O AJUSTE AOS DADOS
4. BEM-ESTAR, QUALIDADE DE VIDA E DESIGUALDADE
4.1. Bem estar e qualidade de vida
Bem - estar e qualidade de vida são conceitos usados, muitas vezes, como sinônimos, apesar de envolverem arcabouços teóricos distintos. Esta pesquisa adota a perspectiva da qualidade de vida como um conceito mais amplo, não apenas por incorporar as percepções individuais subjetivas (prazeres, felicidade, desejo de realização etc.), comumente associadas ao bem-estar (well-being), mas por expressar um conjunto de condicionamentos à vida de uma pessoa que podem ser percebidas de forma distinta por cada um, justamente devido às particularidades de cada percepção. A despeito das diferenças entre os conceitos, admite-se a possibilidade de estabelecer uma medida de qualidade de vida a partir de indicadores de bem-estar.
Dentre as muitas interpretações possíveis para o conceito o bem-estar, adota-se aqui uma perspectiva simplificadora para o termo, uma espécie de amálgama entre duas concepções, conforme a sugestão de Cohen (1996, p. 29): o bem-estar como um estado desejável ou agradável de consciência (bem-estar hedonista) e o bem-estar como satisfação de preferências, supondo preferências ordenadas hierarquicamente, permitidas por diferentes condições, ou consciência do mundo.
Ao adotarmos esta perspectiva simplificadora de bem-estar, estamos cônscios das implicações da escolha sobre as decisões de políticas de desenvolvimento social. Sabemos, por exemplo, que ambas as perspectivas gerariam questionamentos sobre eficácia de políticas de distribuição de renda, envolvendo implicações teóricas a respeito de como são tomadas as decisões individuais. Acredita-se, porém, que a controvérsia sobre as medidas de qualidade de vida persistiriam em qualquer opção de abordagem adotada, posto que o consenso existente é de que a escolha de medidas de bem-estar, qualidade de vida ou de políticas sociais envolvem juízos de valor.
Neste sentido, os questionamentos enfrentados por todos aqueles que pretendem estabelecer medidas de qualidade de vida são eles próprios resultados de escolhas normativas, sendo necessário, portanto, definir: a) a escolha de indicadores, ou as dimensões da qualidade de vida que devem ser buscadas; b) os critérios de coleta e ponderação destes indicadores; o que nos leva a questão central, c) qual abordagem teórica adotar.
No que se refere à primeira escolha, opta-se pela multidimensionalidade, seguindo a sugestão de Sen (1992; 1997), e percorrendo o mesmo caminho inicialmente proposto pelos
idealizadores do IEQV, discutido nos primeiros capítulos deste relatório. Quanto aos critérios de coleta e ponderação de indicadores, estes são condicionados não apenas pela disponibilidade de dados, conforme discutido no capítulo três, mas também pela opção de abordagem teórica. Embora a introdução do relatório tenha evidenciado o vínculo desta pesquisa com a abordagem proposta por Sen (1992, 1996, 1997), neste item detalha-se um pouco mais este referencial teórico.
Na versão preliminar do relatório da Comissão para Mensuração da Performance Econômica e do Progresso Social (CMEPSP, 2009), os autores destacam três abordagens conceituais possíveis para medidas de qualidade de vida. Uma primeira abordagem, localizada na interface entre a economia e psicologia, baseia-se no conceito de bem-estar subjetivo. Para esta abordagem, o indivíduo é aquele capaz de realizar os melhores julgamentos sobre suas condições de vida, de forma que esta abordagem seja considerada como muito próxima à tradição utilitarista, diferindo dela, porém quando o tema em discussão são as políticas de promoção do bem-estar social (que convencionamos chamar de welfare). Esta abordagem tem grande aceitação por sugerir que a “felicidade” e a “satisfação” sejam objetivos universais, buscados por todas as pessoas. Embora a controvérsia não permita definir, ainda, quais seriam os determinantes desta “felicidade” ou “satisfação”, esta abordagem tem gerado alternativas interessantes de medida da qualidade de vida, a exemplo dos índices de Felicidade quem vem sendo propostos desde os anos 60‟s 12.
Uma segunda abordagem13 indicada pela CMEPSP é a abordagem baseada na idéia de alocações justas. A questão básica é estabelecer um conjunto de variáveis que expressem a qualidade de vida de modo a contemplar as preferências de cada um. Para tanto, é necessário que se defina uma forma de ponderação a partir de um dado ponto de referência entre cada uma das variáveis, observando-se também a percepção de cada um em relação ao seu posicionamento e preferências em cada um destes pontos. Segundo os autores da CMEPSP, a abordagem evita os riscos de se estabelecer avaliações com base em disposições médias a pagar que podem expressar desproporcionalmente as preferências daqueles que estão em melhor situação na sociedade. Do ponto de vista do desenho de políticas públicas, esta abordagem se desdobra em novo grupo de questionamentos: o problema da “igualdade no tratamento e o da equidade no tratamento recebido do Estado” (MEDEIROS; DINIZ, 2008, P.23).
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Para uma introdução a abordagem da felicidade, ver Veenhoven, (2005) e demais artigos do Journal of Happiness Studies, publicado pela Kluwer Academic Publishers, da Holanda.
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A rigor, o relatório menciona em segundo lugar a abordagem das capacitações, deixando a abordagem de alocações justas como terceira menção a fim de discutir políticas sociais. Nesta pesquisa há grande aproximação com a idéia de capacitações, de forma que, não por ordem de importância, mas sim por conveniênia, ela é apresentada em terceiro lugar, seguida de um aprofundamento do debate sobre as derivações desta abordagem.
Uma terceira abordagem, que é mais próxima da proposta desta pesquisa, é a das capacitações (capabilities), atribuída inicialmente a Amartya Sen (1980, 1985, 1986, 1992, 1996, 2000b), um dos responsáveis pelo próprio relatório. A principal característica desta abordagem é seu foco na análise do que as pessoas são efetivamente capazes de fazer ou de ser. Para compreender a perspectiva das capacitações é necessário fazer uma distinção entre realizações (achieved functionings ou achievements) e capacitações (capabilities). Segundo esta abordagem, a justiça e o desenvolvimento devem ser concebidos a partir das oportunidades efetivas que cada um tem para agir e realizar atividades que queiram, de acordo com suas intenções do que se quer ser. Estes possíveis “ser e fazer” (being and
doing) são chamados de “funcionamentos” (functionings) e, tomados em conjunto, são os
atributos que tornam a vida valiosa. A distinção entre realizações e capacitações é, portanto, a diferença entre o realizado e o efetivamente possível, ou seja, as conquistas de um lado e as liberdades ou opções válidas para se poder optar, de outro. (SEN, 1996; ROBEYNS, 2005)
Deste ponto de vista, viver pode ser visto como um jogo de funcionamentos inter- relacionados (vide figura 12), e assim, as realizações das pessoas são vetores de seus funcionamentos. Os funcionamentos relevantes variam de acordo com coisas elementares como adequada nutrição, bom estado de saúde, mortalidade prematura, ou realizações mais complexas, como ser feliz ou ter auto-respeito. A capacidade de realizar funcionamentos (capability to function ou oportunities), que representa as diversas combinações de funcionamentos que uma pessoa pode realizar e reflete a liberdade da pessoa em levar um tipo de vida ou outro (SEN, 1995; 1996).
Figura 12. Representação não dinâmica das capacitações de uma pessoa e seu contexto pessoal
Fonte: extraído, com adaptações, de Robeyns, 2005, p.98
Segundo Robeyns (2005, p. 94), a abordagem das capacitações não é uma teoria que explique a pobreza, a desigualdade ou o bem-estar, embora seja utilizada para avaliar diversos aspectos deste. É um amplo quadro normativo para a estimativa e a avaliação do bem-estar individual, dos arranjos sociais, do desenho das políticas e de propostas de mudança social (vide figura 12). O autor salienta assim as várias possibilidades de utilização do conceito e apresenta inclusive, uma análise das diferentes perspectivas derivadas da abordagem.
Para Robeyns, Amartya Sen e Martha Nussbaum, são os representantes mais significativos da abordagem das capacitações, compartilhando referenciais teóricos e críticas ao utilitarismo, mas perseguindo distintos objetivos, o que os leva a diferentes temas de pesquisa. Nussbaum estaria utilizando a abordagem das capacitações dentro de uma perspectiva legal-moral-política, com o objetivo de estabelecer uma lista de “capacitações centrais” passíveis de serem incorporadas em todas as constituições (ROBEYNS, 2005, p.103). Seu trabalho14, portanto, mostra-se universalista, com pretensões mais pragmáticas que a abordagem de Sen.
Ainda segundo Robeyns (2005), a questão inicial de Sen, “igualdade de que?” (SEN, 1980), se encontra inserida na filosofia política liberal e se apresenta como um contraponto as concepções Rawlsianas de recursos ou utilidade. De tal feita, Sen desenvolve um trabalho empírico, aplicado sobre pobreza e miséria em países em desenvolvimento,
14 Veja-se, por exemplo “Beyond the social contract: capabilities and global justice” (2004) Contexto social
Instituições sociais Normas sociais e legais Outras características e comportamentos Fatores ambientais Etc. Mecanismos de formação de preferências Influências sociais sobre as decisões História e psicologia pessoal Produção não mercantil Mercado Renda Disponível Transferências Capability set Capacitações Oportunidades de ajuste dos funcionamentos realizáveis Fatores que condiciona m as condições de realização individual Bens e servi- ços
E
s
c
o
l
h
a
Realiza- ções (achie- ved functio- nings)Liberdade para realizar (capability to function)
discutindo a escolha social e o desenvolvimento. Nas palavras de Robeyns (2005, p.104), os trabalhos de Sen sob a perspectiva das capacitações mostram-se “mais sintonizados com aplicações empíricas quantitativas e com a medição”, fornecendo recursos interpretativos para alternativas de medidas para a qualidade de vida.
A opção pela abordagem das capacitações se justifica, além das características apontadas acima, pela compreensão de que a expansão da liberdade é tanto um meio quanto um fim para o desenvolvimento, pois as capacitações das pessoas dependem de disposições econômicas, sociais e políticas. Esta expansão deve ser dos diversos e inter- relacionados componentes da liberdade. O Estado não deve apenas fornecer programas, mas sim fortalecer e proteger as capacitações humanas (SEN, 2000b; NUSSBAUM & SEN, 1996). O desenvolvimento de um país, então, é considerado como um processo de eliminação de privações de liberdades, já que as liberdades e direitos desenvolvidos também contribuirão para o progresso econômico. O próximo item discute o papel da desigualdade na qualidade de vida, iniciando com um posicionamento normativo favorável a redução da desigualdade como condição necessária ao desenvolvimento e em seguida, descrevendo algumas tentativas de mensurara a desigualdade através de indicadores sintéticos.