de maio de 1933, se distinguia do projeto inicial dos tenentes, mas definia que os trabalhadores e empresários pertencentes aos sindicatos oficiais poderiam eleger um representante por entidade para composição do colégio eleitoral.
Esta nova via de “representação profissional” permitia uma atuação mais objetiva dos delegados classistas na composição da Assembleia Constituinte. O empresariado, porém, teve simplificada a burocracia de legalização de suas instituições, por exemplo, com a possibilidade de formação de sindicatos estaduais e de sindicalização de pessoas jurídicas, usufruindo assim de uma livre autonomia na decisão de seus representantes. Os trabalhadores, por sua vez, tiveram esta decisão completamente subordinada ao domínio estatal, além da vasta sindicalização promovida pelo Ministério do Trabalho, o governo chegou a intervir na seleção dos representantes enviados à preparação da nova Constituição.
Em essência, os apoiadores da concepção de “representação profissional” aspiravam constituir uma frente política significativa de respaldo ao Governo Provisório, que permitisse um enfrentamento à força política das oligarquias regionais. O projeto corporativista ganhava expressividade, sendo incorporado até mesmo pelos trabalhadores,
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de modo que os representantes do operariado mantinham posicionamentos bastante próximos aos dos representantes patronais ou ao Estado. Todavia, a simples participação da classe trabalhadora na Assembleia Nacional Constituinte apenas foi possível pelos representantes favoráveis à orientação corporativista definida pelo governo.
A manutenção das associações livres havia assim se tornado inviável, tanto em virtude da concessão dos direitos sociais e trabalhistas mediada pela premissa do sindicalismo oficial, como pela pressão exercida para decisão da “representação profissional” na Assembleia Constituinte. Todo movimento operário se reorientou no sentido de compreender a necessidade de consolidar a aquisição dos direitos trabalhistas concedidos pelo Estado, com exceção das correntes sindicais anarquistas. A organização trabalhista não se esqueceu das restrições que fulguravam com o sindicalismo oficial, mas sob esta contingência optaram pela expansão de seus direitos e de suas garantias legais, participando da Assembleia Nacional Constituinte e das Juntas de Conciliação e Julgamento.
No âmbito do patronato industrial, Leopoldi (2000, p. 81) sublinha que o avanço do processo de sindicalização oficial ocorreu de forma bastante particular, tendo inclusive Roberto Simonsen encabeçado a ideia de manter paralelamente as associações privadas e o sindicato oficial sob uma mesma direção para cada setor da indústria, preocupando-se em assegurar a representatividade do segmento na contingência do Estado resolver extinguir as entidades registradas.
O que parecia uma estratégia defensiva num ambiente de incerteza sobre a política de sindicalização dos anos 30 tornou-se um poderoso instrumento do setor industrial, especialmente a partir dos anos 50. Mesmo quando o princípio da unidade sindical voltou a ser a norma orientadora da política de sindicalização (em 1939), os empresários lutaram obstinadamente para manter a sua dualidade de associações, em vigor até os nossos dias (LEOPOLDI, 2000, p. 81).
A sindicalização oficial das entidades representativas dos empregadores se aprofundaria com a Constituição de 1934, na qual seriam criadas comissões e institutos diversos para recebimento de reivindicações da classe patronal, conforme setor de atuação e registro ministerial, mas mantinha-se preservada a possibilidade de existência das associações livres.
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Em 18 de janeiro de 1934, por meio do Decreto nº 23.768, o governo legitimou a concessão de férias anuais de 15 dias aos trabalhadores que fossem registrados em entidades sindicais oficiais dos setores industriais, transportes aéreos e terrestres, comunicações e aos funcionários públicos. Esta deliberação estatal serviu novamente para impulsionar o processo de sindicalização oficial, tendo em vista que o direito de férias anuais consistia de uma antiga reivindicação da classe trabalhadora, tornando para a maior parte do proletariado desorganizado incoerente a organização pela associação livre e o combate à sindicalização oficial.
Entretanto, em 12 de julho de 1934, através do Decreto nº 24.694, logo antes da aprovação da nova Constituição Federal em 16 de julho de 1934, Vargas ratificou as diretrizes estabelecidas na lei de sindicalização de 1931, suprimindo de vez a autonomia e pluralidade sindical (que seria assegurada pelo Art. 120 da nova Constituição mediante regulação jurídica), incentivando ainda mais o sindicalismo oficial e aprofundando os aparelhos repressivos já presentes na lei sindical.
Conforme Moraes Filho (1978, pp. 226-7), o Decreto nº 24.694 suprimia a pluralidade sindical nas organizações trabalhistas, ponderando ainda que este decreto definia um limite de três sindicatos por categoria profissional e que, em decorrência da obrigatoriedade de reunião de um terço dos trabalhadores do segmento para formação de um sindicato, de fato apenas duas entidades oficiais poderiam ser constituídas pela impossibilidade de se alcançar uma “divisão ótima” de 33% de empregados; ademais, competia ao Ministério do Trabalho fornecer o registro legal das entidades, que poderia realizá-lo somente a um sindicato.
Estávamos em frente de uma imposição constitucional, que vinha alterar toda a sistemática seguida até então pelas autoridades administrativas, por força do 19.770. A mudança, contudo, não seria tão radical assim. Prudentemente, limitara o legislador o número de sindicatos para cada profissão, no máximo, a três. Não chegou, pois, o 24.694 a adotar a pluralidade sindical extremada e absoluta. Dificilmente poderiam existir mais de dois sindicatos para a mesma profissão, em cada localidade, por isso que se tornava necessário a incrível coincidência de todos três apresentarem o mesmo número de associados (MORAES FILHO, 1978, p. 227).
Esta medida foi arquitetada pela equipe liderada por Oliveira Vianna, pretendendo, além de retomar as disposições instituídas inicialmente pela lei de sindicalização de 1931,
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condicionar os sindicatos oficiais às funções de auxílio ao governo nas questões que lhe convinham e de exercer os deveres e direitos aplicados à categoria profissional em questão.
Como decorrência, o modelo exigia o sindicato único e sujeito ao controle estatal, uma vez que reconhecido como o representante de toda uma categoria profissional, o que excedia a seu corpo de associados. A pluralidade e a liberdade sindicais tornavam-se inviáveis nessa proposta, que se sustentava no monopólio da representação, tão essencial quanto a tutela estatal. Era exatamente a articulação dessas suas características – a unicidade e a tutela – que institucionaliza o novo tipo de arranjo associativo, tornando-o corporativismo democrático, isto é, tornando-o um instrumento crucial da nova democracia social e da organização do povo brasileiro (GOMES, 2012, p. 81).
De acordo com Oliveira (2002, p. 81), outro aspecto que merece notável destaque consiste da alteração de termos realizada por este decreto, todos com o objetivo de desconstruir a concepção classista dos sindicatos e canalizar as demandas dos órgãos de representação ao arranjo estatal corporativista. Seriam retirados da legislação os termos “classes patronais e classes operárias” e passariam a serem empregadas as palavras “empregados e empregadores”; o termo “sindicato” somente poderia ser utilizado para designar as entidades oficiais; os trabalhadores apenas poderiam se sindicalizar mediante à adesão da carteira profissional; e as categorias profissionais seriam definidas como “o exercício lícito, com fins econômicos, de toda a função ou mister”.
A nova medida intensificou os aparelhos de controle sindical ao exigir para cada sindicato oficial um “livro de registro”, em que seriam descritas diversas características acerca dos trabalhadores registrados; os demais mecanismos de controle que foram intensificados referiam-se à dinâmica das eleições sindicais e das assembleias gerais. Enquanto que os instrumentos de domínio jurídico, burocrático, ideológico e político foram preservados conforme a lei de sindicalização de 1931, as punições para as transgressões das normas ministeriais foram abrandadas, sendo punição máxima a suspensão de atividades sindicais por seis meses, o que não significava uma diminuição da repressão do Estado.
Na Constituição de 1934, os elementos de proteção social foram alçados ao patamar de “direito constitucional” (OLIVEIRA, 2002, pp. 83-4), dando início à era do conflito entre o direito formal e o direito real. Mesmo sem ocorrerem significativas mudanças na legislação, os direitos sociais que haviam sido legislados anteriormente foram transformados em constitucionais, tais como, as convenções coletivas de trabalho, a Justiça
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do Trabalho, o salário mínimo e a indenização pela demissão sem justa causa. O tratamento constitucional dos direitos trabalhistas ocupou-se preponderantemente das regras de regulação das relações de trabalho, de contratação, utilização e remuneração da mão-de- obra.
Mesmo com todas as sanções impostas aos delegados classistas dos trabalhadores, desde sua escolha à sua atuação dentro da Assembleia Constituinte, a vitória pela ascensão dos direitos sociais à Constituição de 1934 deve ser atribuída a estes representantes. Entretanto, esta conquista apenas foi possível com a ajuda de parlamentares vinculados ao Estado, considerando que somente os votos dos delegados sindicais dos trabalhadores seriam poucos para assimilação constitucional das emendas de proteção social. Os delegados classistas dos trabalhadores expuseram ainda uma emenda acerca do direito de greve, que, porém, foi amplamente repudiada pela frente formada por delegados sindicais do empresariado e de representantes do governo.
O direito de greve seria considerado conflitante com a existência da Justiça do Trabalho pelos delegados classistas dos empregadores e por parlamentares vinculados ao Governo Provisório. Por outro lado, os membros da oposição liberal ao governo argumentariam que o direito de greve seria perfeitamente condizente com as liberdades básicas do cidadão asseguradas pelo texto constitucional.
Ainda que de forma tímida e tentando associar a proteção legal ao trabalho com o controle estatal sobre as organizações de classe, não restava dúvida que aos olhos do conjunto das massas trabalhadoras, eles apareciam como aliados e pontos de apoio reais em sua luta pelo reconhecimento legal e pela vigência efetiva de alguns direitos sociais que durante longos anos lhes foram negados. E apareciam concretamente com seus aliados contra o patronato, cujos representantes perseveravam na tradicional oposição – agora velada – ao reconhecimento de quaisquer garantias para os assalariados (ALMEIDA, 1978, p. 212).
Para Almeida (1978, p. 212), enquanto o Estado buscava atrelar a concessão dos direitos sociais ao cumprimento da legislação trabalhista e conduzir o domínio sobre as entidades de classe, os trabalhadores tinham de reconhecer nos representantes do governo elementos de sustentação no esforço pela implementação real da proteção social no país. Ademais, também teriam de tê-los próximos o bastante no embate contra o patronato industrial e as oligarquias regionais, que tentariam, por sua vez, deslegitimar ou burlar a realização de todos os direitos sociais adquiridos pelos trabalhadores.
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Assim como a promulgação de toda legislação social e trabalhista, constituída desde o início da década de 1930, não correspondeu a sua implementação imediata e real, a assimilação dos direitos sociais pela Constituição Federal de 1934 não significou uma realização espontânea e assegurada de suas deliberações. O patronato industrial manteve sua prática de burlar a regulação legislada, tendo em vista a limitada capacidade das instituições encarregadas de fiscalizar a aplicação das leis trabalhistas. Desta forma, a classe trabalhadora somente teria reconhecido seus direitos, pelo Estado ou pelo empresariado, quando pudesse exercer significativa pressão organizada sobre estes setores.
Quadro Sintético 04
Decreto nº 23.768, de 18/01/1934 Limitação do direito de férias anuais de 15 dias aos empregados filiados aos sindicatos oficiais.
Decreto nº 24.694, de 12/07/1934
Reafirmação das definições da lei de sindicalização de 1931, além de restringir o direito à pluralidade e autonomia dos sindicatos que se estabelecera no Art. 120 da Constituição de 1934.