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2.2.1 Dinâmica de forças na linguagem e na cognição

O sistema de dinâmica de forças foi introduzido primeiramente no estudo da linguagem e da Semântica Cognitiva por Leonard Talmy. Neste sistema, estuda-se de que maneira “entidades interagem com relação à força. Incluindo-se nesse contexto o exercício da força, a resistência a tal força, a superação desta resistência, o bloqueio da expressão de força, a remoção deste bloqueio, entre outros” (TALMY, 2000a, p. 409). Trata-se, portanto, de uma generalização da categoria dos causativos e analisa a causalidade por meio de primitivos mais refinados. Estes primitivos fundamentam-se diretamente na experiência humana à respeito da interação entre entidades por meio de algum tipo de força física, mas que podem ser estendidos por meio de metáfora e servem à conceituação de situações psicológicas e sociais — ou seja, nas matrizes conceituais que envolvem os domínios epistêmico e deôntico.

Talmy (2000a, p. 409), defendendo a importância do estudo das dinâmicas de força no âmbito linguístico, ainda argumenta que este é um sistema que encontra expressão não apenas no nível gramatical — por meio das conjunções, preposições e outras classes lexicais fechadas como os verbos modais —, mas também é codificado em classes lexicais abertas em que situações psicológicas e sociais, ou seja, envolvendo pressões psicossociais, são conceituadas. Além disso, dinâmicas de força podem ser vistas atuando na organização discursiva ao direcionar padrões de argumentação e direcionar expectativas discursivas ou sua quebra. A dinâmica de forças, sendo uma generalização dos causativos parece ser, portanto, um fenômeno ubíquo na organização linguística e em seu uso, sendo congruente com a constatação de Shibatani (2002, p. 1) que aponta para o fato de que virtualmente todas as línguas dispõem de meios para codificar a causalidade e que esses meios encontram-se nos mais diversos níveis de representação linguística.

A dinâmica de forças constitui-se, dessa maneira, como uma forma de generalização (via abstração) dos elementos envolvidos numa interação de forças. No contexto da Semântica Cogntiva, com forte tendência à representação imagística dos componentes da conceituação, Talmy (2000a, p. 414) desenvolve um sistema de representação em que são organizados di- ferentes componentes dos padrões de dinâmica de forças. Em primeiro lugar, dá-se destaque para as chamadas entidades de força, ou seja, as entidades que interagem em relação a uma determinada situação de transmissão de forças: representado por uma circunferência, o agonista é aquela entidade que apresenta uma determinada tendência (ao repouso ou à ação); enquanto o antagonista, representado por uma figura côncava, é aquela entidade que opõe-se à tendência de força intrínseca do agonista. A tendência ao repouso é indicada por um pequeno círculo negro, enquanto a tendência à ação indica-se por meio de uma ponteira de seta para a direita, ambos aparecem no centro da circunferência que representa o agonista. Da interação entre a força do agonista e do antagonista, surgem as chamadas resultantes da interação de forças que indicam como se comportam as entidades envolvidas após a transferência de forças: o segmento

de reta com uma ponteira de seta para a direita em seu meio indica que a interação leva a uma ação do agonista; um segmento de reta com um pequeno círculo negro em seu meio indica, por sua vez, que a resultante é o repouso do agonista. Por fim, um sinal de mais (+) indica qual das entidades da interação é mais forte. Um exemplo de como esses componentes podem ser combinados encontra-se na Figura 2, abaixo:

+

(a) Causar

+

(b) Cessar

Figura 2 – Padrões básicos de dinâmica de forças padrão para a causalidade (TALMY, 2000a, p. 415)

O padrão representado pela Figura 2(a) ilustra a interação de forças cuja resultante é a causatividade estendida à causação de movimento. Neste padrão, um agonista mais fraco e cuja tendência de força intrínseca é ao repouso interage com um antagonista mais forte. Resulta dessa interação que o antagonista força o agonista à ação e, pensando num sentido físico, ao movimento. Portanto, este padrão configura-se como um caso particular de causatividade em que o que está em jogo é a capacidade do antagonista de, por meio da transferência de força, colocar o agonista em algum tipo de ação, diferente de seu estado de repouso inicial. O padrão representado pela Figura 2(b), por sua vez, ilustra a interação de forças cuja resultante é a causatividade estendida à causação de repouso. Neste padrão, entretanto, um agonista mais fraco tende à ação e ao movimento, mas é novamente confrontado por um antagonista mais forte. Dessa vez, porém, resulta da interação de forças que o antagonista bloqueia a tendência do agonista à ação, fazendo cessar seu movimento.

Embora apresentem tendências opostas — o primeiro padrão, ao movimento e o segundo, ao repouso —, é possível, todavia, elencar algumas características comuns a ambos os padrões. Trata-se de casos em que o antagonista, sendo mais forte, produz uma mudança na tendência intrínseca de força do agonista. Isto pode ser aplicado tanto a casos em que elementos da natureza atuam sobre objetos, sendo ambos desprovidos de características volicionais como o vento que faz cair uma folha ou uma pedra no caminho que bloqueia o movimento de uma bola; quanto a casos em que existe um agente volicional exercendo força para mudar uma faceta do objeto, como a criança faz rolar a bola com um chute ou seu irmão que deliberadamente bloqueia movimento da bola em direção ao gol. O sistema de dinâmica de forças, embora essencialmente baseado no exercício de força no domínio físico e não volicional, pode ser estendido para abranger aqueles casos em que um agente volicional atua como antagonista na mudança de tendência intrínseca de força de um agonista.

2.2.2 Causa e condicionalidade

Embora não mencionem diretamente a expressão base conceitual em seu artigo, Pander Maat & Degand (2001) servem-se de uma definição básica de causalidade como ponto de partida para o gradiente relacional da causalidade. Interessantemente, utilizam-se de uma definição filosófica de causalidade, mesmo que já estivesse disponível à época os trabalhos de Talmy (1988) sobre os sistemas de dinâmica de forças e sua relação com a causalidade. Ao invés disso, os autores preferiram utilizar-se da definição de causa desenvolvida por Mackie (1965) que determina que pode ser chamada de causa aquela condição que seja uma parte insuficiente, mas necessária de uma condição desnecessária, mas suficiente, ou seja, diante de uma ocorrência que possa ser considerada um efeito, sua causa será aquela condição em conjunto com outras que poderiam propiciar o surgimento daquele efeito.

Certamente, a dinâmica de forças pode ser considerada um caso particular da definição de Mackie (1965), dado que a interação entre corpos e a tranferência de forças entre eles pode ser vista como uma condição que, em conjunto com outras condições favoráveis do entorno, permite que se chegue a um determinado efeito — pretendido ou não. Entretanto, é preciso ter em mente que a definição de Mackie para a causalidade pauta-se essencialmente no desenvolvimento de um formalismo para a investigação e descoberta de causas para determinados eventos no mundo físico; não se trata de uma abordagem voltada para como a cognição humana apreende, esquematiza e categoriza a relação causal, mas como é possível, dentro de um determinado contexto, averiguar quais são as causas para determinados eventos, independetemente das possibilidades de expressão linguística ou conceitual.

Portanto, embora os autores do estudo original deem preferência a definição de Mackie (e isso será respeitado ao longo da réplica de seu estudo e da análise dos dados), o autor do presente trabalho argumenta que seria mais prudente ao analista da causalidade desenvolver uma abordagem que leve em consideração a causalidade como resultado da interação de corpos em um sistema de forças que possibilita também a extensão de seu uso para domínios mais abstratos como a estrutura psicológica humana e as interações sociais. É mais prudente porque baseia-se em princípios da Semântica Cognitiva e desenvolve-se a partir da averiguação de que a causalidade surge na cognição humana por meio da abstração e esquematização de experiências do tipo em que há transferência de forças entre as entidades que lhes permitem causar, cessar, impedir ou mediar a ocorrência de determinados fatos.

Havendo brevemente elaborado descrições das possíveis bases conceituais que podem ser utilizadas para o estudo cognitivo da causalidade, a seção a seguir apresenta os meios de interação entre o conceituador da relação de causa, o sujeito de consciência, e a base conceitual da causalidade, além de descrever de que maneira são geradas as diferentes relações que estão disponíveis no gradiente relacional proposto por Pander Maat & Degand (2001).