Tendo em vista o caráter dinâmico, interativo e processual da construção de informações, foram elaboradas três atividades específicas para serem realizadas em grupo com os adolescentes, modificando a trajetória metodológica estabelecida inicialmente. O pesquisador precisa ficar atento ao fato de que as informações são co- construídas na interação pesquisador-participantes. Ademais, não é possível ignorar a
complexidade do fenômeno investigado, sobretudo quando se trata de processos de desenvolvimento humano. Branco e Rocha (1998) salientam que
é assim que a investigação de cada problema ou questão relacionada ao tópico do desenvolvimento sempre representa um desafio a exigir a criatividade do pesquisador no sentido de construir uma metodologia adequada aos objetivos do projeto. Uma metodologia que seja clara e precisa e, ao mesmo tempo, flexível e capaz de adaptar-se a cada etapa do processo de investigação (p.252).
Retomaremos este ponto nos resultados, mas é importante salientar desde já que os resultados da Etapa 1 indicaram a presença de significativos estereótipos e preconceitos na representação do curso de vida e do envelhecimento, por parte dos adolescentes. A pesquisadora viu-se diante do imperativo ético de problematizar tais concepções, criando entre os participantes novos horizontes de sentido a serem potencialmente desenvolvidos nas interações concretas no contexto dos grupos focais. Foram planejadas atividades a serem conduzidas na sala de aula, envolvendo todo o grupo de adolescentes de cada turma, e tratando intencionalmente de temas relativos ao processo de desenvolvimento, em especial à adolescência e à velhice, a fim de oportunizar um momento mais aberto para a discussão sobre as questões abordadas no questionário. A pesquisadora contou com a colaboração de duas assistentes de pesquisa, que auxiliaram no manuseio dos materiais utilizados nas atividades e na organização do espaço onde as mesmas foram realizadas.
Foram desenvolvidas três sessões de atividades (Tabela 2) com cada uma das duas turmas de oitava série, coordenadas pela pesquisadora, com a ajuda das assistentes de pesquisa, em um espaço determinado pela professora-parceira do projeto. As duas primeiras atividades foram realizadas com os grupos separados; na última, as duas turmas estavam juntas.
Tabela 2- Objetivos e descrição das atividades em grupo com os adolescentes
Participantes: 74 adolescentes; pesquisadora; assistentes de pesquisa; convidada e professora- parceira.
Atividade Duração Objetivo Recursos e Materiais
Linha da vida 2h30min Representar o processo de desenvolvimento humano, na forma da linha da vida.
Cartolinas, canetas hidrocor, pincéis, revistas, cola e um gravador digital.
Vovó Delícia 1h23min Refletir sobre os próprios avós, à luz da personagem de Ziraldo.
Livro Vovó Delícia10, folhas de papel sulfite; lápis de escrever.
Entrevista com “Vovó delícia” 3h35min Promover trocas de experiências entre adolescentes e uma mulher idosa, ativa e saudável
Roteiro de entrevista elaborado pelos adolescentes, 1 filmadora e 1 gravador digital.
Atividade 1 - Linha da Vida
A primeira atividade realizada teve como tema o desenvolvimento humano, destacando a infância, adolescência, fase adulta e velhice. Foi denominada “Linha da vida”.
Procedimentos de construção das informações
Os adolescentes foram organizados em grupos com cinco membros e foi solicitado que sintetizassem em imagens visuais, através de recortes de revistas e colagem em cartazes, o que entendiam por infância, adolescência, idade adulta e velhice. A atividade “Linha da vida” visou identificar os significados que os
participantes atribuem a esses momentos da vida e promover uma discussão sobre o processo de desenvolvimento humano no curso de vida.
Após a confecção dos cartazes, cada grupo foi solicitado a justificar as imagens escolhidas e narrar, uns para os outros e para a pesquisadora, o que aquelas imagens representavam. Todas as falas foram registradas em áudio, com o auxílio de um gravador digital. A atividade motivou narrativas que permitiram identificar como os adolescentes descrevem, concebem e se posicionam diante dos temas da infância, adolescência, idade adulta e velhice.
Atividade 2 - “Vovó Delícia”
A segunda atividade tratou de questões envolvendo os significados atribuídos pelos netos aos seus avós. O nome escolhido para esta atividade é o título de um livro de Ziraldo que conta, sob o ponto de vista da neta, a história de uma avó ativa e do relacionamento entre ambas.
Procedimentos de construção das informações
A pesquisadora leu integralmente a história em sala de aula. Na seqüência, uma discussão sobre a história foi promovida, contemplando os principais pontos abordados no livro. Feito isso, os adolescentes foram orientados a escrever narrativas sobre seus avós. Algumas possibilidades eram que eles poderiam descrever seus avós, contar uma experiência vivida com eles que considerassem relevante, relatar como os avós participam de suas vidas, enfim, foram orientados a construir uma narrativa escrita em que seus avós e a relação estabelecida com eles constituíssem o tema principal da atividade. Após a entrega desse material escrito à pesquisadora, foi solicitado ainda aos adolescentes que elaborassem perguntas, individualmente, a serem feitas por eles mesmos, a uma pessoa convidada a participar da próxima atividade, na semana seguinte.
Atividade 3 – Promovendo o Encontro com a Velhice Bem-Sucedida: Entrevista com “Vovó Delícia”
Esta atividade teve por objetivo debater questões relativas à velhice, diante de um exemplo concreto de envelhecimento bem-sucedido, com saúde, perspectivas de futuro e qualidade de vida. Para tanto, a pesquisadora promoveu a aproximação entre os alunos e uma escritora moradora do DF, com mais de sessenta anos. Tratava-se de
pessoa respeitada pelo seu trabalho e seu engajamento em prol de projetos em defesa da literatura, e que apresentava uma postura ativa diante da vida.
A escritora será chamada de “Vovó Delícia”, codinome atribuído a ela por um dos adolescentes e aqui utilizado em respeito póstumo à sua imagem. A escritora faleceu em novembro de 2006, em decorrência de problemas respiratórios. A entrevista com a escritora promoveu uma importante experiência intersubjetiva. No entanto, o material produzido não foi incluído, neste trabalho, como objeto de análise, tendo em vista que em função do caráter da atividade, os adolescentes tiveram pouco espaço de expressão, naquele momento.
Procedimentos de análise das informações (“Linha da vida”; Vovó Delícia)
A pesquisadora iniciou o processo de análise das atividades com a transcrição integral das narrativas orais e escritas construídas pelos adolescentes em ambas as atividades. Feito isso, identificaram-se significados e temas recorrentes nas falas e selecionaram-se trechos que os representassem.
As informações construídas em ambas as atividades foram analisadas em paralelo com os eixos temáticos elaborados a partir dos resultados do questionário. Vale ressaltar que as atividades em grupo possibilitaram a ampliação do espaço de debate, constituindo outra forma de abordar os temas já presentes no instrumento exploratório, propiciando um contexto mais aberto e dinâmico de discussão.