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Autonomia de qualquer ramo do Direito é problema falso

Entretanto, chamado a exercer em matéria fiscal essa atividade construtiva e, de certa forma, bem mais difícil que

9. Autonomia de qualquer ramo do Direito é problema falso

A autonomia do Direito Tributário é um problema falso97 e falsa é a autonomia de qualquer outro ramo do Direito Positivo.

O vocábulo autonomia não é próprio do mundo jurídico. O jurista moderno usa e abusa da palavra “autonomia”, em- pregando-a nos significados mais disparatados, de modo que ela se converteu numa expressão equívoca e perturbadora, sugerindo zonas apartadas e inacessíveis à Teoria Geral do Direito e atribuindo virtualidades misteriosas àquilo que é considerado “autônomo”.98

Muitos estudiosos do Direito Tributário utilizam a palavra “autonomia” como fundamento e explicação óbvia de toda e qualquer doutrina tributária pseudojurídica; e assim fazendo, propagam a demência tributária e cometem, com catedrática gravidade, erros jurídicos de um empirismo larvar.99

Na moderna Teoria Geral do Direito, a expressão “auto- nomia” é uma daquelas que exige prévia análise etimológica. Como vocábulo de origem filosófica, transitado na Ciência e doutrina política, e depois introduzido na doutrina jurídica, assumiu, nesta última, inúmeras significações, muitas das quais contraditórias.100

“Autonomia” é palavra gasta pela erosão das ciências so- ciais, que deverá ser evitada, pois em lugar de conferir limpidez

97. Rubens Gomes de Sousa, Curso de Direito Financeiro. Rio de Janeiro, 1958 (obra coletiva publicada pelo “Instituto Brasileiro de Direito Financei- ro”), pp. 64-65, 69.

98. Francesco Calasso, Enciclopedia del Diritto, vol. IV, Milano, 1959, verbe- te “autonomia”, pp. 349, 354, nº 7, 335, n º 8in fine; Massimo Severo Gianni- ni, Enciclopedia del Diritto,vol. cit., p. 356, nº 1; Achille Donato Giannini, I Concetti Fondamentali di Diritto Tributario, Torino, 1956, pp. 15-20.

99. Sobre o manicômio jurídico tributário, ver ns. 1-2. Sobre o sistema dos fundamentos “óbvios”, ver nº 3.

100. Massimo Severo Giannini, in Enciclopedia del Diritto, vol. IV. Milano, 1959, verbete “autonomia”, p. 356, nº 1.

e pureza à ideia, veste-a com andrajos dissimuladores. O juris- ta só ficará imune às contaminações quando tiver bem nítida a história da penetração do vocábulo “autonomia” no mundo  jurídico, porque este é o único modo de reduzir “os abusos e riscos de uma expressão que não tendo nascido no mundo  jurídico, todavia foi incumbida de vestir um dos mais altos

princípios da fenomenologia jurídica.”101

O verdadeiro e genuíno sentido da expressão “autonomia” é o poder (capacidade de agir) de o ser social impor uma dis- ciplina aos indivíduos (que o estão, continuamente, criando) e a si próprio numa autolimitação. Este é o genuíno conteúdo  jurídicoda expressão “autonomia” conforme demonstra FRAN-

CESCOCALASSO, Professor de História do Direito na Universida-

de de Roma, em belíssima exposição, concluindo que a expres- são “autonomia” concebida no seu verdadeiro sentido jurídico é o mais fundamental princípio da fenomenologia do Direito porque designa a capacidade de criar o Direito Positivo.102

Por isso o Direito Tributário pode ou não pode fazer certas coisas (não porque é um ramo “autônomo” do Direito), mas, pura e simplesmente, porque é Direito Positivo. Para que o Direito Tri- butário possa criar princípios e conceitos próprios e específicos, não é necessário recorrer a uma “autonomia”, basta continuar a ser o que sempre foi: jurídico, pois a criação e incidência de toda e qualquer regra jurídica necessariamente deforma a realidade (esta realidade pode ser fato econômico ou fato jurídico) e impõe um determinismo artificial à conduta humana.103 Talvez fosse melhor dizer “o que deveria ter sido”, pois uma forte corrente doutrinária

101. Francesco Calasso, Enciclopedia del Diritto, vol. IV. Milano, 1959, ver- bete “autonomia”, p. 355, nº 8infine.

102. Francesco Calasso, Enciclopedia del Diritto, vol. IV. Milano, 1959, ver- bete “autonomia”, p. 355, nº 8 in fine, combinado com o nº 7, pp. 353-54. Poder (capacidade de agir) do Estado, ver nosso nº 54. Fenomenologia da criação do Direito Positivo, ver nosso nº 59 .

Subordinação do Estado às regras jurídicas por ele mesmo criadas, ver nosso nº 69.

moderna – sob a ilusão de defender e contribuir para o progresso do Direito Tributário – insiste, precisamente, em destruir o que nele há de jurídico. Em nome da defesa do Direito Tributário, eles matam o “Direito” e ficam apenas com o “Tributário”.104 Pela simples razão de não poder existir regra jurídica independente da totalidade do sistema jurídico,105a autonomia (no sentido de independência relativa) de qualquer ramo do  Direito Positivo é sempre e unicamente didática para, investi- gando-se os efeitos jurídicos resultantes da incidência de deter-  minado número de regras jurídicas, descobrir a concatenação lógica que as reúne num grupo orgânico e que une este grupo à totalidade do sistema jurídico.

“Autonomia didática” pode ter até uma única regra jurí- dica, se e enquanto são investigados os efeitos jurídicos decor- rentes de sua incidência, para encontrar o fundamento lógico que revelará estar a regra jurídica ligada a este ou aquele gru- po de regras jurídicas.

Com a evolução do Direito e o aperfeiçoamento da Ciência  jurídica, torna-se cada vez mais difícil apontar um fundamen- to seguro que ainda possa sustentar a sacrossanta divisão do Direito Positivo em: público e privado.106 Os modernos juristas

104. Ver nº 36. 105. Ver nº 31.

106. Pontes de Miranda, Tratado de Direito Privado, Rio de Janeiro, 1954, vol. I, § 21, nº 1; R. Savatier, Les Métamorphoses Economiques et Sociales du Droit  Privé d’Aujourd’hui, 2ª série, Paris, 1959 – “L’universalisme renouvelé des disciplines juridiques”, p. 43, nº 25 e pp. 62-65; ver também do mesmo autor:  Du Droit Privé du Droit Public, 2ª ed., 1950; G. Scelle, “Le droit public et la théorie de l’Etat”, na obra coletiva Introduction à l’Etude du Droit, vol. I, Paris, 1951, pp. 23-28; N. Bobbio, Diritto e Stato nel Pensiero di Emanuele Kant, Tori- no, 1957, pp. 137-38; Kelsen, Teoria General del Estado, Madrid, 1934, pp. 105- 6 e também posteriormente, Teoria General del Derecho y del Estado , 2ª ed. da tradução, México, 1958 (ed. original Berkeley, 1944), pp. 239-46; Rivero, “Droit public et droit privé: conquête ou statu quo”, in Chroniques Dalloz, 1947, p. 45; Eisenman, “Droit public, droit privé”, in Revue du Droit Public, 1952, p. 903; Chevrier, “Remarques sur l’introduction et les vicissitudes de la distinction du jus privatum e du jus publicum dans les oeuvres des anciens juristes fran- çais”, in Archives de la Philosophie du Droit, 1952.

estão chegando à conclusão de que até a clássica distinção entre Direito Público e Direito Privado repousa numa simples “autonomia” para fins meramente didáticos baseada em crité-  rio meramente histórico cujo artificialismo e falta de lógica são

denunciados pelo progresso da Ciência jurídica.107

Já em 1925, KELSEN demonstrara o artificialismo e o sub-

 jetivismo da divisão do Direito em público e privado:

“Esta irrupción de la Política en la Teoria del Derecho, hállase favorecida por una funestísima distinción que constituye ya hoy uno de los principios más fundamentales de la moderna ciencia jurídica. Se trata de la distinción entre Derecho público y privado. Si bien esta antítesis constituye la médula de toda la sistemática teórico-jurídica, es sencillamente imposible deter- minar con cierta fijeza lo que quiere decirse en concreto cuando se distingue entre el Derecho público y el privado. Ciertamente, cabe señalar determinados dominios jurídicos, cualificados por su especial contenido, que se contraponen convencionalmente en calidad de ‘Derecho público’ al ‘Derecho privado’. Asi, en el Derecho público se incluyen el Derecho político, el administra- tivo, el procesal, el penal, el internacional y el canónico (este último sólo en tanto que se refiere predominantemente a los anteriores dominios); todo el restante Derecho es Derecho pri- vado. Pero si se pregunta por el fundamento de esta división, se entra de lleno en un caos de opiniones contradictorias.

Por de pronto, no hay seguridad en el objeto de la división: la cualidad de público y privado se atribuye indistintamente al

107. Pontes de Miranda, Tratado de Direito Privado,Rio de Janeiro, 1954, vol. I, § 21, nº 1; N. Bobbio, Diritto e Stato nel Pensiero di Emanuele Kant, Torino, 1957, pp. 137-138; Kelsen,Teoría General del Estado, Madrid, 1934, pp. 105-106 e também posteriormente emTeoría General del Derecho y del  Estado, 2ª ed. da tradução, México, 1958 (ed. original Berkeley, 1944), pp. 239-246; R. Savatier, Les Métamorphoses Economiques et sociales du Droit  Privé d’Aujourd’hui, 2ª série, Paris, 1959 – “L’universalisme renouvelé des disciplines juridiques”, pp. 63-64; G. Scelle, “Le droit public et la théorie de l’Etat”, na obra coletiva Introduction à l’Etude du Droit, Paris, 1951, vol. I, pp. 23-28.

Derecho objetivo, a las normas, al derecho subjetivo, a las fa- cultades y deberes que constituyen la relación jurídica. Si se reduce el derecho subjetivo al objetivo, una división del prime - ro tiene que ser, al propio tiempo, una división del último. Añádase a esto que, con la dualidad del objeto de la división, va unida una antítesis de los criterios con arreglo a los cuales se lleva a cabo. De éstos podriamos escoger más de una doce - na. Para dividir el Derecho en público y privado se recurre por los diversos tratadistas a los criterios más variados y aun opues- tos; no es raro encontrar en un mismo escritor esta diversidad u oposición de criterios”.108

E em 1944, KELSEN novamente faz a análise crítica das te-

orias que ainda pretendem sustentar aquela divisão, e conclui: “Consecuentemente, la distinción entre derecho privado y derecho público, cambia de significado según que lo que se pretenda distinguir del derecho privado sea el derecho penal o el derecho administrativo. La distinción es inutilizable como fundamento común para una sistematización general del derecho”.109

“Tanto é relativa e mutável a distinção entre direito pri- vado e público”, conclui em 1957 NORBERTO BOBBIO, “que, em

última análise, se nós adotamos em lugar dos referidos critérios ( ratione personae e ratione materiae) um terceiro critério de distinção, como o da fonte, a distinção entre direito privado e direito público, assim como é elaborado pelo jurista moderno que se baseia sobre um ordenamento positivo, não há mais alguma razão de subsistir.”110

“Portanto, pode-se bem compreender quão pouca impor- tância deve-se atribuir a uma distinção como aquela entre

108. Kelsen,Teoría General del Estado, Madrid, 1934, pp. 105-6 (grifou-se). 109. Kelsen, Teoría General del Derecho y del Estado, 2ª ed. da tradução, México, 1958 (ed. original Berkeley, 1944), p. 246 (grifou-se). Para a análise dos diversos critérios, ver pp. 239-46.

110. N. Bobbio, Diritto e Stato nel Pensiero di Emanuele Kant, Torino, 1957, pp. 137-38.

direito privado e público, a qual, adotando-se pontos de vista

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