Ainda que a chamada “teoria da escolha racional” pressuponha que a racionalidade da escolha é caracterizada pela busca inteligente do autointeresse, não é necessário excluir a possibilidade de que uma pessoa possa ter simpatia ou antipatia em relação às outras. Em uma versão mais restrita da ter (cada vez mais fora de moda), por vezes se supõe que as pessoas racionais devem não só ser egoístas, mas que também devem ser distanciadas das outras pessoas, de modo que em nada sejam afetadas pelo bem-estar ou realizações das demais. Mas interessar-se pelos outros não necessariamente torna as pessoas menos egoístas (ou envolve “abnegação”, como Smith se expressa), se elas acabam por promover seu próprio bem-estar, levando em conta seu próprio prazer — ou sofrimento — a partir do bem-estar dos outros. Há uma diferença significativa entre, primeiro, levar em conta como o próprio bem-estar é afetado pelas circunstâncias dos outros e, em seguida, buscar exclusivamente o próprio bem-estar (incluindo o que resulta da reação às vidas alheias) e, segundo, afastar-se completamente da busca inflexível do próprio bem-estar. A primeira possibilidade ainda é uma parte da ampla história do comportamento autointeressado e pode ser acomodada dentro da abordagem da ter.
Mais de trinta anos atrás, procurei explorar, em um artigo intitulado “Rational fools” [Tolos racionais] (minha Conferência Herbert na Universidade de Oxford), a distinção entre “simpatia” e “compromisso” como fundamentos possíveis para o comportamento sensível aos outros.h A simpatia (incluindo a antipatia, quando é negativa) se refere ao “bem-estar de uma pessoa sendo afetado pela situação dos outros” (por exemplo, uma pessoa pode se sentir deprimida com a visão da miséria dos outros), enquanto o “compromisso” diz respeito “a quebrar a ligação estreita entre o bem-estar individual (com ou sem simpatia) e a escolha da ação (por exemplo, alguém se compromete em ajudar a remover alguma miséria alheia, embora esta não lhe cause sofrimento pessoal)”.23 A simpatia é combinável com o
comportamento autointeressado, e é perfeitamente compatível mesmo com o que Adam Smith chamou de amor-próprio. Se alguém tenta remover a miséria dos outros só porque — e somente na medida em que — afeta seu próprio bem-estar, isso não significa um afastamento do amor-próprio como a única razão aceita para a ação.i Mas, se alguém está comprometido, digamos, a fazer o que pode ser feito para eliminar a miséria dos outros — seja o próprio bem-estar afetado ou não, e não apenas na medida em que seu próprio bem-
estar seja assim influenciado — então isso é um claro afastamento do comportamento autointeressado.
Um dos principais arquitetos da teoria da escolha racional contemporânea, o professor Gary Becker, forneceu uma esclarecedora exposição da ter em sua forma mais ampla, abrindo sistematicamente um espaço para a simpatia pelos outros como parte do sentimento humano, mas não se afastou da busca exclusiva do autointeresse. Na verdade, as pessoas não precisam ser egocêntricas para serem autointeressadas, e podem levar em conta os interesses dos outros dentro de sua própria utilidade. Mas a nova análise de Becker em Accounting for tastes [Explicando os gostos] (1996), embora desbrave novos assuntos, fundamentalmente em nada se afasta das convicções básicas apresentadas anteriormente por ele em seu trabalho clássico e muito citado The economic approach to human behavior [A abordagem econômica do comportamento humano] (1976): “Todo comportamento humano pode ser visto como envolvendo participantes que (1) maximizam sua utilidade, (2) formam um conjunto estável de preferências e (3) acumulam uma quantidade ótima de informações e outros inputs em
uma variedade de mercados”.24
O que é realmente fundamental para a abordagem da ter, sem nenhuma restrição
desnecessária, é que o maximandoj da escolha individual de um comportamento nada mais é
do que o próprio interesse ou bem-estar, e essa suposição central é compatível com o reconhecimento de que várias influências sobre o próprio interesse e bem-estar podem se originar na vida e no bem-estar de outras pessoas. Assim, a “função utilidade” beckeriana, vista como aquilo que a pessoa maximiza, significa tanto o maximando da pessoa na escolha arrazoada como uma representação do próprio autointeresse da pessoa. A congruência é extremamente importante para muitas das análises econômicas e sociais que Becker empreende.
Para a ter, então, com seu foco na busca do autointeresse como a única base racional da escolha, podemos acomodar facilmente a simpatia, mas devemos evitar o compromisso: até aqui e nada mais. A análise de Becker é sem dúvida uma ampliação bem-vinda da ter em relação à versão desnecessariamente restritiva defendida antes, mas devemos também notar que a ter nessa forma beckeriana ainda faz omissões. Em particular, ela não dá espaço para qualquer razão que possa levar alguém a buscar um objetivo diferente de seu próprio bem- estar (por exemplo, “não importa o que aconteça comigo, devo ajudá-la” ou “estou preparado para um grande sacrifício em nome da luta pela independência de meu país”) ou — indo mais longe — até mesmo afastar-se da busca exclusiva dos próprios objetivos (por exemplo, “esta é realmente minha meta, mas não preciso promover meus próprios objetivos concentradamente, pois eu deveria ser justo com os outros também”). Talvez a questão mais importante a esclarecer aqui, no contexto da presente discussão da razão e da racionalidade, é que a ter, mesmo em sua forma mais ampla, não apenas pressupõe que as pessoas
realmente não têm objetivos diferentes da busca de seu próprio bem-estar, mas também supõe que elas estariam violando as exigências da racionalidade se tratassem de acomodar qualquer objetivo ou motivação diferentes da busca única de seu bem-estar próprio, após
levarem em conta quaisquer fatores externos que o influenciam.k