4 HUMANIDADE E UNIVERSALISMO MORAL EM HUME
4.2 UNIVERSALISMO, PADRÕES DE AVALIAÇÃO E APRIMORAMENTO
4.2.3 Base afetiva do universalismo moral naturalista
Adriano Naves de Brito (2008) apresentou uma visão naturalista de bases humeanas em seu artigo Hume e o universalismo na moral: por uma alternativa não kantiana. Neste artigo, o filósofo brasileiro sustenta a possibilidade da naturalização da universalidade e da igualdade enquanto valores morais constitutivos. Para isso, o autor contrasta as posições de Kant e Hume, mostrando que, apesar da prerrogativa do alemão quanto a universalização dos juízos morais, Hume brinda-nos com elementos importantes para pensarmos uma moral de base afetiva que caminhe em direção ao universalismo. Dessa forma, ao aceitarmos a centralidade dos afetos em nossos juízos morais, temos de reconhecer também as limitações por eles impostas. Uma delas é a dificuldade de dar uma resposta ao relativismo consequente do reconhecimento de que os juízos devem estar amparados pelos afetos e não o oposto. De qualquer forma, simpáticos a Kant ou a Hume, temos de reconhecer que os agentes morais, em sua vida cotidiana, parecem avessos ao relativismo, o que se confirma na ampla defesa de seus valores morais em detrimento dos valores de outras comunidades morais. Nas palavras de Brito:
O mal-estar dos agentes para com as justificativas subjetivas daqueles que se esquivam do dever moral é evidência suficiente para a constatação de que o relativismo é uma quimera na moralidade. A vida comum dos homens entre si não comporta o relativismo moral e ele não se efetiva em nenhuma comunidade humana funcional (BRITO, 2008, p. 126).
É possível destacar que a busca por uma universalização da moral não significa dedicarmo-nos a um projeto de construção teórica que parte da sensibilidade e pretende alcançar a toda a humanidade, contudo, significa um processo de justificação de um valor que figura enquanto uma exigência de nossa vivência moral. Brito sugere que a universalidade está imbricada em nossos valores, ou seja, esperamos que nossos valores sejam aceitos por todas as pessoas, inclusive aquelas que não fazem parte da nossa comunidade moral, o que justifica o amplo sentimento de indignação que é direcionado àqueles que não compartilham de nossos valores.
Dito isso, o maior desafio para quem pretende justificar os complexos elementos da moralidade humana a partir dos afetos é explicar o fenômeno da normatividade. Brito ressalta que o “aspecto normativo é parte inerente da natureza das distinções morais”, que, para Hume, são válidas, pois estão “fundadas em sentimentos que todos compartilhamos”. A questão que permanecesse, sugere Brito, é: “Mas porque elas devem valer? ” (BRITO, 2008, p. 129) Para o referido autor, é possível dar uma resposta a essa questão associando a perspectiva humeana
com uma teoria evolucionista darwinista. Nesse sentido, os atributos emocionais que nos habilitam ao convívio social seriam uma vantagem evolutiva. Contudo, adverte Brito (2008), vincular a moralidade com a base genômica é coerente com a concepção humeana de virtudes naturais, porém pode gerar conflitos com as virtudes chamadas de virtudes artificiais. As virtudes artificiais, como a justiça, derivam seu valor de sua utilidade, o que requer uma “avaliação racional”. Brito (2008) aponta um risco, a saber, o de que juízos podem estar equivocados e mesmo a crença em juízos falsos influenciam-nos afetivamente.
Fica evidente que, postas as coisas na perspectiva que acabo de descrever, o princípio de determinação das distinções morais descola-se dos afetos em direção à razão. Hume não dá esse passo, que, no entanto, é dado pelos utilitaristas clássicos. A questão é que, numa perspectiva naturalista, a correção de juízos de avaliação moral não pode andar a contrapelo dos sentimentos e nem dispensá-los. Não se sopesa vantagens sem o fiel das preferências do agente (BRITO, 2008, p. 131).
Brito (2008, p. 131) alega que falta em Hume, bem como no naturalismo contemporâneo,
uma “explicação abrangente da origem do valor justamente lá onde o interesse tem de ser contrariado”, ou seja, há uma dificuldade de conciliar indivíduo e sociedade, e o princípio da simpatia, como visto em outro momento nesse texto, possui suas limitações. Para Brito, a “inclinação do indivíduo é não ser excluído da comunidade a que se sente pertencente” e sua ligação com a sociedade “se dá mediante a extensão da moralidade comunitária” (BRITO, 2008, p. 131). A simpatia e suas limitações não podem configurar um obstáculo para a normatividade, afinal, “esse fenômeno não é uma prerrogativa de seres que articulam uma linguagem predicativa como a nossa”, portanto, “tem de poder ser explicado em bases naturais e mediante recursos independentes do tipo de racionalidade inerente à linguagem que caracteriza a nossa espécie” (BRITO, 2008, p. 132). Assim, os homens possuem uma estrutura natural que os capacita
a sentir de forma peculiar. Para Brito, a moralidade surge de elementos básicos da sensibilidade e, embora a efetivação (ou não) da moral dependa da vontade do indivíduo, as reações afetivas de cunho moral independem da nossa aceitação. Também nessa direção, a universalidade é considerada pelo autor como um valor constitutivo de nossa natureza e não uma escolha. Em suas palavras:
a moral, como um sistema do qual todos fazemos parte, porque somos capazes de ter sentimentos de uma certa natureza, não se põe para ninguém como uma escolha. [...] compreenderei a moralidade, lato senso, segundo expus acima, como um sistema de exigências mútuas no qual cada indivíduo está desde sempre inserido e no qual características como a universalidade, que consideramos intuitivamente ser um valor moral fundamental, são parte constitutiva de sua estrutura. Dentro do sistema geral da moralidade convivem sub-sistemas que compreendem desde famílias até nações. O que defendo é que a universalidade é inerente ao modo como os humanos reagem às
afecções morais. Por esse prisma, a universalidade não será vista como algo que os indivíduos podem ou não escolher, mas como um elemento essencial de sua natureza moral e que deveria ser incluído em qualquer descrição satisfatória da moralidade como uma característica humana (BRITO, 2008, p. 132).
O filósofo desenvolve, então, sua teoria moral, na qual pretende esboçar os sentimentos básicos de universalidade e igualdade a partir da análise dos sentimentos morais assimétricos de indignação e culpa. Enquanto a culpa parece limitar-se aos valores compartilhados em nossa comunidade moral, a indignação ultrapassa esta fronteira. Isso ocorre em função da falta de liberdade para escolhermos quais as preferências que regulam nossas reações emotivas às demandas morais, o que justifica a necessidade de universalização dos valores morais de nossa comunidade. Diferente do sentimento de indignação, a culpa e a vergonha são marcas da adesão (afetiva) individual em relação a uma comunidade moral. Tal adesão, bem como a possibilidade de o indivíduo romper seus vínculos com os demais membros da comunidade moral, faz com que ele seja respeitado e prezado nessa comunidade, o que tem por consequência o tratamento igualitário.
Ao considerar os sentimentos de universalidade e igualdade enquanto constitutivos da moral, Brito (2008) evita a incorporação prematura de elementos racionalistas que são comuns às tentativas de universalização da moral. Todavia, o ônus dessa perspectiva é não oferecer uma solução objetiva à questão da normatividade, algo que ele reconhece na conclusão de seu artigo como inerente a naturalização da moral, a saber:
Esse é o custo da naturalização na filosofia prática: a depreciação dos resultados normativos. A descrição feita mostra, apenas, que o sistema da moralidade tende a mover-se de modo a vindicar os valores da universalidade e da igualdade, e que as bases para isso são afetivas (BRITO, 2008, p. 134).
Nesse sentido, pensar a universalidade e a igualdade a partir da assimetria entre indignação e culpa pode auxiliar-nos a compreender a complexidade da relação do indivíduo com a sociedade, bem como dos indivíduos com as comunidades morais. Além disso, a conclusão é auspiciosa para a presente tese, uma vez que abre a possibilidade da naturalização da universalidade moral em termos naturalistas, sem a necessidade de aderir a uma filosofia de tipo kantiana, ou seja, “uma filosofia prática naturalizada, como quer ser a de Hume, pode esposar o universalismo na moral” (BRITO, 2008, p. 134).
Considerando o que foi apresentado no presente capítulo, é possível afirmar que existem inúmeros elementos que revelam aspectos universalistas na teoria moral de Hume e que, em geral, estão calcados na ideia de uma estrutura humana comum. Para Hume, compartilhamos
uma estrutura sensível natural, ou uma natureza humana, e, em função disso, é possível comunicarmos nossos sentimentos através de nossa simpatia natural, vivenciando a felicidade ou o sofrimento alheio. A simpatia, quando amparada pela reflexão, torna nossos juízos morais extensos a toda humanidade e nossos juízos morais, quando adequados, reportam-se a noções gerais amplamente aceitas e desconsidera nossa situação e interesses particulares.
Vimos também que o mérito das virtudes morais depende de sua utilidade ou agradabilidade para as pessoas que são afetadas por elas, e que a utilidade agrada apenas por que possuímos princípios humanitários. Ainda que tenhamos apresentado elementos universalistas da moral de Hume, permaneceu a seguinte questão: como conciliar essa pretensão a universalismo com a pluralidade de juízos e valores morais defendidos por diferentes culturas e em diferentes tempos? Vimos que é possível mapear grande parte dos desacordos sobre questões de valor na moral a partir da análise da base afetiva e cultural que influenciam nossos juízos morais. Em geral, os desacordos são superficiais, e mesmo quando os valores ou costumes parecem contraditórios, Hume acredita que é possível identificar a base que move a ambos, a saber, nossos princípios humanitários. Por fim, foi possível identificar uma noção de conhecimento moral que se supõe compartilhado. Nesse sentido, nosso aprimoramento moral não é apartado da ideia de uma comunidade. Ele deve ser feito dentro de um processo coletivo. Assim, os aspectos universalistas aqui explicitados formam uma base importante para o desenvolvimento de uma teoria normativa essencialmente humeana. No capítulo seguinte empreendemos a apresentação de algumas teorias morais que fizeram uso da noção de “ponto de vista geral” e apresentam alternativas normativas para o modelo naturalista de filosofia moral.