Avaliação do cenário físico-químico e bacteriológico durante a

No documento INSTITUTO DE PESQUISAS ENERGÉTICAS E NUCLEARES Autarquia associada à Universidade de São Paulo (páginas 80-86)

A) Cianobactérias e cianotoxinas no reservatório da UHE Lajeado,

7.2 Avaliação do cenário físico-químico e bacteriológico durante a

A identificação dos fatores ambientais promotores de florações de cianobactérias tem sido objeto de muitas pesquisas. Sabe-se, entretanto, que um fator isolado não age como um promotor real. A dominância de cianobactérias tem sido associada a fatores ambientais como regime de mistura com estratificação duradoura (Reynolds, 1987; Beyruth, 2000) ou diária (Ganf, 1974);

escassa disponibilidade de luz (Zevenboom & Mur, 1980; Smith, 1983; Beyruth, 2000) e baixa razão zona eufótica/zona de mistura (Jensen et al., 1994); altas temperaturas, principalmente entre 15 ºC e 30 ºC (Yoo et al., 1995; Shapiro, 1990;

Beyruth, 2000); baixas concentrações de CO2 e alto pH, principalmente entre 6 e 9 ou maior (Yoo et al., 1995; Shapiro, 1990; Caraco & Miller, 1998); altas concentrações de fósforo total (Trimbee & Prepas, 1987; Watson et al., 1997), baixas de nitrogênio total (Smith, 1983) e de nitrogênio inorgânico dissolvido (Blomqvist et al., 1994); e baixas razões N/P (Smith, 1983). Aliadas às condições ambientais favoráveis, algumas características fisiológicas têm sido consideradas como potencializadoras da dominância das cianobactérias em sistemas eutrofizados. No entanto, este grupo de algas também pode ocorrer em sistemas oligotróficos e mesotróficos (Blomqvist et al., 1994; Huszar & Caraco, 1998), desde que sejam sistemas com elevado pH e baixos teores de CO2 livre.

Comparando os resultados das variáveis físico-químicas (TAB. 10) evidenciadas no ponto de maior incidência da floração (ponto 3), com alguns dos registros acima descritos pela literatura, pôde-se observar similaridades na alta temperatura da água (30 °C), no alto pH (9,25) e nas altas concentrações de fósforo total (0,153 mg.L-1). A maior densidade de cianobactérias foi registrada na campanha realizada no dia 03 de junho, apresentando 164.315 cél.mL-1. Na

65 última campanha (14/06), a floração apresentara densidade de 87.920 cél.mL-1. Após o dia 20 de junho, a floração não foi mais perceptível visualmente (TAB. 10).

Nos demais pontos não foram evidenciadas densidades de cianobactérias acima de 50.000 cél.mL-1.

As concentrações de fósforo total resultaram elevadas no efluente da lagoa de estabilização da ETE Aureny durante as quatro campanhas avaliadas (6,333 a 8,974 mg.L-1). As concentrações no ponto 3, também estiveram altas, porém, reduzidas ao passar o período da floração (0,153 a 0,076 mg.L-1). Nos dois pontos, a montante do lançamento da ETE, ocorreram altas concentrações de fósforo total no ponto 2 (0,378 mg.L-1 em 12/06) e no ponto 1 (0,055 mg.L-1 em 14/06). De acordo com o coeficiente de correlação de Pearson, houve correlação fortemente negativa entre os resultados de fósforo total do efluente da lagoa e do ponto 3 (r = - 0,96). máximas de células por mililitro de água no ponto 1 ocorreram em novembro de 2007 (28.600 cél.mL-1), setembro de 2008 (22.016 cél.mL-1) e em outubro de 2008 (24.702 cél.mL-1). Neste mesmo trabalho, o autor comparou os resultados da concentração de fósforo total nos pontos 1 e 3 durante as coletas mensais do ano de 2008. Os resultados revelaram que as concentrações de fósforo total no ponto 1, a montante do lançamento de efluentes da ETE Aureny, foram superiores ao ponto 3 (jusante a ETE Aureny) em onze amostras, sendo o inverso ocorrido em apenas uma amostra. Estes resultados permitiram ao autor concluir que o fósforo total por si só não teria sido determinante para o surgimento das florações no ponto 1 e 3, e que o fósforo total lançado pela ETE contribuía em menor proporção para o ponto 3 do que os lançamentos difusos e pontuais proporcionavam ao ponto 1. Resumindo, o regime hidrodinâmico mais lento associado a outros fatores, permitiram ao ponto 3 desenvolver um maior número de florações em relação ao ponto 1. Ainda nesta mesma linha, Marques (2011), durante o estudo no reservatório da UHE Lajeado, registrou o aporte de fósforo

66 acima de 7 mg.L-1 nos córregos Mutum (CMU), Serrote (CS) e Machado (CM), ambos afluentes do ribeirão Taquaruçu.

Os resultados das análises de microcistina LR demonstraram concentrações abaixo de 0,5 µg.L-1 em todos os pontos, enquanto que os resultados da concentração de saxitoxina (STX) estiveram abaixo de 3,0 µg.L-1 nas únicas amostras analisadas (P3 e P5). Estes resultados conferem ausência de toxicidade para esta floração (TAB. 10).

TABELA 10 - Resultados dos parâmetros físico–químicos nas amostras de água bruta e efluente coletadas na área de estudo durante a campanha realizada no dia 03 de junho de 2012 OBS: *demanda química de oxigênio; P4 – saída da lagoa de maturação da ETE Aureny; - não realizada

Neste estudo, ainda foi possível verificar que as concentrações de oxigênio dissolvido, demanda química de oxigênio, os níveis de turbidez e o pH da água no ponto 3 apresentaram-se elevados quando comparados aos demais pontos e similares aos resultados do efluente da ETE Aureny. Os demais parâmetros apresentaram-se uniformes e característicos aos ambientes estudados, com exceção da condutividade e sólidos totais dissolvidos no ponto 3 (TAB. 10).

67 A TAB. 11. Apresenta dos resultados da contagens/concentração de cianobactérias, clorofila-a, Escherichia coli e fósforo total nas amostras de água bruta durante todas as campanhas realizadas em 03; 06; 12 e 14 de junho de 2012.

TABELA 11 - Resultados da contagens/concentração de cianobactérias, clorofila a, Escherichia coli e fósforo total nas amostras de água bruta durante todas as campanhas

Data \ pontos

Parâmetros monitorados nas amostras de água bruta Cianobactérias (cél.mL-1)

P1 P2 P3 P4 P5 P6 P7

03/06/2012 6095 17724 164315 ausência de

filamentosas 10053 250 217 06/06/2012 2553 9623 47316 ausência de

filamentosas 1130 1439 8172 12/06/2012 206 2456 119350 ausência de

filamentosas 7568 5813 10638 14/06/2012 295 2358 87920 ausência de

filamentosas 8870 1990 5450 data\pontos data\pontos Escherichia coli (NMP.100 mL-1)

P1 P2 P3 P4 P5 P6 P7

03/06/2012 36,4 28,8 100 12110 <1 <1 6,3 06/06/2012 140,1 55,6 7,3 13960 151,6 9,6 4,1

12/06/2012 920,8 101 4,1 51720 1 6,3 1

14/06/2012 501,2 67,7 1 9080 1 1 12,1

data\pontos Fósforo total (mg.L-1)

P1 P2 P3 P4 P5 P6 P7 (Lamparelli, 2004), representado na TAB. 12, foi possível verificar semelhanças nas concentrações de fósforo total e biomassa algal nas amostras coletadas nas praias da Graciosa (P7), Prata (P6), Caju (P5) e no ponto a montante do lançamento de efluentes da ETE Aureny (P1), em razão destes terem sido

68 enquadrados como ambientes mesoeutróficos. Isso demonstra que os pontos mais afastados da zona impactada não sofreram incremento de fósforo suficiente para dar condições a expansão da floração. Para ambientes mesoeutróficos, CETESB (2007) define-os como corpos d’água que apresentam produtividade intermediária a alta, e, em geral, impactados por ações antrópicas, e passíveis de ocorrerem alterações indesejáveis na qualidade da água decorrentes do aumento da concentração de nutrientes, que podem interferir nos seus usos múltiplos.

TABELA 12 - Estado de trofia dos pontos amostrados no reservatório da UHE Lajeado e do efluente da lagoa de estabilização da ETE Aureny, segundo Índice de Carlson (1977) modificado por Lamparelli (2004), considerando os resultados de fósforo total e clorofila a

IET composto (fósforo total + clorofila a)/2 Data / pontos instalação de um condomínio residencial. Ainda em desfavor ao ponto, a foz do córrego Tiúba, localizado na margem posterior à praia, carreia consigo efluentes do terminal rodoviário, de uma galeria comercial e de um grande comércio atacadista. Estes impactos associados, muito provavelmente contribuíram para os níveis de trofia registrados.

oligotrófico mesotrófico

eutrófico supereutrófico

hipereutrófico

69 De acordo com o IET, a região de coleta representada pelo ponto 3 comportou-se como ambiente hipereutrófico durante os seis primeiros dias da floração. Segundo CETESB (2007), neste período, a qualidade de sua água estava impactada significativamente pelas elevadas concentrações de matéria orgânica e nutrientes, e, consequentemente, indesejável para os seus múltiplos usos. Com os dados de fósforo total e clorofila a do monitoramento realizado por Silva-Lins (2009), foi possível verificar que o estado trófico deste ambiente, no ano 2008, durante os meses de janeiro a novembro, esteve caracterizado como hipereutrófico. Durante este período ocorreram três florações de cianobactérias que apresentaram densidades superiores a 50.000 cél.mL-1. Segundo o autor, nestas florações não foram verificadas escumas na superfície da água.

Consultando o relatório do INMET (2012), a estação meteorológica, localizada na área norte da cidade, registrou no dia 01 de junho de 2012, precipitações de 0,2 a 0,6 mm. Neste mesmo dia, na estação de tratamento de água (ETA 006), localizada na confluência do ribeirão Taquaruçu, região sul da cidade, segundo relatório técnico da Odebrecht Ambiental | Saneatins (2012), houve o aumento de turbidez da água bruta em 41,72 %, às 11h57min da manhã.

Neste mesmo dia, foi observada uma forte chuva extemporânea na região próxima à ETA 006, e isso pode ter contribuído com a elevação dos níveis de fósforo em direção ao ponto 3, e colaborado para a formação de mais uma floração de cianobactérias.

Segundo Huber et al. (2012), alterações nos ciclos de precipitação e seca modificariam a hidrodinâmica, padrões de mistura e estratificação, e aumentariam o aporte de nutrientes, estabelecendo cenários perfeitos para a fisiologia e morfologia das cianobactérias. Ainda, os mesmos autores argumentam que mudanças metereológicas de curta duração é que determinam se esses organismos irão florescer com maior frequência e não o aumento da temperatura.

De acordo com Silveira (2013), ainda que as condições nutricionais do sistema sejam deficientes, os efeitos diretos das condições climáticas estão direcionando a comunidade para a dominância das populações de cianobactérias.

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B) Avaliação da remoção de células de cianobactérias e cianotoxinas por

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