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2.2 HABILIDADES PARA O ESTUDO

2.2.1 A compreensão de habilidade na pesquisa

2.2.1.3 Atividade e temporalidade A atividade de estudo

Uma das características da personalidade é seu caráter ativo, já que sua formação e desenvolvimento ocorrem na atividade e na comunicação, sendo ela, por sua vez, reguladora da atividade. Essa afirmação leva a expressar a compreensão de atividade que se assume nesta tese, visando apresentar uma melhor relação com o conceito de habilidade, e, consequentemente, da organização do tempo como habilidade.

Para Leontiev (1989), a gênese e a transformação da personalidade ocorrem mediante condições sociais concretas. Em suas palavras, a atividade é:

A unidade molar não aditiva da vida real do sujeito corporal e material. Num sentido mais estreito, ou seja, no nível psicológico, essa unidade de vida é mediada pelo reflexo psíquico, cuja função real consiste em que este orienta o sujeito no mundo dos objetos. Em outras palavras, a atividade não é uma reação, assim como tão pouco um conjunto de reações, e sim um sistema que possui uma estrutura, passos internos e conversões, um desenvolvimento (LEONTIEV, 1989, p. 66, tradução nossa).

O conceito de atividade da personalidade pode ser considerado como uma generalização abstrata. A atividade constitui o processo de solução, pelo sujeito, de tarefas vitais impulsionadas por objetivos conscientes. A vida humana pode ser compreendida como um sistema de atividades, o que possibilita a assimilação de conteúdos de forma ideal e subjetiva.

A atividade humana não pode ser analisada fora do sistema de relações sociais, da atividade da sociedade. Na atividade humana, assimila-se a experiência humana historicamente produzida. É na atividade que tem lugar a transição do objeto em sua forma subjetiva, a imagem. A atividade é um processo que medeia a relação do homem (sujeito) com a realidade a ser transformada por ele (objeto). Essa relação é dialética, pois não ocorre apenas a transformação do objeto, mas também do sujeito. “O sujeito é uma fonte de atuação efetiva, uma fonte de atividade. A atividade é o modo de existência do sujeito, e ele não existe em qualquer outra forma que não seja a atividade” (REPKIN, 2014, p. 88). Fora das relações sociais, a atividade humana não existe, ou seja, a atividade de cada pessoa individualmente depende do lugar que esta ocupe na sociedade, das condições que tem e de como se formam as condições individuais (LEONTIEV, 1989).

A principal característica da atividade é seu conteúdo objetal, sendo assim, a expressão atividade sem objeto está isenta de todo sentido. Toda atividade tem um objeto material ou ideal da realidade objetiva. Esse objeto aparece, primeiro, independentemente do sujeito e, depois, como imagem psíquica, resultado da atividade realizada. O objeto da atividade se revela ao sujeito como resposta a uma ou outra de suas necessidades, ou seja, as necessidades estimulam a atividade e a dirigem por parte do sujeito, porém, elas somente são capazes de realizar essas funções na condição de que sejam objetivas. Somente o encontro da necessidade com o objeto que a satisfaz é que a torna capaz de orientar e regular a atividade

A atividade do sujeito sempre corresponde a alguma necessidade, que, por sua vez, apresenta duas características importantes: o caráter objetal (necessidade de algum objeto) e o caráter dinâmico (surgimento, transformações, desaparecimento e reprodução) (TALÍZINA, 2000). A atividade objetal é direcionada por um objetivo, que consiste na antecipação da atividade que está por realizar, e tem um motivo (necessidade objetivada), que pode ser tanto externo (perceptivo) como ideal (imaginativo), o qual impulsiona o sujeito a atingir o objetivo desejado.

A atividade humana, segundo a Teoria da Atividade de Leontiev (1989), apresenta uma estrutura invariante constituída de: o sujeito que executa a ação; o objeto, para o qual a ação do sujeito se dirige com o intuito de satisfazer uma necessidade, sendo transformado; o objetivo; o sistema de operações; a base orientadora da ação; os meios para realizar a ação; as condições de realização dessa ação; as circunstâncias, nas quais o sujeito adequa seus propósitos às condições ideais e age sobre o objeto; e o produto da atividade (NÚÑEZ; RAMALHO; OLIVEIRA, 2018). Segundo Leontiev (1989), a atividade se manifesta em três níveis: atividade, ação e operação.

Um dos componentes principais da atividade é a ação, que corresponde ao processo que se subordina à representação daquele resultado que terá de ser alcançado, ou seja, o processo subordinado a um objetivo consciente. As ações são organizadas em relação ao futuro que ainda está por vir, mas podem ser previstas pela psique humana, determinando, desse modo, as ações a serem realizadas no presente. As ações se realizam por meio de operações, e estas dependem das condições para o êxito do objetivo dado (LEONTIEV, 1989).

Na estrutura apresentada por Leontiev (1989), as atividades estão condicionadas aos motivos, as ações correspondem aos objetivos, e as operações estão vinculadas às condições. Esse autor destaca, ainda, que uma atividade pode ser transformada em uma ação de outra atividade, quando perde sua motivação, e, em contrapartida, uma ação pode se tornar uma atividade quando é motivada conscientemente pelo sujeito que a pratica. O mesmo acontece

com ação e operação, ou seja, a ação se transforma em operação quando é automatizada pelo sujeito, e a operação pode se transformar em ação, quando há a necessidade de o indivíduo realizá-la de forma consciente.

A atividade do sujeito está, intrinsecamente, relacionada à temporalidade, pois é influenciada pelo tempo necessário para a sua realização. Como aponta Bolotova (2006), em certas fases da atividade, a posição do sujeito pode mudar de acordo com o tempo necessário para organização delas. É importante que o sujeito, ao realizar determinada atividade, consiga calcular as forças necessárias para o tempo total de realização da atividade, inclusive considerando dificuldades imprevistas, surpresas, entre outros.

Analisando a relação entre os componentes da atividade e o fator tempo, Bolotova (2006) destaca que:

▪ os motivos da atividade estão sujeitos à dinâmica temporal, pois, como componente inicial da atividade, a motivação visa atingir uma meta-objetivo, ou seja, um fim. A capacidade de estabelecer, rapidamente, metas reais e ideais é uma condição necessária à vida humana. É importante que, no processo de formação do objetivo e das ideias sobre o programa da atividade futura, os processos de antecipação desempenhem um papel relevante, permitindo apresentar planos e ações que incluam os possíveis prazos limites, mínimos e máximos;

▪ a ação, como componente da atividade, é pensada considerando o tempo para sua realização. Da mesma forma, as operações também devem ser programadas de acordo com as condições temporais e devem ser registradas também como um esquema da ação. Nesse esquema, a ação é dividida em movimentos separados, sendo que, para cada um deles, são determinados: a base da informação, os sinais que a transmitem, os critérios para a correção dos movimentos, a sequência de tempo de execução e o método de conectar os movimentos individuais em ação. O caminho de vida de uma pessoa é desdobrado no tempo, ou seja, o indivíduo constrói perspectivas por meio da organização do seu tempo de vida, levando em consideração sua potencialização, sua aceleração, sua expansão e o seu valor de conteúdo significativo. Nessa abordagem, o sujeito integra seu tempo individual a um contínuo tempo social e histórico, organizando, desse modo, o tempo de sua vida e de suas atividades (BOLOTOVA, 2006).

Essa autora explicita que, na estrutura da atividade mental, se combinam elementos como velocidades, tempos e ritmos (orgânicos, mentais, motores, etc.), e a personalidade, como sujeito dessa atividade, regula o tempo de sua implementação, coordenando-a com o tempo de

seus processos mentais, seu estado, seu temperamento, sua idade, seus objetivos pessoais e seus programas.

A atividade humana é sempre realizada no tempo presente. Contudo, esse tempo deve ser organizado de maneira a observar os prazos de execução, ou seja, estabelecer a sequência temporal de operações, captar a taxa de atividade necessária ao cumprimento da meta e avaliar a velocidade de suas ações e sua conformidade com o tempo designado para a realização da atividade de estudo. Em outras palavras, é necessário que o sujeito tenha uma noção de tempo para poder perceber adequadamente os parâmetros temporais de suas próprias atividades (BOLOTOVA, 2006).

Considerando a formalidade desta seção da tese, torna-se importante discutir o significado do que se compreende como atividade para o estudo. Esse conceito, de natureza polissêmica, tem sido abordado na Escola Histórico-Cultural sob diferentes sistemas teóricos, tais como os de A. N. Leontiev, P. Ya. Galperin e N. F. Talízina, D. B. Elkonin, A. K. Márkova, V.V. Davidov, V. V. Repkin, T. V. Gabay, V. Ya. Liaudis, I. I. Iliasov, entre outros, todos no entorno das discussões gerais das relações que se estabelecem entre ensino, aprendizagem e desenvolvimento da personalidade, como explica Sidneva (2017).

Atendendo aos objetivos deste estudo, foca-se a atenção nas contribuições, especialmente, de N. F. Talízina sobre a atividade de estudo. Talízina (2000) considera o estudo como um determinado tipo de atividade, cujo produto é a assimilação, pelo estudante, de novos conhecimentos e hábitos. Para essa autora, cada tipo de atividade de estudo é, por sua vez, um sistema de ações unidas por um motivo, que, no conjunto, levam aos objetivos conscientes da atividade da qual faz parte. Dessa forma, na organização e implementação do processo de aprendizagem, as ações do estudante, adequadas ao conteúdo do conhecimento, são consideradas como a principal condição psicológica e pedagógica para a assimilação dos conteúdos escolares.

O estudo constitui uma atividade quando satisfaz a necessidade cognoscitiva, e, nesse caso, os conhecimentos, para o domínio ao qual se dirige a aprendizagem, participam como motivo, a partir do qual a necessidade cognoscitiva do aluno encontra sua realização objetal e, simultaneamente, como objetivo da atividade de estudo (TALÍZINA, 2000).

A atividade de estudo é polimotivacional, segundo Talízina (2000), e apenas alguns dos motivos que a impulsionam têm sentido pessoal, funcionando os outros como impulsos complementares. Os motivos da aprendizagem, segundo a autora, podem ser divididos em dois tipos: os escolares cognitivos, relacionados com o conteúdo e o processo de aprendizagem; e os sociais simples, referentes ao sistema de relações da vida do aluno.

Dando continuidade, essa autora tipifica os motivos da atividade de estudo em externos e internos. Os externos não se relacionam com os conhecimentos assimilados e a atividade realizada, servindo a aprendizagem como um meio de conseguir outros objetivos que não se referem à própria atividade de estudo. Na motivação interna, o interesse cognitivo, atrelado ao objeto dado, serve como motivo. Somente nesse caso, a atividade de aprendizagem satisfaz a necessidade cognitiva de maneira imediata.

Acrescenta ainda Fariñas (2007) que a atividade de estudo exige a elaboração de estratégias fundamentais de desenvolvimento por parte dos estudantes, mais relacionadas ao aprender a aprender do que à aprendizagem de conteúdo específicos, ou seja, a elaboração de um conhecimento generalizado proporciona um melhor desenvolvimento do aprendiz do que a aquisição de um conhecimento específico.

A atividade de estudo, como uma das atividades da personalidade dirigida à apropriação de conteúdos escolares, nas condições pedagogicamente organizadas, se realiza por um sistema de ações, de habilidades e de hábitos em estrita união com os aspectos afetivos que a impulsiona.

2.2.1.4 Habilidade como um tipo de atividade da personalidade. As