na direção e na ascese do aperfeiçoamento contínuo. Sucupira man tém essa noção também como herança de sua aproximação com o pensamento pedagógico alemão que elege a
Bildung
como categoria típica daquele pensamento, em seu significado mais preciso de for mação espiritual, integral da personalidade. Na época de Humboldt, lembra-nos o professor Sucupira, essa noção estava baseada nas hu manidades clássicas e no saber filosófico. Combinar essa dimensãodo humanismo com o fervor religioso que tem no classicismo católico fonte segura de inspiração, não exigiu do nosso educador um desvio de curso, e muito menos uma "conversão", como a que ele diagnos ticou tão bem quando se referiu à profunda alteração vivida por Aní sio Teixeira.
A concepção ideal de democracia terá que lidar, portanto, com a idéia de responsabilidade da elite na distribuição dos benefícios auferidos ao conjuoto maior da população que não os pôde auferir. A elite que mais recebeu tem obrigação de
dar.
Esse é o suposto do corolário ético-moral, segundo o qual,à
elite se atribui a responsabi lidade de dizer a quem não sabe, por não ter tido chance de conhe cer, o que deve saber. Responsabilidade se mescla, assim, com senti do de autoridade intelectual oriuoda da situação de quem usufruiu os bens escassos de socialização e a quem é cobrado conduzir o saber da maioria. Este o sentido que informa a concepção de democracia nesta versão de pensamento que constitui parte do universo de valo res concebido segundo os cânones do humanismo católico.Na produção intelectual de Sucupira há um texto que considero um dos mais elaborados de seus escritos em que faz uma exegese da
filosofia da experiência de John Dewey. Sucupira reconstrói com minúcia os argumentos qne sustentam a filosofia
da
experiência emDewey, procede
à
análise lógica na busca de coerência entre seus termos, decompõe o modelo e sinaliza os pontos de maior relevo, responsáveis pela sustentação e pelo lugar que, com justiça, ocupou na constelação filosófica; reconstrói o sistema a partir dos fundamen tos filosóficos e religiosos que o inspiraram para, ao final, enunciar dois ou três pontosà
guisa de "observações críticas", E1aboraodo o que anotou como certo "conflito latente entre sua epistemologia empirista e sua metafísica, entre seu idealismo prático dos valores eseu método estritamente naturalista" , 4 Sucupira nos entrega, finalmente,
a chave para penetrarmos com seguraoça no mundo que lhe foi aber to pelo fervor católico e que fez dele, Sucupira, o intérprete autoriza do e o guardião do humanismo cristão:
( ... ]
ao esforçar-se por libertar o homem de toda referêucia ao supra sensível ou ao sobrenatural e concentrar-se no propósito de promo ver a exaltação e progresso do homem, o naturalismo é uma doutrinaessencialmente antropocêntrica e humanista. Todavia, na medida em que o homem para o naturalismo não passa de um mero processo dentro da natureza, ele se torna francamente anti-humanista quanto
ao posto do homem no cosmo. Porque, como é possível à base do
método científico que encara apenas relações funcionais de causa e efeito descobrir-se um valor especial e único à existência humana dentro do universo que justíficasse esse ato de fé na condição huma na e sua dignidade que é a filosofia de Dewey?'
Todo o esforço do filosofar de Dewey consiste, reconhece Sucupi ra, em procurar ajustar a reflexão filosófica ao 1Úvel dos progressos
da
ciência moderna. Tudo o que podemos conhecer sobre a realida- 4 Cf. Newton Sucupira, 'John Dewey: Uma filosofia da experiência", Re vista Brasileira de Estudos Pedagógicos, out-dez 1960, Vol. 34, n. 80,p. 93.
5 Idem, p. 94.
NeuJton Sucupira e os rumos da educação superior no Brasil
de é a ciência que nos pode proporcionar. Em atribuindo
tal
lugarà
ciência, Dewey instala seu sistema na convicção de que ela pode inter vir nas soluções dos problemas cotidianos. A filosofia deweyana que repele o valor de uma ação imanente, que repele toda contemplação pura, que traduz uma espécie de fuga diante dos problemas da vida, é uma filosofia que deve atirar-seà
arena onde se desenrola a luta quo tidiana, onde se debate a existência humana em seus múltiplos valores. A filosofia tem nessa arena conflituosa, diferenciada, múltipla, a chance de ajudar o homem a encontrar a solução de seus problemas. Nessa formulação, não cabem as certezas doutrinárias, ou a idéia constitutiva do humarúsmo católico de que há um caminho previa mente traçado para os homens e para onde a pedagogia, filosofica mente orientada, deve conduzir. O pragmatismo não pode renunciar
ao caráter essencialmente hipotético de todo um sistema de valores
que deve orientar a existência humana. O humarúsmo cristão, em sua versão tomista, não pode conviver sem a certeza do credo, e não se permite, por princípio, suportar a imprevisibilidade de um universo de valores construído em caráter provisório, checado nas contingên cias do quotidiano, alterado e re-instalado em processo de contínua negociação. Esta me parece a chave que nos permite compreender, não só o diálogo
das
duas grandes matrizes de pensamento que dis putaram primazia na constituição do sistema educacional brasileiro, como as matizadas sugestões que desse encontro - e, por que não dizer, confronto -, o pensamento social brasileiro vem armazenan do como estoque de inteIJlretações do que seriam o Brasil e a cultura brasileira.É
imbuído da religiosidade cristã, cultivada na certeza da submis são da criatura ao Criador, e da precedência tomista da revelação sobre a descoberta científica, que Sucupira se aventura a identificar o que seria o humanismo brasileiro como aquele que se deriva da men sagem cristã. E se arrisca postular, com a certeza dos que crêem, quevirtudes humanas mais características, sem o cristianismo que nos educou, que modelou o mais Íntimo de nosso ser nacional. [ ... ] um
humanismo brasileiro que ignore suas raízes cristãs não será, nem verdadeiramente humanismo, nem autenticamente brasileiro '
6 Cf. Newton Sucupira, "Um humanismo brasileiro, seu conteúdo e seu papel como ideário educacional", s/d, p. 1 1 , mimeo.
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