PARTE II-ENQUADRAMENTO TEÓRICO
III. AUTOCONCEITO E AUTOESTIMA
III.2- Autoconceito e Autoestima Nos Adolescentes Institucionalizadas
período das suas vidas na qual surgem sentimentos menos positivos, como é exemplo, o abandono, a solidão e a perda de algum apoio anteriormente prestado, em que há uma adaptação imposta face às novas circunstâncias.
Estas crianças e jovens tendem a sentirem-se mais carentes, pois necessitam de um suporte seguro que as apoie e proteja. Na qual a ausência deste apoio tendem a produzir mecanismos de insegurança emocional, conduzindo a posteriores dificuldades no seu desenvolvimento (Grossmann & Grossmann, 2004).
Efetivamente, é de salientar que a privação de laços afetivos na fase da infância afeta o crescimento saudável desta, podendo influenciar as relações que cria com os outros que a rodeiam (Mota & Matos, 2008).
O acolhimento muitas vezes leva ao afastamento dos membros familiares de origem, podendo provocar a autodesvalorização por parte das menores, apesar de ser uma espécie de «salvação» na vida destas, pois o seu bem-estar físico e psicológico não estava assegurado (Strech, 2002, cit. por Canais, 2012). No entanto, não se pode atribuir os constrangimentos desenvolvimentais das crianças e jovens apenas ao facto destas serem institucionalizadas. Porém, é de salientar que o acolhimento residencial contribui para o aparecimento de efeitos desfavoráveis no seu desenvolvimento, podendo prolongar-se por longos períodos nas suas vidas.
Para Bronfenbrenner, 1996, quanto mais inferior for a idade das crianças, maior serão os danos existentes no decorrer do processo de acolhimento. Todavia, estes efeitos variam consoante a criança envolvida, isto é, de acordo com o motivo da separação mediante o vínculo estabelecido anteriormente com a figura de vinculação e a personalidade da menor (Grusec e Lytton, 1988). Bowlby, (1952, cit. por Canais, 2012). As reações ao acolhimento dependem também da ligação da criança ou jovem com a família, bem como das expectativas desta acerca da casa de acolhimento para onde irá passar os seus dias.
Embora não exista uma ampla investigação que envolva crianças institucionalizadas e as questões do autoconceito e autoestima, alguns investigadores
56 tentaram compreender de que modo a incapacidade dos pais na proteção dos seus filhos influência na forma como estes se percecionam e se avaliam (Louro, 2013).
Bolger, Patterson & Kupermidt, 1998, observaram que as crianças entre os 8 e os 10 anos, vítimas de maus tratos, expõem maiores dificuldades nas relações com seus pares e uma menor autoestima, destacando-se destes as vítimas de maus-tratos físicos e de abuso sexual.
Por sua vez, o auxílio social facultado pela qualidade dos vínculos de amizade, tem efeitos positivos com o decorrer do tempo ao nível da autoestima. Este reforço social é indispensável para que a criança se sinta mais satisfeita consigo mesmo.
Milani & Loureiro, 2009, estudaram um grupo de crianças mais debilitadas, vítimas de violência doméstica, com idades compreendidas entre 8 e os 12 anos, e tinham como objetivo avaliar o autoconceito, utilizando a escala de Piers-Harris. Segundo os resultados obtidos, estes autores concluíram que existem diferenças significativas no comportamento, no estatuto intelectual e académico, quando comparadas outras crianças que não sofreram de violência doméstica. Geralmente, estas crianças avaliam-se negativamente, culpabilizando-se pelas adversidades que acontecem no dia-a-dia, considerando que a sua família estará magoada com ela pelas suas atitudes.
Para estes autores, as crianças mais sensíveis não possuem tantos recursos individuais para conseguirem lidar com os problemas, podendo afetar a sua capacidade de resolver os contratempos. Estas crianças apresentam mais debilidades nas áreas comportamentais e cognitivas, podendo prejudicar o seu crescimento saudável e o seu autoconceito.
Deste modo, por vezes é necessário afastar as crianças do seu seio familiar, colocando-as em casas de acolhimento, nomeadamente quando tal envolve situação de perigo, como já foi mencionado anteriormente. No entanto, esta modificação na dinâmica familiar, para além de ter um impacto na criança, refletir-se-á na sua autoimagem (Louro, 2013).
Zortea, Kreutz & Johann, 2008, também realizaram um estudo idêntico ao de Milani & Loureiro, com crianças com idades entre 5 e os 7 anos, de forma a avaliar o autoconceito, comparando as que vivem em meio familiar e as que estão institucionalizadas, recorrendo à análise do desenho e às entrevistas. Os resultados alcançados demonstraram que em termos de características físicas e emocionais, as crianças institucionalizadas não confiam tanto nas suas capacidades, precisando que os seus significativos lhes dê um maior apoio e reforço positivo.
57 Em crianças que residem em casas de acolhimento, com faixa etária entre os 7 e os 13 anos, verificou-se que a autoimagem também é mais negativa.
Segundo a investigação de Pasian & Jacquemin, 1999, utilizando o desenho da figura humana, observou-se que existem distinções ao nível do autoconceito entre as crianças institucionalizadas e as que vivem no contexto familiar, apresentando as primeiras um autoconceito menos positivo.
Para estes autores, a possível causa para esta disparidade está no efeito que a institucionalização tem nestas crianças. Todavia, se a medida de proteção empregue abranger a criança em meio familiar ou existir frequentemente mais contacto com a família, este impacto pode ser menor.
Um estudo acerca da importância da integração em famílias de acolhimento, de crianças até 1 ano, permitiu constatar que o impacto da medida de acolhimento familiar exerce influência na forma como esta se vai percecionar. Pois, esta medida proporciona à criança a prestação de cuidados por parte de uma nova figura que a protege, satisfazendo as suas necessidades e concedendo-lhe maior atenção (Dozier, Stovall, Albus & Bates, 2001)
Uma outra pesquisa com famílias de acolhimento, indicou que as visitas dos pais apresentam uma forte ação no autoconceito positivo. O facto dos pais estarem mais disponíveis reforça a sua autoconfiança, sendo fulcral manter os laços familiares, para desenvolver um autoconceito positivo para superar as adversidades, servindo de auxílio social (Metzger, 2008).
Bowlby, 1952, cit. por Canais, 2012, refere que os efeitos da institucionalização podem ser reduzidos pela prestação de cuidados por alguém próximo desta, cuidados estes que deveriam ser prestados pela sua figura maternal. Deste modo, a relação estabelecida para com os profissionais da instituição torna-se imprescindível, uma vez que pode beneficiar o seu desenvolvimento a nível emocional e comportamental.
Santana et al, 2004, defende que as casas de acolhimento devem ser repensadas, na medida que estas devem ser um espaço em que as crianças e jovens possam construir relações positivas, no que diz respeito à construção identitária destas com os menores. Os funcionários da instituição têm um papel fundamental, pois estes irão servir de orientação, proteção, amparo e de cuidado. Neste sentido, pode-se afirmar que as boas experiências do menor na instituição dependem dos vínculos afetivos e do auxílio social que a casa de acolhimento irá desempenhar, contribuindo para a formação da sua identidade e para o
58 seu desenvolvimento, (tal como já foi referido), originando possibilidades para satisfação na vida pessoal e social.