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Para Bourdieu (2004), uma das grandes questões no estudo dos campos, como o científico e o político, é conseguir definir a autonomia desse campo. Isso é possível pela análise de como esse campo se modifica com eventos e pressões externas, como ele se relaciona com elas e quais as formas de resistência que possui, para que possa seguir apenas suas próprias regras, principalmente quando essas pressões externas são inesperadas, como no caso de uma catástrofe. Bourdieu (2004) argumenta que quanto mais autônomo um campo é, maior também será o seu poder de refração.

A noção de campo esta aí para designar esse espaço relativamente autônomo, esse microcosmo dotado de suas leis próprias. Se, como macrocosmo, ele é submetido a leis sociais, essas não são as mesmas. Seja mais escapa as imposições do macrocosmo, ele dispões, com relação a este, de uma autonomia parcial mais ou menos acentuada. (BOURDIEU, 2004, p. 20).

Por outro lado, quanto mais outros campos, como o político, conseguem intervir em uma área, menos autônoma ela se constitui. Essa intervenção também pode vir de um agente que está dentro do campo e tem poder para modificá-lo. Isso diz respeito à lógica de posições internas do campo, ou seja, nas palavras de Bourdieu, “é a estrutura das relações entre os agentes que determina o que eles podem e não podem fazer”. (BOURDIEU, 2004, p. 23):

É preciso dizer, por outro lado, que, por muito versado que possa ser na “gestão de redes” (com que tanto se preocupam aqueles que julgam servir-se de sua “ciência” da ciência para promover suas teorias da ciência e afirmar seu poder de especialistas no mundo da ciência), as oportunidades que um agente singular tem de submeter as forças do campo aos seus desejos são proporcionais a sua força sobre o campo, isto é, ao seu capital de credito científico ou, mais precisamente, a sua posição na estrutura da distribuição do capital. (BOURDIEU, 2004, p. 25).

Além do reconhecimento externo, dentro do próprio campo há dinâmicas que regulam a sua legitimidade. Os distintos campos estão localizados no interior de um “campo de poder”. (MIRANDA, 2005). O que traz internamente legitimidade a um campo é a profissionalização de quem o constitui, isso leva também à consolidação do campo.

A gênese e a estruturação do campo de produção de bens simbólicos, ou campo cultural, portanto, decorre de uma série de desenvolvimentos: amplificação, diversificação – ou mesmo formação – de um público de consumidores de bens simbólicos, mantenedores dos produtores; os princípios internos de legitimação constituídos pelos produtores desses bens e sua profissionalização levam à consolidação do campo e a determinação das condições ao seu acesso, bem como a de suas normas e imperativos técnicos, ao quais também incidem as instâncias de consagração em competição pela legitimidade cultural. (MIRANDA, 2005, p. 80).

No campo científico em específico, principalmente dentro da temática das questões climáticas e desastres naturais, há lutas internas entre cientistas que têm ideias diferentes. Mesmo assim, pelas suas titulações ou legitimidade adquirida, alguns são mais procurados pela mídia para representar a comunidade científica como um todo. Essa busca por uma legitimidade faz com que os participantes do campo entrem em disputa:

A busca pela legitimidade faz com que os participantes do campo travem uma competição permanente ao estabelecimento de distinções culturalmente pertinentes a suas práticas: estilos, performances, técnicas, temas, cujas marcas de distribuição próprias, uma vez reconhecidas pelo campo atribuem valor às obras. (MIRANDA, 2005, p. 84).

É dentro dessa distinção cultural, oriunda do próprio campo, que surge o valor da “obra” e também do produtor. Segundo Miranda (2008), há os porta-vozes da ideia legítima, que têm autoridade para abandonar a especificidade do seu campo e podem incidir também sobre os demais campos.

Dentro do campo científico, essas obras podem ser os livros ou artigos publicados por determinado pesquisador que estará habilitado para falar sobre o assunto. Miranda (2008) lembra que na ciência há uma busca pela neutralidade idealista, que tenta ocultar uma política que se encontra na formação do discurso científico, assim como no jornalismo também há um mito da objetividade e imparcialidade dos textos.

Bourdieu (2007) vê na gênese das lutas simbólicas dos campos por reconhecimento social a luta de classes.

Mas o lugar por excelência das lutas simbólicas é a própria classe dominante: as lutas pelas definições da cultura legítima que opõem os intelectuais e os artistas não passam de um aspecto das incessantes lutas em que as diferentes frações de classe dominante enfrentam-se pela imposição da definição dos pretextos e de armas legítimas – capital econômico, capital escolar ou capital social – outros tantos poderes sociais, cuja eficácia específica pode ser reduplicada pela eficácia propriamente simbólica, ou seja, pela autoridade que dá o fato de ser reconhecido, mandatado, pela crença coletiva. (BOURDIEU, p. 237, 2007).

Ainda, segundo o autor, as lutas de tudo que no mundo se refere à crença, ao crédito ou descrédito, à percepção ou apreciação, ao conhecimento e reconhecimento, ou ainda, ao nome, à reputação, à glória, à honra, ao prestígio e autoridade, ou tudo mais que torna poder simbólico em poder reconhecido, estão ligadas à lógica da distinção: aqueles que têm ou pretendem ter mais autoridade e reconhecimento público para falar de determinado assunto. Bourdieu (2005) também mostra como o acesso aos diplomas acaba “vulgarizando” os campos, quando eles são tornados mais acessíveis. Por isso, os atores sociais dos campos vão buscar cada vez mais uma especialização:

reconhecimento da distinção que se afirma do esforço para se apropriar dela, nem que fosse sob a aparência ilusória do blefe ou do símile, e para se distanciar em relação aos que estão desprovidos dela, a pretensão inspira a aquisição, por si banalizante, das propriedades até então mais distintivas, além de contribuir, por conseguinte, para apoiar continuamente a tensão do mercado de bens simbólicos, obrigando os detentores das propriedades distintivas, ameaçadas de divulgação e vulgarização, a procurar indefinidamente a afirmação de sua raridade nas novas propriedades. (BOURDIEU, 2007, p. 235).

Sobre os capitais dos campos, Bourdieu (2004) aponta que cada campo possui um capital diferente. O capital científico seria uma espécie de capital simbólico que tem como base o conhecimento e reconhecimento interno do campo. Assim, é o reconhecimento dos pares dentro do campo científico. O campo científico não difere dos outros no que concerne às lutas, mas seu diferencial é que as disputadas por visões de mundo, sistemas de classificações, etc., foram definidas em comum acordo, por meio de métodos e hipóteses comuns.

Assim, os representantes desse campo possuem “construções sociais concorrentes” (BOURDIEU, 2004, p. 33) determinadas por métodos próprios ao campo. O campo científico também possui duas formas de capital distintas. A primeira seria o poder temporal ou político, caracterizado por posições importantes dentro de instituições científicas, laboratórios, comissões de avaliação e etc. Enfim, um poder que é institucionalizado. O outro capital seria ligado ao “prestígio” que está mais ligado ao reconhecimento pelos pares. (BOURDIEU,

2004). Segundo o autor, dificilmente os dois capitais coexistem.

Embora escreva sobre a importância da autonomia do campo, Bourdieu (2004), ao responder uma pergunta sobre a abertura desse campo aos problemas e demandas sociais, argumenta que o campo deve acumular o máximo de autoridade específica para que possa transformar essa autonomia, se for preciso, em força política. Essa força política se manifestaria na forma de uma comunidade científica que opina sobre a sua área de competência.

O autor acredita que os especialistas, ou “eruditos”, como se refere, deveriam começar a defender seus interesses específicos e, após, com base em seu trabalho, interferir nas demandas sociais. Assim, eles fariam parte do debate social ou político, esclarecendo problemas:

Eles poderiam, alias começar por contribuir diretamente para definir a famosa demanda social em matéria de pesquisa científica. Se existisse uma estrutura de deliberação coletiva, capaz de ultrapassar as divisões que evoquei, ainda agora, entre teóricos, práticos, básicos, aplicados, homens, mulheres e todo o resto e que enunciasse as questões, ao mesmo tempo, importantes e urgentes, certamente isso seria uma boa coisa tanto para a ciência como para a sociedade. (BOURDIEU, 2004, p. 75).

Ainda respondendo a questionamentos, o autor argumenta que há poucas demandas dirigidas aos cientistas, que sejam frutos de movimentos sociais, com exceção do movimento ecológico. O movimento ecológico estaria em condições de fazê-lo por ser constituído por pessoas com instrução e que já teriam como base conhecimentos da ciência. Para o autor, o grande questionamento é se é preciso limitar-se às demandas formuladas ou o papel do campo científico é também contribuir para explicitar aquelas demandas que ainda não são de conhecimento público.

A produção dos problemas que são colocados para o público é uma das grandes questões debatidas por Bourdieu (2004) e que pode trazer muitas reflexões para o nosso trabalho. Esses problemas seriam tradicionalmente colocados entre pesquisadores, jornalistas e políticos. Nesse cenário, os especialistas têm papel privilegiado dentro da nossa sociedade: são eles que têm o poder de falar para o campo jornalístico.

Para Bourdieu (2004), se esses são procurados e questionados pela mídia sobre algum assunto, eles têm a responsabilidade de responder, nem que seja para criar um problema: “Muitas vezes, a questão é idiota, mas creio que é preciso responder, ao menos para reformular a questão, é uma espécie de obrigação ética”. (BOURDIEU, 2004, p. 84).

“falsos problemas”. Ele volta sua atenção para o estudo da televisão para mostrar como muitas vezes seria preciso criar uma espécie de “resistência cívica” contra a imposição de problemas que são criados e muitas vezes não representam problemas cívicos. Pelo contrário, por serem “simplesmente bestas” ao mesmo tempo seriam “terrivelmente perigosos”. (BOURDIEU, 2004, p. 84).

A solução para esse problema, do ponto de vista do autor, seria a criação de lugares de discussão, em que seria possível discutir em termos profissionais os problemas gerais. Isso geraria uma reflexão coletiva que acabaria desencadeando tomadas de decisões públicas “competentes, rigorosas, autorizadas e engajadas, críticas e eficazes”. (BOURDIEU, 2004, p. 85).

Pelo papel que a mídia ocupa na sociedade, e por ter nas suas bases o que chamamos de função social do jornalismo, é interessante pensar como ela, a mídia, poderia ser o local de intersecção entre o campo científico e as demandas sociais. No sentido do entendimento dos campos sociais, vamos analisar as especificidades do campo jornalístico.

O campo político nos interessa principalmente em função de algumas fontes que são especialistas, mas não se localizam no campo científico, como é o caso de agentes sociais como os representantes da Defesa Civil ligados, no Brasil, ao Ministério da Integração Nacional. Tratam-se de agentes que se localizam em um pólo mais autônomo do campo político, não se utilizam do discurso político típico e costumam ser dotados de muita credibilidade, por terem conhecimentos específicos que podem, sobretudo, salvar vidas. As fontes típicas do campo político não são consideradas no trabalho, pois se tratam de fontes autorizadas, que não são objeto de nossa pesquisa.