2 OS PARADIGMAS DA EDUCAÇÃO ESPECIAL E OS TRANSTORNOS GLOBAIS DO

3.2 Surgimento das entidades clínicas dos transtornos globais do desenvolvimento: as grandes

3.2.2 Autismo infantil precoce

Em meio a esta tradição na investigação psicopatológica, mas fincada no rigor epistemológico da classificação nosológica pela via da compreensão sobre as causas das manifestações dos fenômenos, agora estabelecidas sob as vertentes orgânica e psíquica (BERCHERIE, 1989; 2001), vemos emergir as pesquisas a em torno de duas outras entidades clínicas no campo das investigações psicopatológicas infantis – o Autismo Infantil Precoce, descrito por Leo Kanner em 1943, e a síndrome de Asperger, descrita de forma autônoma por Hans Asperger em 1944.

A noção bleuleriana do autismo foi retomada por Kanner em 1943, na observação de 11 crianças que apresentavam seu desenvolvimento psicomotor e afetivo comprometido, bem como as contribuições pediátricas do psicólogo e pediatra americano Arnold Gesell (1880- 1961) sobre o desenvolvimento humano. Segundo Bercherie (2001), esta articulação com o trabalho de Gesell permitiu o estabelecimento de estreita relação entre a clínica e a Psicologia do Desenvolvimento, e contribuiu para sublinhar a precocidade da perda relacional existente nos quadros de autismo.

Em termos metodológicos, Kanner embasou sua pesquisa no método experimental, mas referiu-se ao isolamento e ao retorno libidinal egoico observado nestas crianças como sendo a causa etiológica da patologia observada e descrita por ele. Ao tomar de empréstimo de Bleuler o termo autismo e as noções de Gesell, Kanner definiu então uma síndrome de etiologia relacional, caracterizada pela incapacidade da criança em realizar a transposição da ligação libidinal de seu ego para os objetos do mundo externo. Como consequencia deste impedimento, observou a presença de estereotipias motoras, dificuldades de contatos visuais, preferência por estarem a sós e, portanto, dificuldades de socialização, fala ecolálica e

monocórdica, interpretação literal das situações, dentre outras manifestações que se colocam de forma variável de um indivíduo para outro, não havendo entre os autistas uma homogeneidade nas descrições dos fenômenos manifestos35. Estas descrições sublinhadas por Kanner (1976) são remontadas por Paula Ramos Pimenta (2003) em sua dissertação sobre as abordagens clínicas distintas ao Autismo de Kanner feitas pelas ciências da Medicina e pela Psicanálise.

Para Pimenta (2003), as proposições de Kanner a respeito do Autismo Infantil Precoce o colocam na condição de definir para o sujeito uma posição subjetiva particular, questão que também veremos estabelecida na análise da psicanalista Sílvia Helena Tendlarz (1997) a respeito das condições do sofrimento mental infantil e para quem a descrição do autismo significa uma divisão paradigmática no campo das psicoses infantis, pois ele representaria uma posição radical do sujeito face aos tropeços com a instância simbólica, organizadora da constituição subjetiva e dos processos psíquicos individuais. Seguindo a tradição da psicanálise, destaca-se que, para Tendlarz (1997), bem como para Pimenta (2003), o autismo seria uma posição subjetiva da criança e não um índice cognitivo deficitário a ser suplementado.

Diante da colocação destas autoras, verifica-se que, de fato, para Kanner (1976), o desajuste observado nas possibilidades da criança autista em estabelecer contato afetivo e, portanto, contato social, seria a principal causa dos demais fenômenos apresentados por ela, incluindo os fenômenos relacionados aos vários níveis de retardo mental evidenciados em algumas crianças. Esta posição indica a instância simbólica como decorrente da questão relacional como causa da constituição subjetiva das crianças, inclusive no que se refere aos fenômenos cognitivos. Para este autor, apesar dos impasses cognitivos, alguns autistas mantêm ilhas de inteligência, conceito a partir do qual ele designa possibilidades de aprendizagem destas crianças, cujo comprometimento cognitivo por vezes é bastante severo (KANNER, 1976). Sob esses argumentos e, sobretudo, face ao alheamento mental bastante precoce, sem indícios de comprometimento orgânico, inicialmente Kanner inscreve o Autismo Infantil Precoce no rol das formas de manifestação precoce da esquizofrenia (KANNER, 1976).

Cabe ressaltar que, em Ajuriaguerra (1980), encontra-se o Autismo Infantil Precoce relacionado às grandes síndromes mentais infantis, de certa forma, regendo a diferenciação

35

Não sendo nosso objetivo, no presente trabalho, estabelecer o rol dos fenômenos manifestos, e havendo necessidade, por parte do leitor, de proceder a uma consulta mais completa em relação a esta questão, direcionamos suas leituras tanto para o Manual de Psiquiatria de Kanner (1976) quanto para a dissertação de Pimenta (2003, p. 33-34).

estabelecida entre as psicoses infantis de início precoce (1- 2 anos) e as psicoses infantis de início tardio (5-7-12 anos). Também se encontra esta mesma distribuição na obra de Daniel Marcelli e David Cohen (2010), em que o Autismo Infantil Precoce, a síndrome de Rett, a síndrome de Heller (também denominada pelos autores como transtorno desintegrativo da infância) e a síndrome de Asperger aparecem ao lado das manifestações precoces da psicose infantil.

Em relação ao percurso que aqui buscamos explicitar, o que se destaca nas pesquisas iniciais sobre o autismo é uma forma de abordagem psicopatológica marcada pela heterogeneidade das investigações, na definição de uma entidade clínica crucial para o campo da Psiquiatria Geral e da Psiquiatria Infantil, uma vez que delimitou um esclarecimento final em torno da existência do adoecimento mental infantil. Ao menos inicialmente, a descrição feita por Kanner retirou boa parte da compreensão sobre esta questão da esfera das explicações orgânicas e/ou congênitas para buscar no campo relacional as raízes da loucura nas crianças, a exemplo do que era empreendido pelos psicanalistas infantis, dos quais podemos mencionar especialmente as contribuições de Melaine Klein36, Margareth Mahler37, Françoise Dolto e Maud Mannonni nas pesquisas em torno das psicoses infantis (KANNER, 1976; TENDLARZ, 1997; AJURIAGUERRA, 1980; BERCHERIE, 2001; RAHME, 2010). Destaca-se dentre as psicanalistas referenciadas, o trabalho terapêutico e educativo de Mannonni (1977), cuja proposição de escolarização de sujeitos autistas se colocou como inovadora no decorrer da década de 70 do século XX por inaugurar o indicativo de que estas crianças são capazes de aprender e de conviver em sociedade.

No documento Alunos com transtornos globais do desenvolvimento: da categoria psiquiátrica à particularidade do caso a caso nos processos de inclusão escolar (páginas 58-60)