PERCURSO METODOLÓGICO
4. As bancas e as suas múltiplas realidades: entre a fábrica e o domicílio
4.4 Bancas sem CNPJ – reduto da arbitrariedade
“Funcionando em geral em contigüidade com o espaço doméstico, o ir e vir nesses espaços leva a interpenetração harmoniosa das atividades, que induz os pequenos produtores a perceberem o ato produtivo como que regido por uma ordem diferente e por ritmos e tempos outros. Aqui as tensões e contradições parecem se mascarar e se transformar, em dimensões afetivas e lúdicas, num espécie de coreografia bem regida”. (Moreira, 1998: 242)
Visitamos duas bancas domiciliares sem registro, e diversos trabalhadores dessas bancas, que nos relataram como se desenvolvem as relações nessas unidades produtivas. A grande maioria dessas bancas é alocada nos fundos do domicílio do banqueiro, não têm registro de empresa e utilizam mão de obra de parentes, vizinhos e amigos, sem nenhum tipo de regulação legal. Essas bancas são também a origem da terceirização do setor na cidade, foi a partir delas que a terceirização se difundiu por todo o setor. Mas como dissemos anteriormente, antes da década de 80, essas bancas eram redutos de mulheres, aposentados e crianças e hoje ela acolhe todas essas categorias citadas na qualidade de trabalhadores e o homem em idade ativa não só como operário, mas também na posição de banqueiro.
O número de bancas informais já foi bem maior na cidade, tendo em vista o movimento de legalização dessas unidades produtivas pelo qual vem passando o setor. Ainda hoje as bancas informais são numerosas, conforme os relatos obtidos, mas averiguar ao certo o seu número é uma tarefa difícil dada à invisibilidade desse empreendimento.
Em campo visitamos duas bancas nessa situação e entrevistamos diversos trabalhadores que atuam nessas unidades produtivas. Nós chamaremos essas bancas de H e I.
A banca H localiza-se num bairro periférico, Vila São Sebastião, e está instalada num cômodo no fundo da casa do banqueiro, que chamaremos de Edson. O contato foi dado por uma costuradeira domiciliar entrevistada, que já havia trabalhado para Edson há dois anos atrás. A casa do banqueiro era bem simples e a banca ocupava um cômodo
em más condições no fundo da residência. O cômodo era pequeno, contava com duas janelas, tinha o chão batido de terra, havia duas máquinas de pesponto e na frente delas uma mesa, onde eram feitos os serviços de cola e de auxílio ao pesponto. Estava muito quente e abafado dentro desse cômodo e o barulho de um radinho de pilha mal sintonizado ao fundo tornava o ambiente ainda mais desolador. Aliás, o radinho de pilha é presença constante nas pequenas bancas, com CNPJ ou não.
Edson tem 46 anos, 18 anos como trabalhador interno da indústria calçadista francana e 15 anos como banqueiro informal. A esposa deu início a banca há 18 anos, enquanto ele prosseguia trabalhando na fábrica. Quando foi despedido do seu último emprego, começou a se envolver com o serviço da banca e acabou ficando. Hoje a esposa trabalha como funcionária interna em uma fábrica de calçados, ela é responsável pela terceirização da fábrica, selecionando e coordenando as bancas que prestam serviço à indústria. E Edson prossegue com o empreendimento familiar. Segundo o entrevistado, a esposa voltou a trabalhar na fábrica porque o seu pai, que trabalhava na banca com eles, faleceu e o ambiente da banca ficou muito atrelado à figura paterna para a esposa, que resolveu procurar outro emprego.
Edson nesses quinze anos de atuação como banqueiro nunca conseguiu contribuir para a previdência social como autônomo, “nunca sobrou dinheiro”. Ele tem 18 anos de contribuição relativa ao tempo em que foi trabalhador interno da indústria.
Durante todos esses anos, Edson teve dois empregadores principais, a Nmartiniano e Tropicália, sem contar as inúmeras pequenas indústrias para as quais trabalhou esporadicamente. A Nmartiniano era uma grande e tradicional indústria francana que faliu, já a Tropicália é uma indústria média e também bastante antiga na cidade. Faz seis anos que Edson presta serviço à Tropicália. Os termos da relação com essa empresa é estabelecido verbalmente, e não há segurança para nenhum dos lados. Cabe ao banqueiro arcar com as despesas de produção, linha, cola, energia, manutenção do maquinário, assim como o salário dos funcionários. Ao ser questionado sobre a ausência do registro, Edson afirmou que são poucas as bancas que trabalham para a Tropicália que estão nessa situação, pois na maioria dos casos a indústria não aceita esse tipo de banca.
Como o empreendimento funciona fora dos parâmetros legais, os banqueiros procuram contratar parentes e amigos, evitando assim possíveis dissensos trabalhistas, pois as pessoas com as quais mantêm relações pessoais e afetivas dificilmente entrariam em conflito judicial com eles. Hoje a banca conta com duas funcionárias, sendo uma prima e outra afilhada do banqueiro. “Nos temos que pegar pessoas de confiança. Igual,
elas trabalham aqui, elas almoçam lá dentro da minha cozinha, o banheiro é lá. Eu não posso pegar uma pessoa que eu não conheço. Eu sempre trabalhei mais em família, mas eu já tive gente de fora também, mas sempre indicado por alguém que já trabalhou aqui, que já conhece mais ou menos a pessoa. Elas moram perto, elas vêm junto e volta junto. Às vezes, eu falo assim para elas: “se você achar um serviço que você ganha melhor, você me avisa uma, duas semanas antes e que você seja feliz e ganhe melhor”. Não tem problema nenhum. E a mesma coisa eu faço também, se não tiver serviço ou se tiver devagar o serviço, eu falo: “Infelizmente, eu não posso ficar com todo mundo”. E eu não tenho tido problema.
Ao mesmo tempo em que existe grande intimidade entre o banqueiro e seu trabalhador, a relação é bem descomprometida, os vínculos são frágeis, podendo ser rompido ao bel prazer de um ou do outro envolvido. É uma relação frágil e que deve ser regida com cautela para não acabar em desavenças: “Os gestos e a maneira de tratar os
trabalhadores substituem as relações de trabalho. As relações afetivas apagam os conflitos que possam existir com o patrão, com todas as conseqüências que se pode supor sobre a construção da identidade do trabalhador” (Moreira, 1998: 248)
Via de regra, os trabalhadores das bancas não se dispõem a entrar em conflitos com os parentes ou com os proprietários, as referências sobre os empregadores são quase sempre positivas. É comum representá-los como verdadeiros amigos, sendo então obrigados a, em caso de insatisfação, fazer uso de mil justificativas, o que mostra a dificuldade que sentem de encarar os seus empregadores como patrões. É assim que eles revelam o desejo por soluções individuais. Estamos diante de uma organização de trabalho baseada numa lógica em que se misturam elementos de uma racionalidade que predomina no mundo industrial e a interferência de uma outra ordem, a das relações afetivas. Desse modo, o que observamos nesse lócus de produção é uma espécie de jogo
estratégico: aquele de uma cumplicidade silenciosa, regulamentada pela ética familiar, onde funcionam alternadamente a instrumentalização e os afetos. Ao transformar as relações de trabalho naquelas de companheirismo, os proprietários abafam os conflitos e estimulam nos trabalhadores a imagem de não serem mais percebidos como diferentes, mas como semelhantes que partilham os mesmos interesses e os mesmos projetos. Veja, por exemplo, o relato de uma ex-trabalhadora de Edson: “O patrão te trata muito bem,
te trata como se você fosse da família. Eu freqüentava a casa dele, eu freqüento até hoje, porque a gente só perdeu o convívio do dia-dia, mas a amizade continua a mesma, ele vem aqui. Foi muito bom.”71
Em princípio, nessas pequenas bancas informais as relações de trabalho não seriam constrangidas pela lei, ou seja, a lógica do mercado aí se desenvolveria livremente. Mas, conforme pudemos observar na pesquisa, o trabalho nessas unidades produtivas não é livre de normas e, mais que isso, se orienta pela legislação trabalhista, tanto o banqueiro quanto o trabalhador vêm como justo o que é legal. Mesmo que os banqueiros não cumpram a lei, é ela o parâmetro do “correto” e do “justo”. O horário de trabalho é o mesmo definido pela fábrica, quando esse período é extrapolado o banqueiro cede um acréscimo ao ganho dos funcionários; o piso salarial do sapateiro funciona como parâmetro para definir o salário dos trabalhadores, mesmo que nos períodos sem produção o piso não seja respeitado. Assim, “O contrato informal de trabalho, a
despeito de ser por definição livre dos constrangimentos legais, dando assim ampla margem à decisão unilateral do empregador, é também orientado pelas normas sociais que definem o que é lícito, ilícito, legitimo ou não nas relações de trabalho (Noronha, 1998:179)”.
Tanto o banqueiro quanto as suas funcionárias ganham por produção, sendo que o mínimo não é garantido, algumas vezes podem até mesmo não obter rendimentos, o que leva Edson a duvidar dos reais privilégios da posição de banqueiro. “Olha, dentro de
71 Essa forma do banqueiro dirigir o seu empreendimento se assemelha à tipologia dos empresários criada
por Fernando Henrique Cardoso (1963), em que divide os empresários em duas categorias: “capitães da indústria” e “homens de empresa”. Grosso modo, os “capitães da indústria” dirigiriam as suas empresas segundo critérios estritamente pessoais e suas práticas administrativas estariam longe da racionalidade exigida pelo empreendimento capitalista, que deveria ser guiado pela impessoalidade e pela racionalidade administrativa em busca do lucro (citado por Barbosa, 2006: 145).
fábrica é melhor pelo seguinte... Na área que eu trabalhava era melhor, porque você tem um salário todo mês fixo, por exemplo, se 1500 reais, é aquele salário fixo. Agora, na banca, igual eu aqui, quando você tem bastante serviço, é melhor, porque você tira até razoável, mas às vezes você trabalha seis meses e praticamente não trabalha, porque janeiro, fevereiro, você praticamente não tem serviço. Setembro também costuma fracassar bastante. Nesses meses que você fica sem trabalhar, você descontrola muito. Tem que economizar o máximo possível. Agora ela (a esposa) trabalha também, então dá para a gente controlar. A gente trabalha mais ou menos... Você não pode fazer muita conta, gastar o mínimo possível. Se você gastar além, pensando que no mês que vem você vai ter um salário razoável, daí você não tira e pronto. Tem que trabalhar bem seguro. Tem que comprar as coisas à vista, não dá para comprar muito a prazo. Você recebeu, você paga as contas e compra as coisas que você tem que comprar, agora prestação o mínimo que você tem que fazer é duas, três, mais você não pode ter.”
Quando os períodos sem produção se prolongam, Edson afirmou fazer bicos variados, como servente de pedreiro, vendedor, entre outros.
Edson não acredita na possibilidade de maiores vencimentos na banca do que na fábrica. “Para te ser sincero, eu não fiz cálculos não, mas acho que empata. Depende
do que você for fazer, porque hoje está muito complicado porque a concorrência é muito grande, se eu for tomar conta de uma seção dependendo da firma, às vezes, você tira mais do que aqui, mas tem firma que você não tira, vai depender de firma para firma. O salário varia muito também. Esse mês agora praticamente nós não trabalhamos, no mês que você trabalha normal, às vezes, dá para você tirar 1000, 1200 reais.” O entrevistado não descarta a possibilidade de retorno ao trabalho industrial clássico. O banqueiro, via de regra, tem sua renda diretamente dependente de seu capital, do seu trabalho, de sua capacidade empresarial e dos riscos do seu negócio, o que significa maior risco financeiro e rendimentos mais incertos que o assalariado. Os banqueiros criam seu próprio emprego para atender uma demanda de bens e serviços que sempre guarda um grau de imprevisibilidade.
É consenso, entre banqueiros e trabalhadores, que nas bancas se trabalham mais horas do que dentro da indústria, que deve respeitar rigorosamente as 40 horas semanais.
Os banqueiros têm consciência de que os maiores vencimentos que alcançam na banca se devem ao fato de exceder o horário normal de trabalho. Mas Edson percebeu que além do excesso de trabalho, existe um acúmulo de funções que não existe na indústria.
“Em banca eu acho que trabalha mais, porque na banca você tem que fazer todos os serviços. Se você pegar uma coladeira que trabalha dentro da fábrica, colocar ela aqui, ela não rende, porque ela sabe colar uma peça só, na fábrica é seqüência, cada coladeira cola uma peça. Agora aqui, elas colam o sapato inteiro.Tem muitas pessoas, então é seqüência. É igual o pesponto, na fábrica cada pespontador faz um tipo de ponto, aqui eu faço todos.”
Diante de tantas desvantagens, questionei o entrevistado a respeito das vantagens da profissão de banqueiro. Edson, assim como os demais banqueiros entrevistados, destacou a liberdade como a principal vantagem da sua ocupação.
Quando inquirido sobre o futuro, deu uma resposta que considero muito significativa e que demonstra a imprevisibilidade de seu negócio e a impossibilidade de fazer planos e de ver um horizonte estável diante de si: “Eu não sei como que vai estar daqui um
ano, eu sei de hoje, que hoje eu comecei a trabalhar, amanhã eu não sei.”
A banca I localiza-se em um bairro central da cidade, Santa Rita, e têm características bem peculiares comparada as demais bancas visitadas na pesquisa. A banca é dirigida por uma mulher, que chamaremos de Idalina, e ocupa parte da cozinha de seu domicílio. Ali não existe nenhuma separação entre o espaço doméstico e o do trabalho: de um lado temos o fogão, a geladeira, no meio as máquinas de pesponto, a mesa de cola e logo em frente um quarto. Essa interpenetração da esfera do lar e do trabalho altera o cotidiano e as relações familiares ao transformar o espaço doméstico em unidade produtiva. Nas bancas assim constituídas não existe horário de trabalho, o que contribui para a variação e intensificação do expediente.
Idalina tem 74 anos e trabalha com calçados desde os 15 anos. A sua longa trajetória no setor nos permite lançar um olhar sobre épocas diversas do desenvolvimento do setor. A entrevistada, a exemplo de muitos trabalhadores da indústria da cidade, vem do estado de Minas Gerias, onde trabalhava no campo.
A entrevistada, depois que chegou ao Estado de São Paulo, começou a pespontar para uma sapataria em Cristais Paulista, cidade ao lado de Franca.72 Antes das indústrias, existiam as famosas sapatarias, onde o calçado era produzido manualmente e sob encomenda. Alguns anos depois a entrevistada mudou-se para Franca, onde continuou a pespontar em casa para sapatarias da cidade. Com vinte anos, Idalina começou a trabalhar internamente para as indústrias calçadistas da cidade, onde completou a sua trajetória profissional até aposentar-se com 64 anos.
Idalina tem orgulho de ter ensinado, segundo ela, mais de duzentos jovens na profissão do calçado. Ela sempre pegou “meninos” para ensinar a pespontar em casa e ainda hoje ela ensina os netos e sobrinhos. Esses “meninos” eram todos menores de idade. A entrevistada acredita que é melhor aprender uma profissão do que ficar na rua “fazendo coisa que não deve”. Ademais, a entrevistada faz questão que os seus aprendizes freqüentem regularmente a escola. Aliás, é opinião generalizada entre os agentes produtivos desse setor de que não há problema algum no trabalho do menor nas bancas, que é visto como uma possibilidade de aprender uma profissão, desde de que não deixem de freqüentar a escola. Muitos de nossos entrevistados começaram a trabalhar em bancas de pesponto, incentivados pelos pais, quando ainda eram crianças, e não recebiam salário, a não ser alguns pequenos agrados, balas, doces. A família, nesse caso, é transmissora da ideologia do trabalho, que, por sua vez, provê o menor de status dentro da hierarquia familiar. Nas classes populares o trabalho de jovens e crianças é visto como “formador”, facilitando o início da vida profissional.
Tanto Idalina, como os demais banqueiros e trabalhadores entrevistados, deixam claro que o trabalho infantil não é problema desde que a criança não abandone os estudos. Portanto, nesse segmento encontramos uma valorização do trabalho, mas também dos estudos, principalmente entre os banqueiros mais bem situados, que preferem deixar os filhos longe dos afazeres da banca para se dedicarem ao estudo, se
72 Franca exerce grande influência nas cidades ao seu redor, que acabam funcionando como fornecedoras
de mão de obra a sua indústria. Nos relatos dos industriais, encontramos referência a existência de bancas prestadoras de serviço nessas cidades ao redor de Franca, principalmente as cidade mineiras, pois ficam fora da influência do sindicato francano, o que possibilita o pagamento de menores salários e fuga da fiscalização das condições de trabalho pelo sindicato.
formarem e seguirem outros ramos profissionais, perseguindo assim uma mobilidade social por intermédio dos filhos.
A banca foi aberta por Idalina depois de se aposentar e nunca foi regularizada. No início ela pegava serviços de diversas fabriquetas pequenas, que apareciam ali na sua porta, mas hoje ela presta serviço exclusivamente para a Indústria de Calçados Terragoni, Fio Terra, de porte médio. A indústria pertence a um sobrinho que, segundo a entrevistada, lhe dá serviço para ajudá-la, para não ficar ociosa na aposentadoria. O sobrinho, segundo Idalina, não aprecia a ausência de registro da banca, e afirma que todas as demais prestadoras de serviço da Terragoni têm registro de empresa, ela é exceção.
A banca sempre foi familiar. Hoje trabalham na banca, Idalina, dois netos, um sobrinho e uma vizinha, todos sem registro, sendo que os netos e o sobrinho começaram a trabalhar ali com doze anos de idade e hoje já têm mais de 16 anos (idade permitida em lei para o trabalho).
Idalina relatou a visita de um fiscal do trabalho a sua banca, onde encontrou os seus netos menores trabalhando. Diante da censura do fiscal a mesma afirmou: “Ele ficou me
enchendo a paciência: “Então, faz assim, o senhor me leva todos os três, vai pagar para ensinar”. Olha lá (apontando a rua), aquela meninada tudo andando a toa e fazendo só o que não precisa, os que está aqui...Olha, eu já ensinei mais duzentas pessoas, está tudo trabalhando, não tem nenhum maconheiro, não tem nenhum ladrão. Só que lá nas fábricas é 45 uma hora por dia, três vezes na semana. “O senhor vai pagar e vai conservar eles lá, porque eu não quero pôr eles na rua”. “Agora eu vou lá na delegacia para eu falar para eles que você vai pagar para mim”. Ele não voltou aqui mais. (risos)
Não é gente. De criança, às vezes, eu pego com 12 anos para ensinar, às vezes, eles fica, depois que eles começam a aprender alguma coisa, eles ganha. Além de eu não ganhar para ensinar, eu ensino e depois eu vou pagando os pouquinhos que eles fazem para incentivar eles. E sai tudo empregado, não tem um que não sai empregado.” Nesse caso, não é só a dificuldade financeira que explica o trabalho de jovens e crianças, mas também a conotação simbólica atribuída ao trabalho. “Efeito de socialização ou
ideologização – conforme se prefira – o que se vê, assim, é a necessidade transfigurada em virtude (Gouveia, 1983: 61).”
Idalina, em acordo com a opinião partilhada pelas mulheres no segmento, prefere o trabalho em casa do que em fábrica, embora reconheça que em domicílio se trabalha mais, “Olha, menina, como eu não me importo de trabalhar muito, eu gosto em casa,
porque eu faço as coisas, comida na hora certa, agora lá na fábrica é mais difícil, porque você tem que sair cedo e chegar de tarde. Que nem eu trabalhei em todas as duas era perto, eu vinha almoçar em casa, mas tinha menina que a gente empregou e ela que tomava conta da casa.”
A entrevistada tem quatro filhos: dois caminhoneiros, um que trabalha no setor de serviços e a mais nova que é manicure. O marido de Idalina é barbeiro aposentado e nunca se dedicou à produção de calçado. Os pais de Idalina também não atuaram no setor calçadista, sendo o pai lavrador e a mãe empregada doméstica. Portanto, encontramos uma banqueira que não tem uma cultura profissional familiar ligada ao setor calçadista, embora, como pude perceber, a banca acaba por ser um empreendimento da família, todos acabam por ajudar um pouco, netos, filhos desempregados, marido aposentado. São os rendimentos da banca que sustentam a casa, onde moram oito pessoas, Idalina e o marido, a filha mais nova e seus três filhos e dois filhos ainda solteiros.
Os netos de Idalina, que trabalham na banca, passaram a impressão que estão ali