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Ela se sentia um prato de comida estragada. Uma carniça. Um penico. Um escarro. Uma doença. Um pus. Um cancro. Uma gota. Suja, suja, imunda. E não entendia porque. Não tinha cabeça para

entendimentos.

Agreste, Newton Moreno

O pré-texto escolhido para a criação da sequência de episódios do drama foi a peça "Agreste”, de Newton Moreno. Trata-se de uma dramaturgia contemporânea, publicada em 2004, a qual explora culturas tradicionais e populares juntamente com situações-limite de discriminação. Um casal composto por uma mulher e um homem transexual - que sequer sabe que possuem o mesmo sexo biológico - é ridicularizado. Após a morte de Etevaldo - membro do casal que se reconhece a partir de uma identidade de gênero masculina, seu velório é repudiado e sua companheira, que é a única que continua velando o corpo, morre queimada dentro de casa, após o incêndio que seus vizinhos provocam no exterior da residência. É importante ressaltar que em nenhum momento as participantes foram comunicadas sobre a peça e, tampouco, tiveram acesso a qualquer material que indicasse a obra de Newton Moreno como um ponto de partida.

A seguir, esquematizo uma estrutura de drama a partir de convenções teatrais que representam oportunidades de aprendizagem em ações contextuais, narrativas, poéticas e reflexivas (NEELANDS, 1990). Os três episódios foram criados por mim e trabalhados em dois encontros, respeitando o desenvolvimento do processo com uma roda de conversa ao final de cada episódio.

A) PERÍCIA - a peça Agreste revela a morte cruel de uma mulher que vela seu marido sozinha, simplesmente porque algumas vizinhas, ao tocá-lo, descobrem que Etevaldo não possui pênis. Neste episódio, o coletivo foi dividido em grupos de perícia e receberam um pacote de estímulo composto22, anunciado pelo professor- atuante (no papel de investigador principal) ser uma maleta encontrada abaixo do assoalho dos escombros da casa de Dona Maria e Seu Etevaldo. Um dos peritos foi convidado a ler o obituário publicado no jornal da cidade que revela a tragédia ocorrida recentemente. Na maleta encontrada existiam vários elementos que se

22 Segundo John Somers, o estímulo composto é o condutor da história, dos personagens e do mundo em que vivem. "A energia e o interesse gerados pelo estímulo composto promovem o ‘reforço’

inicial para a criação da história (...) serve como uma referência contínua no processo de criação”

(SOMERS, 2011, p. 178).

referem aos conflitos do casal (carta de Dona Maria, bilhetes deixados pela vizinhança, tecido de renda, calcinha redutora, flor em bibelô, conta gotas e esparadrapo). O objetivo era que o grupo conhecesse e investigasse o material, a partir das relações estabelecidas com o obituário. Depois da análise dos grupos foram feitas as seguintes perguntas: Que indícios foram encontrados? De que forma estas pessoas morreram? Ao final do episódio, cada grupo emitiu um relatório conclusivo. No entanto, estabeleceu-se uma tensão quando o investigador apresentou um novo documento encaminhado a ele no mesmo instante: um laudo de exame de corpo de delito de necropsia.

B) RECONSTITUIÇÃO - os mesmos grupos da investigação anterior foram mantidos. Neste episódio, o investigador pediu à equipe que reconstituísse a cena do velório que, segundo testemunhas, ocorrera antes do incêndio. Cada grupo se apoiou em seu relatório e nas informações contidas no laudo da necropsia para dramatizar a reconstituição do velório.

C) SESSÃO ESPÍRITA - a ambientação do espaço foi feita por uma disposição de cadeiras em formato circular, iluminação com velas ao centro, apenas na penumbra.

Para conduzir o episódio, o professor-atuante (no papel de um médium vidente) deu orientações a respeito da constituição do ritual que foi vivenciado e da oportunidade que a audiência teria para esclarecer questões relacionadas à morte de Dona Maria com a recepção de seu espírito. Uma atriz (no papel de Dona Maria) irrompeu o espaço entoando um cântico religioso, sentou-se numa cadeira posta e respondeu às perguntas do coletivo sobre sua vida e sua morte. As indicações da atriz a respeito do incêndio e da relação com os vizinhos contribuíram para o desfecho do drama.

Para John Somers, "os elementos da história que cada artefato representa devem, quando justapostos, criar uma rede de relacionamentos que nem sejam rapidamente compreendidos para evitar que a história torne-se imediatamente óbvia, nem tão distantes um do outro para que as possibilidades narrativas possam emergir” (SOMERS, 2011, p. 179). Ao longo do processo de drama, o desenlace pode sofrer algumas alterações, que de fato aconteceram. Estas apropriações serão aprofundadas na análise a seguir.

5.1 DESENCADEAMENTOS DO DRAMA

Inicialmente orientei as participantes de que não haveria interferências e indicativos de como seria conduzido o processo, ou seja, ressaltei para que estas deixassem o fluxo das ações acontecerem e de que elas saberiam quando o episódio começara. Refletindo os aspectos que caracterizam a função do professor no drama, reitero as vivências que tive em minhas primeiras experiências neste método: o drama não é uma mera aplicação improvisacional ou dirigida. Seu processo requer a disponibilidade do professor para a atuação e, consequentemente, para os impulsos que surjam desta prática. Por exemplo, ao iniciar o processo retirei-me da sala, fiz um exercício respiratório e só então ficou claro tanto para mim, quanto para as participantes, de que o processo em drama iniciara. Edgar Morin (2019), ainda em sua Conferência Estética e Arte, relaciona a criação do artista aos transes xamânicos. A busca por uma realidade que invoca a função ritualística torna a estética poética da vida, ou seja, inerente à constituição do humano.

5.2 PRIMEIRO EPISÓDIO: PERÍCIA

Neste primeiro episódio, assumi o papel de investigador principal. Na fala inicial da entrada do investigador ressaltei que não havia indícios de um incêndio natural na residência do casal de Barra do Jacaré, o qual acontecera alguns dias antes da investigação. Uma das participantes voluntariou-se e leu o obituário do jornal local em voz alta para as demais peritas.

DIÁRIO DO NORTE PIONEIRO