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4. A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE TSONGA

4.3 Bairro Luís Cabral: Localização geográfica e perfil sócio-econômico

O bairro Luís Cabral é uma das zonas periféricas da cidade de Maputo que não fugindo à regra do que acontece com os outros bairros periféricos, o seu crescimento é desregrado caracterizado por infra-estruturas precárias. Segundo o II Recenseamento Geral da População e Habitação realizado em 1997 o bairro era constituído por uma população de 33.553 habitantes, sendo 16.465 homens (49,1%) e 17.088 mulheres (50,9%)265.

Este bairro surgiu no tempo colonial, provavelmente nos anos 60 quando a maioria dos bairros periféricos em redor da cidade de Lourenço Marques começou a emergir. A designação do bairro desde o seu surgimento foi de Chinhambanine e só foi depois da independência que o então presidente da república Samora Machel acompanhado pelo seu homólogo guineense Luís Cabral atribuiu o seu nome a este em sua homenagem266. Na divisão administrativa da cidade de Maputo, o bairro Luís Cabral situa-se no Distrito Urbano número 5, juntamente com os bairros 25 de Junho, Benfica, T3, Inhagóia, Bagamoio e Malhazine.

Neste bairro o comércio informal e o subemprego são características dominantes de uma população que está em busca permanente das mais diversas

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O DIREITO A ALIMENTOS E A MULHER EM MOÇAMBIQUE apud ALFREDSON, Ulla, LINHA, Op. Cit. p. 23.

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ALFREDSON, Ulla, LINHA, Op. Cit. p. 25.

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ARAÚJO, Manuel. Cidade de Maputo. Espaços contrastantes: do urbano ao rural. Finisterra, revista portuguesa de geografia, volume XXXIV, números 67-68, Lisboa, 1999, p. 183.

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alternativas de sobrevivência267. É também um daqueles bairros periféricos que se situa ao longo de um grande eixo viário que é a Estrada Nacional №1, estrada que liga o país, de sul a norte. É ao longo desta via que muitos dos residentes do bairro, sem empregos formais, procuram sua fonte de sobrevivência realizando o comércio informal. Nas primeiras horas da manhã, como é característico de outros bairros periféricos, o movimento das pessoas é intenso no sentido do eixo viário para o centro da cidade que é também fonte de sustento para muitos residentes.

O perfil social dos residentes do bairro demonstra que tem carências enormes, que dentre as quais se destaca a ausência de uma rede de água que abasteça o bairro todo. Em muitas residências onde se efetuou as entrevistas adquiriam a água nas casas dos vizinhos que têm torneiras; outros indivíduos obtiam-a em alguns fontanários existentes na área. As famílias visitadas apresentam uma composição numérica de indivíduos grandes que associada ao salário ou aos ganhos feitos mensalmente não cobrem as despesas pelo menos básicas para a sua sobrevivência. Como me referí anteriormente na segunda fase do trabalho do campo realizado em Setembro de 2006 usei no bairro uma amostra de 40 indivíduos, dos quais 20 são changanas e outra metade são tswas. Entre os changanas 12 são do sexo feminino e 08 do sexo masculino; já entre os tswas 11 são homens e 09 mulheres.

Atentemo-nos à questão 10 do questionário que procura a informação do número do agregado em cada casa do entrevistado; os dados colhidos desta relacionados com a questão número 18 que procura saber sobre a renda mensal feita mostram uma correlação negativa, isto é, as famílias têm muitos membros e os rendimentos ou seus salários268 são baixos.

Veja na pagina seguinte as tabelas que mostram os perfil sócio-econômico de changanas e tswa entrevistados:

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CRUZ e SILVA, Teresa. Entre a exclusão Social e o exercício da Cidadania: “Igrejas Zione” do Bairro Luís Cabral, na Cidade de Maputo. Estudos moçambicanos 19, Maputo, Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane, 2002, p. 70.

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O salário mínimo em Moçambique em 2006 quando se efetuou a Segunda fase do trabalho de campo era de 1402 meticais correspondentes a 60$ americanos

Grupo changana Sexo do entrevistado Idade N° de famílias Pessoas no agregado Rendimento mensal (Salários Mínimos) Feminino > 51 04 05-07 01 Feminino > 51 02 05-07 02-03 Feminino > 51 02 05-07 > 03 Masculino > 51 04 05-07 > de 03 Feminino 26-30 01 02-04 02-03 Feminino 26-30 01 02-04 01 Feminino 21-25 02 05-07 02-03 Masculino 26-30 01 02-04 > 03 Masculino 26-30 01 01 01 Masculino 21-25 02 05-07 > 03 Grupo tswa

Sexo Idade N°de

famílias Pessoas no agregado Rendimento mensal (Salários Mínimos) Masculino >51 03 > 07 02-03 Masculino >51 03 > 07 01 Feminino >51 03 > 07 >03 Feminino >51 02 > 07 02-03 Feminino 21-25 02 05-07 >03 Feminino 26-30 01 02-04 >03 Masculino 26-30 02 02-04 02-03 Masculino 21-25 01 05-07 02-03 Masculino 21-25 01 >07 02-03 Masculino 41-45 01 02-04 >03 Feminino 41-45 01 02-04 >03

Relacionando-se a composição dos agregados familiares com os seus rendimentos familiares notei que entre os tswa há uma tendência de apresentarem maior número de indivíduos e rendimentos menores comparativamente aos changanas. Exemplificando, entre os changanas na faixa etária de mais de 51 anos de idade, a composição do seu agregado no conjunto dos 12 entrevistados está entre 05 e 07 pessoas e apenas 04 destes referiram que os rendimentos eram apenas de 1 salário mínimo e 08 restantes referiram que os seus salários partiam de 02 e ultrapassavam a 03 salários mínimos. Nos tswa, na mesma faixa etária foram entrevistados 11 indivíduos e todos afirmaram que moravam nas suas casas mais de 07 pessoas e só 03 entrevistados tinham uma renda mensal de mais de três salários mínimos e os 08 restantes, a renda girava apenas do salário mínimo até 03 salários mínimos sem ultrapassar.

Esses dados revelam também um cenário muito importante quando se procura saber quem é que mais contribui com a renda familiar. No grupo etário dos mais de 51 anos de idade afirmaram que quem contribui mais com a renda familiar

são os filhos e/ou netos, fato que tem lógica, tomando em conta que muitos nesta faixa afirmaram ser aposentados, domésticas e algumas vendedoras. Note-se que é nas famílias com indivíduos de mais de 51 anos que o número de pessoas é maior. Qual é a razão deste fato? A realidade social desta faixa etária mostra que além de ter uma preferência de ficar com seus filhos, vivem também com seus netos ou mesmo familiares que podem ser seus, irmãos, primos; daí encontrar um número elevado de pessoas em suas residências.

A faixa etária dos jovens tende a formar famílias menores como os números acima mostram. Mas, mesmo os salários que estes mencionaram, devido ao nível de inflação e pelo fato dos mesmos não corresponderem aos preços aplicados no mercado chegam a não serem suficientes para a satisfação às vezes das necessidades básicas, o que mostra que eles procuram outras fontes para a sobrevivência para além daquelas que mencionaram.