7. VALIDADE DOS CONTRATOS ELETRÔNICOS
7.1. Autonomia privada
Tal como concebida em nosso ordenamento jurídico173, a autonomia privada permite aos particulares acordarem livremente sua vontade, nos limites da lei. Isso equivale a dizer que, dentro dos ditames legais, as partes gozam de liberdade para contratar e exprimir sua vontade por qualquer forma. Assim, a lei é o parâmetro de licitude dos pactos, que não precisam estar amparados por disposição expressa, bastando que não colidam com a norma.
Sobre o preceito da autonomia privada, Emílio Betti entende que
o preceito da autonomia privada, que constitui o conteúdo do negócio jurídico, tem uma série de caracteres, cuja falta pode determinar-lhe a inexistência ou a nulidade. Ele é um preceito: a) concreto, isto é, concernente a interesses determinados, sujeitos ao poder dos particulares e suscetíveis de passar de um para outro. É ainda um preceito: b) atinente à vida de relação e, neste sentido, social, e socialmente reconhecível (mas não jurídico), e portanto de tal sorte, que considera aqueles interesses em relação com os outros consorciados (o vínculo jurídico não é o conteúdo, mas o efeito do negócio, e pressupõe já uma valoração de relevância por parte do direito). É, finalmente, um preceito: c) vinculativo para quem o estabelece e dotado de uma eficácia legitimante para outros, mais ainda no terreno social, que no terreno jurídico: como tal, idôneo para se elevar a fato juridicamente relevante, em virtude de uma valoração e recepção por parte do direito. 174
Esse é o elemento central do contrato que, não raro, é definido como acordo de vontades.
173 Constituição Federal, art. 5º, XVII a XX, e Código Civil, arts. 104, 107, 110 e 421. 174 Cf. Emílio BETTI, op. cit., t. 1, p. 233.
Sobre a importância da autonomia privada para o direito das obrigações, Orlando Gomes assinala que,
os negócios jurídicos constituem a mais abundante fonte de obrigações. Quer bilaterais, quer unilaterais, geram-na. Na constituição das obrigações oriundas desses negócios, a capacidade do obrigado tem a marca de um traço distintivo da categoria, mas a singularidade propriamente dita dessa fonte de obrigações reside no caráter eminentemente voluntarista dos atos que compreende. A obrigação proveniente de negócio jurídico é querida pelo obrigado. Ele a contrai intencionalmente, agindo na esfera de sua autonomia privada.175
Mas, por si só, a vontade não basta. É necessário que ela seja reconhecida como tal pela ordem jurídica, por meio de fenômeno que Emílio Betti chamou de recepção. Não se trata, portanto, tão somente da vontade do declarante, mas também da interpretação feita por quem a recebe no plano social. Nas palavras de Betti
às manifestações da autonomia privada, qualquer que seja a forma como se produzam, adere, numa coerente concludência, no plano social, uma valoração de dever ser, que o direito não tem qualquer razão para repelir, mas que antes confirma, ao fazer seu, graças à recepção, o conteúdo preceptivo do negócio.176
Na mesma toada encontramos a manifestação de Antônio Junqueira de Azevedo, que, ao citar Cariota Ferrara, esclareceu importante distinção entre a vontade de declarar e a vontade de conteúdo. Para Antônio Junqueira de Azevedo,
a) podem se encontrar, num negócio jurídico, a vontade de manifestação e a vontade de conteúdo: é o caso normal; b) pode faltar a vontade de manifestação (por violência física, erro obstativo consistente em engano material, como se verá em seguida) e a fortiori faltará a vontade negocial (se eu não quis declarar vender, não quis certamente vender); c) pode estar somente viciada a vontade de manifestação e faltar a
175 Obrigações, p. 30. 176 Op. cit., t. 1, p. 225-226.
vontade negocial (eu sou levado a declarar doar a Tício, acreditando que esse era o nome do meu benfeitor; quis, portanto, declarar doar a Tício: erro obstativo referente ao nome ou outro sinal individualizador); d) pode estar perfeita a vontade de manifestação e faltar a vontade negocial (eu declaro doar a Tício porque a ele quero livre e conscientemente declarar doar; mas, na realidade, não quero doar nada ou não quero doar a ele: brincadeira, reserva mental etc.); e) a vontade de manifestação existe e está imune de vícios; a negocial existe, mas é viciada, porque sofreu, no seu processo de formação, a influência de um motivo que a desviou; erro-vício ou, mais propriamente, sobre qualidade substancial do objeto).177
Questão interessante e particular da contratação realizada no comércio eletrônico é saber onde está a vontade das partes na realização de negócios entre computadores que foram programados para enviar ofertas, recebê-las e emitir as respectivas aceitações. Sobre esses contratos, chamados de EDI (Electronic Data Interchange), Ricardo Luis Lorenzetti afirma que,
existe um intercâmbio de mensagens eletrônicas automáticas que podem ser consideradas como documentos, porém não há assinatura digital. A vontade do sujeito se manifesta no haver instalado o serviço de informática em sua empresa, mas não no ato concreto, já que o computador funciona automaticamente. Nesses casos se reveste de fundamental importância o comportamento concludente da parte que monta um sistema automatizado de informática para relacionamento com terceiros, criando uma clara aparência jurídica segundo a qual responderá pelas ações da máquina. E ainda assim, terá relevância se o sujeito respondeu pelos fatos produzidos pelo computador em casos anteriores. Existindo tais indícios, cabe presumir a imputabilidade e o sujeito deverá oferecer prova de desobrigação se no caso concreto não houve uma ordem expressa.178
Fábio Ulhoa Coelho acrescenta que,
a relação contratual, nesse caso, não está sujeita à legislação tutelar dos consumidores, tendo em vista que o comprador não é o destinatário final do objeto do contrato. Na medida em que, física ou economicamente, a mercadoria ou o serviço são reincorporados ao processo produtivo ou à cadeia de
177 Op. cit., p. 119.
circulação de riquezas, a relação é interempresarial e, portanto, disciplinada pelo direito cível.179