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Colégio Albert Sabin

4.3 O portfólio do 1 o ano D

4.3.1 Atividade1: Horta

A atividade Horta foi escolhida pelas crianças, pois, segundo os critérios que estabeleceram com a professora, a partir do início da produção do portfólio,

registrariam no “cadernão” (termo usado pelas crianças) aquilo que mais gostaram de fazer no colégio, algo que aprenderam ou o que os surpreenderam.

No caso, essa atividade foi relevante para eles devido aos cuidados que tiveram com os canteiros, a observação e o registro do crescimento das plantas, mas principalmente pelo fato de terem colhido as alfaces e terem as levado para casa, para dividirem com seus familiares.

A seguir, a página dessa atividade será analisada como um enunciado concreto a partir de sua composição gráfica e de seus elementos constitutivos.

Figura 8: Atividade Horta produzida em 2010

Como a página é percebida pelo leitor como um todo, um conjunto, ela será considerada como uma unidade verbo-visual produtora de sentido, formada por oito fotografias e um texto escrito pelas crianças, em forma de lista, intitulado “Na horta

tem...”. As fotos foram escolhidas pelas crianças e coladas pela professora, bem

Do lado superior esquerdo, foram coladas duas fotos em diagonal sobrepostas; mais abaixo, ainda no canto esquerdo, mais duas fotos sobrepostas, mas agora na posição horizontal. Centralizada no alto, aparece uma foto da professora com algumas crianças e, logo abaixo, o texto, em forma de lista, escrito pelas crianças, em papel sulfite, recortado com uma tesoura de corte rebuscado. Acima, no canto direito, nota-se uma foto novamente na posição diagonal, depois, mais abaixo, porém centralizada, uma foto em posição vertical e, no canto inferior esquerdo, uma foto na horizontal, mostrando todo o grupo.

Considerando, portanto, esses elementos que constituem a página, o que se observa é que existe um enquadramento fotográfico preocupado em mostrar o “fazer das crianças”, pois ao invés de ter a horta como plano de fundo, a professora ou a estagiária38 preocupam-se em retratar as ações dos alunos nesse espaço.

A fotografia que está no canto superior esquerdo da página mostra as crianças mexendo nos canteiros e uma delas mostrando uma erva daninha que, supostamente, acabou de retirar dali. Nesse enquadramento, o ambiente ocupa uma menor parte do quadro, dividindo, assim, o espaço com o sujeito. O mesmo ocorre na foto que está imediatamente abaixo, entretanto, o fato de terem sido coladas na posição diagonal, sugerem uma mudança no foco de visão, provocando uma suave inclinação da cabeça do leitor.

Por outro lado, essa escolha não foi só da professora, na verdade, como as crianças escolheram um determinado número de fotos e gostariam de tê-las na página, essa foi uma alternativa encontrada pelo grupo para garantir todos os elementos. Dessa maneira, o problema foi compartilhado e negociado com as crianças.

A aproximação de foco, que ocorre nas duas fotos localizadas no canto inferior esquerdo da página, revela o que está acontecendo na cena, em primeiro plano, ou seja, o jardineiro, nesse momento, retira as alfaces dos canteiros, sem destruí-las e o foco, ainda mais aproximado, traz a mão do jardineiro, como detalhamento e valorização dessa ação. Sabe-se que as crianças estão observando a cena, pelo fato de seus pés e uma parte das pernas aparecerem no canto superior da foto.

38

Em cada turma de alunos da educação infantil há, em sala de aula, uma estagiária remunerada, aluna do curso de Pedagogia, que atua como auxiliar de classe.

O mesmo ocorre com a foto centralizada na parte superior da folha. A professora está rodeada de alunos, mostrando-lhes algo no canteiro e todos estão atentos à sua explicação.

Outro detalhe que chama a atenção é o fato de quase todas as fotos terem as mesmas dimensões, o que muda são as suas posições, pois cinco foram tiradas na horizontal e duas na vertical. Dessa forma, o tamanho ressalta que os elementos da página assumem igual importância, a não ser a foto que está no canto inferior direito, pois ela é maior e traz toda a classe, mostrando o resultado de seu trabalho, a colheita da alface. Nessa foto, portanto, a marca apreciativa instaurada demonstra que o grupo tem maior importância, como força de trabalho coletivo, do que de ações individuais.

O texto escrito, em forma de lista, tem também características muito particulares, uma vez que materializa a marca da criança nessa produção.

Figura 9: Texto em forma de lista produzido pelas crianças

As crianças escolheram escrever o que tinha na horta do colégio, já que além da alface que plantaram, descobriram outras plantas, inclusive algumas raízes que

também são comestíveis. Uma aluna foi eleita a escriba do grupo que, por sua vez, ditava as palavras a ela.

Nessa faixa etária (5 e 6 anos), as crianças estão em processo de alfabetização, assim, algumas convenções linguísticas ainda não foram percebidas, como a segmentação de palavras em uma frase “NAORTATEM...” ou em relação às normas ortográficas, no caso, o uso do h, do til, do hífen e do L/U: ORTA, ORTELA, COUVEFLOR, SAUSINHA. Isso marca que o enunciador materializa a ideia de “erro” como algo positivo, pois valoriza a produção e o conhecimento construído pela criança.

Sob essa perspectiva, a geração de sentido nessa página leva a uma característica dinâmica e não estática do objeto da atividade e suas múltiplas faces constituídas no processo de sua produção, ou seja, o portfólio assume um caráter de instrumento-e-resultado, uma vez que se transforma e se reinventa no processo de produção.

Essa atividade se aproxima mais do modelo de Atividade criativa, pois permite aos sujeitos o enfrentamento de novas situações e de novas necessidades de forma inventiva, gerando novos produtos que criam novas necessidades para as quais os sujeitos precisam indicar novas soluções. Entretanto, é apenas uma aproximação, porque, apesar das crianças participarem ativamente de todo o processo de produção, ainda existe o acabamento da professora e a coerção da instituição em relação ao tratamento e a publicação de todos os materiais. O aluno, assim, está mais próximo de seu papel de autor, de enunciador, mas ainda não o é plenamente.

As marcas de ensino-aprendizagem materializadas na página remetem à ideia da importância do coletivo, da capacidade das crianças, de que podem negociar, compartilhar e criar cultura com os adultos e com seus pares, constituindo- se, dessa forma, como sujeitos ativos, inseridos em um mundo social.

Dessa maneira, há, também, uma aproximação com a proposta de ensino- aprendizagem da instituição, pois, em uma concepção marcada pelo seu caráter sócio-histórico-cultural, o papel do professor é o de promover o diálogo, a cooperação, a troca de informações entre os alunos e a atribuição de responsabilidades para se alcançar um objetivo comum. Do mesmo modo, o papel do aluno é ativo, pois se cria um espaço para que suas ideias sejam externalizadas, para que possa argumentar e explicar as suas hipóteses e seus conhecimentos.

Os sujeitos, portanto, participam do processo de ensino-aprendizagem ativamente e, de maneira colaborativa, aprendem a fazer escolhas que satisfazem seus objetivos mesmo dentro das coerções relacionadas às convenções, às tarefas e às normas sociais.