Anexo 7. Escala de Afetos Positivos e Negativos 156 Anexo 8 Escala de Depressão Geriátrica
7. Considerações Finais 123 8 Referências
1.4.1. Bem-estar subjetivo: conceitos e relações
Tornar-se cuidador pode ser um fator ameaçador ao bem-estar subjetivo (BES). Neste sentido, é necessária a compreensão desse conceito. Primeiramente, é importante destacar a distinção entre dois conceitos referentes ao bem-estar. De acordo com Ryff45, a perspectiva de bem-estar que se traduz em felicidade e a que se
traduz em excelência pessoal pertence a diferentes domínios e devem ser analisadas com base em diferentes perspectivas filosóficas. Uma delas é a perspectiva hedonista, a qual assume que o bem-estar está ligado à busca e à satisfação do prazer (BES). A outra perspectiva é psicológica e de natureza eudaimônica que privilegia a virtude ou o senso de ajustamento derivado de sentir-se envolvido com a busca de excelência pessoal (bem-estar psicológico). No presente estudo serão avaliados os domínios referentes aos BES.
De acordo com Neri46, BES inclui vários construtos relacionados à avaliação que o indivíduo faz de sua qualidade de vida. Na taxonomia de Lawton47, BES é um dos quatro domínios de qualidade de vida. Os outros domínios são: competências comportamentais, condições objetivas do ambiente físico e qualidade de vida percebida, sendo, portanto, através da relação entre esses três domínios que o indivíduo avalia seu senso de BES.
Para Diener48, 49, BES é composto por três componentes distintos: a satisfação com a vida, os afetos positivos e os afetos negativos. As primeiras pesquisas consideravam satisfação com a vida como um fenômeno global, mas a partir dos anos 80, esse conceito foi desdobrado, admitindo-se a ideia de que satisfação é também referenciada a domínios específicos como saúde, memória, relações sociais e familiares, finanças e ambiente. As avaliações de satisfação com a vida global e referenciada a domínios são modalidades cognitivas, ao passo que as avaliações de afetos positivos e negativos são processos predominantemente afetivos, sendo que a satisfação com a vida é relativamente mais estável ao longo da vida e as avaliações afetivas são menos estáveis, mudando rapidamente e frequentemente em respostas aos estímulos do ambiente46, 50.
A satisfação com a vida, embora considerada predominantemente estável, é um construto dinâmico, pois, naturalmente o humor das pessoas, suas emoções e julgamentos autoavaliativos mudam com a passagem do tempo. Isso, no entanto, não implica na instabilidade do fenômeno. Flutuações momentâneas não obscurecem um julgamento mais abrangente do que pode ser considerado como o nível mais estável que a pessoa julga caracterizar a sua satisfação com a vida51.
No nível afetivo, as pessoas reagem com afetos positivos e negativos às atividades nas quais estão envolvidas e aos eventos de vida. A felicidade é um julgamento que as pessoas fazem comparando esses dois componentes (equilíbrio afetivo), sendo importante para o BES a preponderância das emoções agradáveis sobre as desagradáveis. A ausência de afeto negativo não é o mesmo que a presença
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de afeto positivo; ambos os tipos de emoções coexistem e variam ao longo de um contínuo49.
O BES elevado inclui frequentes experiências emocionais positivas, raros sentimentos e emoções negativas (depressão ou ansiedade) e satisfação não só com vários aspectos da vida, mas com a vida como um todo. Conforme afirma George50, mais de 50 variáveis específicas têm sido testadas como determinantes do BES. Os estudos sobre BES concentram-se em avaliações dos seus indicadores com diferentes variáveis, em sua maioria sociodemográficas, tais como idade, gênero, nível educacional e social, renda, condição de saúde, dentre outras51.
Alguns estudos mostram que ao longo das idades ocorrem variações nas avaliações de satisfação e no equilíbrio entre afetos positivos e negativos48, 52. Na velhice, os idosos tendem a apresentar melhores avaliações de satisfação do que os jovens, possivelmente graças aos efeitos moderadores da capacidade de ajustar aspirações e metas aos recursos disponíveis e da resistência aumentada à frustração. Nessa fase de vida, uma adequada adaptação está ligada ao equilíbrio entre afetos positivos e negativos, à seleção de alvos positivos para investimento afetivo e cognitivo, à diminuição da intensidade e da variabilidade de experiências emocionais positivas e negativas. E ainda, às melhores capacidades de vivenciar experiências emocionais mais complexas, de nomear e compreender as próprias emoções e as emoções alheias e de selecionar parceiros sociais que representem oportunidade de conforto emocional53.
Em relação às diferenças de gênero e BES, alguns estudos apontam para um aparente paradoxo: as mulheres relatam mais afeto negativo do que os homens, mas relatam a mesma felicidade global que eles. Na tentativa de esclarecer esse paradoxo, Fujita, Diener e Sandvik54 pesquisaram 100 universitários com a proposta de que as diferenças na intensidade do afeto seriam a explicação. Para os autores, parece haver independência entre equilíbrio afetivo (porcentagem de tempo gasto em um estado afetivo) e intensidade afetiva. Se as pessoas que experimentam altos níveis de afeto positivo também experimentam alta intensidade de afeto negativo, é possível que relatem níveis equitativos de felicidade geral. Dessa forma, as mulheres seriam afetivamente mais intensas, sentindo tanto mais alegria quanto também mais tristeza. Os resultados do estudo apoiaram essa hipótese. Parece que mais emoções positivas intensas tendem a contrabalançar mais emoções negativas intensas, quando as mulheres relatam sua felicidade global.
Educação, renda e saúde são apontadas por George50 como fortes preditores de BES, principalmente entre adultos jovens e de meia-idade. Em síntese, o BES é maior entre aqueles que possuem mais recursos, destacando o status socioeconômico, a raça e o gênero. Adultos com mais alto nível de escolaridade e renda, brancos e do sexo masculino têm níveis mais elevados de BES, em média, do que seus pares menos favorecidos.
Outro fator que merece destaque é a saúde, considerada um forte preditor de BES em todas as idades50. Pinquart e Sorensen55 chegaram a essa conclusão em uma meta-análise de 286 estudos, em que foi mostrada a associação entre saúde percebida e BES.
De acordo com Neri46, há evidências de que o BES é associado aos mecanismos de autorregulação do self. Os mecanismos de autorregulação do self são estratégias e crenças aprendidas ao longo da vida, que contribuem para a adaptação às demandas ambientais e intrapsíquicas. Exemplos desses mecanismos são os processos de autodescrição, que incluem o autoconceito, a autoestima, a autoavaliação e os processos de comparação social, o sistema de metas, os mecanismos de enfrentamento e as crenças pessoais de controle e autoeficácia. Tais funções são responsáveis pela manutenção do bem-estar psicológico e pela restauração do equilíbrio psicológico, pois permitem interpretar experiências, iniciar comportamentos, manejar e regular as emoções. Por isso, têm importância capital na construção das experiências de BES56, 57.
Em suma, o BES pode atuar como um mediador psicológico para adaptação às perdas e aos papéis sociais e também pode ser um indicador que reflete como a pessoa se vê em seu estado atual. Destaca-se que, mesmo diante das condições estressantes e consideradas indesejáveis, os indivíduos são capazes de funcionar positivamente em termos psicológicos e alcançar satisfação. O BES um fenômeno complexo, que envolve relações entre variáveis objetivas e subjetivas28.