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2.1 BASE DA PIRÂMIDE

2.1.5 Base da Pirâmide revisitada (BoP 2.0)

Diante das críticas levantadas pela academia, a literatura da Base da Pirâmide precisava se remodelar. Então, Simanis e Hart publicaram no ano de 2008

“The Base of the Pyramid Protocol: Toward next generation BoP strategy”. Nesse

trabalho, os autores reconhecem o conceito Base da Pirâmide como havia sido formulado por Prahalad e Hart (2002) ainda era focado fora das comunidades carentes, ou seja, os pobres eram apenas reconhecidos como mercados potenciais e seu desenvolvimento social nem sempre era atingido. Diante dessa problemática, os autores argumentam que seria necessário o avanço da teoria para sua segunda geração ou, como ficou mais conhecida, a Base da Pirâmide 2.0 (SIMANIS; HART, 2008).

A segunda geração da Base da Pirâmide, conforme Simanis e Hart (2008, p. 2, tradução nossa) “exige um processo de co-invenção e de co-criação que traga as corporações para perto das pessoas por meio de parcerias com a comunidade”. O

processo de “co-invenção” diz respeito à capacidade das organizações agirem em

conjunto com a população da base da pirâmide para conceber e lançar produtos e, assim, manter o crescimento do negócio com benefícios compartilhados entre as

partes. Já o processo de “co-criação” é evidenciado pelos autores como negócios

culturalmente apropriados e ambientalmente sustentáveis construídos por meio de recursos e capacidades locais.

Com o objetivo de confirmar se estariam contempladas como integrantes da perspectiva BoP as empresas que apenas mantivessem relações profundas com a base da pirâmide, mas não comercializassem seus produtos no mercado BoP, uma vez que em Simanis e Hart (2008) este argumento não estava claramente apontado, foi enviada uma mensagem eletrônica ao principal autor da temática BoP, Stuart L. Hart. Como resposta, o autor informou que:

Certamente uma cadeia de suprimentos inclusiva constitui uma forma de negócio BoP. Alguns até dizem que este é o "padrão ouro", pois ele constrói diretamente a renda dos mais pobres. Como você sabe, no entanto, temos procurado estender este pensando para o fornecimento de produtos e serviços destinados diretamente para os carentes. Então ... você pode pensar em termos de três modelos: os pobres como produtores; os pobres como os consumidores; e os pobres como parceiros (HART, 2014, tradução nossa).

Portanto as organizações passaram de ouvintes profundos dos consumidores, característica das percepções iniciais da BoP, para instituições comprometidas com a população pobre, capazes de manter diálogos profundos com a população, dotadas de novos modelos de negócios com a finalidade de benefícios mútuos. Nessa fase da literatura da BoP, a base da pirâmide mundial passaria a ser vista como parceiros de negócios, atuando como fornecedores, distribuidores, funcionários, além de consumidores (SIMANIS; HART, 2008, HART, 2014). Essas novas características da BoP 2.0 podem ser comparadas aos pressupostos iniciais da literatura BoP no QUADRO 3:

BoP 1.0 BoP 2.0

Base da pirâmide como consumidores Base da pirâmide como parceiros de negócios

Processo de escuta profunda Diálogo profundo

Redução de preços Imaginação expandida

Redesenho de embalagens Capacidades conjuntas

Relações normais mediadas por ONGs Relações diretas facilitadas pro ONGs

Vender aos pobres Negócios conjuntos

QUADRO 3 – PRINCIPAIS DIFERENÇAS ENTRE A BOP 1.0 E BOP 2.0 FONTE: Adaptado de Simanis e Hart (2008).

Através do QUADRO 3, a BoP 1.0 poderia ser relacionada com estratégias de marketing. Porém, o desenvolvimento das pessoas carentes nem sempre era uma das preocupações centrais. Já na BoP 2.0, o conceito vai além ao envolver a comunidade de forma mais profunda do que simplesmente como mercado consumidor. Nesse novo modelo de negócio, as comunidades pobres seriam parceiras com empresas, atuando como fornecedores, trabalhadores, distribuidores, empreendedores, parceiros ou consumidores. Com isso, as populações da base da pirâmide poderiam aumentar seus rendimento e, ainda, fornecer a base para o crescimento dos negócios.

Corroborando os argumentos de que apenas vender produtos e serviços para a base da pirâmide não seria uma solução para a pobreza, Hahn (2009, p. 314, tradução nossa) destaca que:

Parece apropriado considerar a BoP não apenas como um mercado potencial de vendas no final da cadeia de valor, mas também como uma parte integrada da criação de valor. Isso promete gerar maior renda para os pobres, enquanto estabelecem simultaneamente mais potencial de vendas (HAHN, 2009, p. 314, tradução nossa).

De acordo com Jose (2008), para criar modelos de sucesso na base da pirâmide, cinco pontos devem ser levados em consideração: i) fornecer produtos e serviços capazes de atender às necessidades da base da pirâmide de forma singular, pois, como sua população tem capacidade de adquirir uma cesta limitada de produtos e serviços, obviamente devido à sua condição econômica, eles devem, ao menos, serem capazes de melhorar a qualidade de vida dessas pessoas; ii) criar e facilitar o acesso da população pobre aos produtos e serviços por meio de disponibilidade, aumento do poder de compra e diminuição da complexidade dos negócios; iii) garantir a sustentabilidade econômica, para que o negócio seja perene e capaz de resistir a variações de demanda, social, adaptado aos costumes locais, e ambiental, por meio do uso criterioso dos recursos escassos; iv) criar vantagem competitiva para que os produtos direcionados à população da base da pirâmide estejam no mesmo nível dos produtos tradicionais ou, até mesmo, superiores em alguns quesitos; v) desenvolver negócios com potencialidade de ampliação para que não somente uma parte da população em questão seja atingida, mas sim que os demais membros da base da pirâmide sejam beneficiados.

A perspectiva BoP permite várias associações com outras áreas de estudo, tais como: oportunidades de negócios para as empresas atuantes na base da pirâmide (SIMANIS; DUKE, 2014), estratégias para empreendedores e pequenos negócios em mercados BoP (RIBEIRO; SEGATTO; COELHO, 2013); estratégias de marketing (KOLAH, 2014), comportamento dos consumidores de baixa renda (BARKI; PARENTE, 2010), inclusão social e marketing em mercados BoP (ROCHA; SILVA, 2008), discussão crítica sob a perspectiva do marketing (MAJUMDER, 2012), capacidades dinâmicas e BoP (TASHMAN; MARANO, 2010), internacionalização em mercados BoP (SPERS; WRIGHT, 2013), relação entre tecnologia da informação e BoP (CAI; YANG; LI, 2007), aspectos morais e éticos sobre o real impacto da perspectiva BoP para as populações de baixa renda (HERMAIS; CASOTTI; ROCHA, 2013) modelos de negócios e criação de valor social na BoP (SINKOVICS; SINKOVICS; YAMIN, 2014), responsabilidade social corporativa e a BoP

(DAVIDSON, 2009) e dimensões da sustentabilidade e BoP (GOLD; HAHN; SEURING, 2013).

Como pode ser observado, os três últimos estudos mencionados anteriormente buscam uma associação entre a perspectiva BoP e algumas das dimensões da sustentabilidade ou outro elemento relacionado, assim como neste estudo. Por isso, a seção “2.3 Base da Pirâmide e Sustentabilidade”, abordará com o detalhamento esta questão.

Porém, ainda dentro da temática BoP, o próximo capítulo trará algumas considerações encontradas no estudo bibliométrico de Kolk, Rivera-Santos e Rufin (2014), importantes para o desenvolvimento desta pesquisa.