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6. Problema, questão e objetivos de investigação

8.7 A Web 2.0 e aprendizagem colaborativa

8.7.3 Blogs – uma ferramenta Web 2.0

Fazer aqui uma breve referência a estudos que tenham utilizado os blogs como artefacto tecnológico de produção e reprodução de conhecimento, adquire toda a relevância, pois nesta pesquisa os professores foram convidados a construir blogs de turma ou de escola.

154 Segundo Gomes (2005) o fenómeno dos blogs na Internet remonta a 1997 quando foi pela primeira vez cunhado o termo “weblog” por Jorn Barger. De acordo com esta investigadora os weblogs na educação são utilizados enquanto estratégia didática ou enquanto recurso a ser consultado, sendo em ambos os casos também objeto de investigação. À data deste artigo já a multiplicidade de blogs era enorme, decorrente dos diversos tipos de autoria (individual ou coletiva, de grupos), dos seus objetivos (comerciais, institucionais ou “diários pessoais”) ou ainda da natureza da informação que através deles é veiculada que pode ser lúdica, informativa, política, de intervenção cívica, cultural, … Assim, para esta autora, um blog46

Pode também constituir um registo digital das reflexões e/ou emoções do seu autor ou apresentar-se com um espaço de troca de ideias e confronto de perspectivas, procurando o escrutínio público e incentivando a participação dos “bloggers” que o visitam. (Gomes, 2005, p. 312)

Os blogs, enquanto ferramentas de publicação de páginas na web, são muito fáceis de utilizar mesmo por pessoas que não possuam conhecimentos técnicos de publicação na Internet, que passam a poder fazê-lo de forma gratuita, utilizando http://www.blogger.com ou no http://blogs.sapo.pt (Gomes 2005).

A participação num blog como espaço de expressão pessoal e de manifestação de posições ou de partilha de reflexões é uma forma de “dar voz” aos seu autores, podendo também ser uma forma de abrir a porta à colaboração e intervenção de outros membros da comunidade (Gomes, 2005).

Neste artigo Gomes (2005) aponta para uma grande diversidade de utilizações educativas dos blogs, como uma ferramenta de grande flexibilidade que é:

a) como recurso pedagógico: (i) um espaço de acesso a informação especializada ou (ii) um espaço de disponibilização de informação por parte do professor – casos em que a seleção e indicação dadas pelo professor têm um papel preponderante;

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Nesta dissertação utilizo a designação de “blog”, a que atualmente é mais utilizada, como sendo equivalente à “weblog”, a primeira designação dada a esta funcionalidade “Web 2.0”.

155 b) como “estratégia pedagógica”: (i) portfólio digital; (ii) espaço de intercâmbio e colaboração; (iii) espaço de debate – role playing; (iv) espaço de integração – nestes casos o papel central cabe aos alunos, apesar de acompanhados pelo professor.

Gomes & Lopes (2007) sublinham o papel dos blogs como espaço de intercâmbio e de colaboração, uma vez que possibilitam a autoria múltipla, mas também a “postagem” de mensagens ou a escrita de comentários a posts de outros. A facilidade de acesso aos blogs, de qualquer parte do mundo através da Internet, mostra o grande potencial que estes artefactos tecnológicos podem ter em projetos de colaboração entre escolas não só do nosso país, mas também de diferentes países

O blogue constitui assim não só uma ferramenta de publicação mas também uma ferramenta de comunicação permitindo o desenvolvimento de projectos de colaboração e partilha mas também de debate e confronto de perspectivas. (Gomes et al, 2007, p.127)

De acordo com um estudo integrativo realizado por Coutinho (2008) sobre as ferramentas Web 2.0, através dos artigos publicados sobre esta temática entre 2004 e 2008, em revistas ou atas de conferências, num total de 48 artigos analisados, os blogs são a ferramenta mais utilizada, numa percentagem de 62,5%. Apenas dois destes artigos são relativos ao 1.º CEB e ao pré-escolar, debruçando-se de forma analítica sobre os blogs. Segundo esta investigadora, é no Ensino superior que se regista uma maior diversidade de ferramentas utilizadas sendo que

dos 16 estudos realizados no Ensino Superior, 10 se reportam a cursos de formação de professores (6 na formação inicial e 4 na formação pós graduada). (p. 76)

Apesar de todas as ferramentas estarem representadas nos estudos empíricos, é natural que sejam os blogs a ferramenta que mais surge neste tipo de artigos (14 em 24), bem como nos relatos de experiências (10 em 12) (Coutinho, 2008).

Os blogs são considerados pelos autores dos artigos analisados por Coutinho como uma ferramenta multifacetada, com características que lhe permitem

156 “desempenhar papel positivo no apoio ao processo de ensino / aprendizagem” (Coutinho, 2008, p. 79). Para esta investigadora os blogs, com as suas múltiplas funcionalidades, como ferramentas da Web 2.0 que são, assim como todos os restantes artefactos da “web social”, convidam a uma maior e mais autêntica democratização da WWW através da partilha e da interatividade que proporcionam, na medida em que de consumidores passamos a produtores de conteúdos online. Estas potencialidades são especialmente relevantes no domínio da educação, uma vez que a maioria dos jovens tem um domínio significativo destas ferramentas e a escola pode assim deixar de ser um espaço fechado ao mundo exterior, “como um espaço onde o conhecimento se constrói numa combinação subtil entre o formal e o informal entre a aprendizagem e o divertimento.” (Coutinho 2008, p. 84).

Magalhães & Carvalho (2008) consideram que um blog é

uma página na Web, com um endereço atribuído, suportado por um software de acesso livre, em que o seu criador/autor (individual, grupo de pessoas ou uma instituição) coloca entradas individuais, escreve um “post”, com frequência variada, sobre um tema do seu interesse, de forma livre e independente (…) permite uma facilidade de utilização, desde a sua criação, gestão e manutenção, até à facilidade de acesso através de qualquer computador com ligação à rede. Possui ferramentas de publicação que permitem entradas frequentes, não só de texto, mas de vídeo, de fotografias, de áudio, de Webcomics, etc. (p. 285)

Esta ferramenta oferece assim possibilidades de produção e partilha de informação, favorece a aprendizagem colaborativa, através da expressão individual e da criatividade que se traduz no germinar de ideias, da respetiva partilha, na integração de contributos de outros – a colaboração e a socialização – conduzindo também à elaboração de materiais diversos com os contributos de todos os participantes do contexto de aprendizagem – neste caso concreto os alunos de 11º ano, da disciplina de francês (Magalhães et al, 2008).

Esta foi uma experiência com resultados muito positivos, uma vez que os alunos, apesar de estarem pela primeira a contactar com este tipo de tecnologia, não mostraram qualquer tipo de dificuldades ultrapassando frequentemente as propostas que lhes eram

157 apresentadas. Uma vez que os alunos se envolveram significativamente no trabalho proposto, a comunicação e a socialização entre eles aumentou, acabando por se revelar nas aprendizagens que realizaram na disciplina em questão (Magalhães et al, 2008).

Com o objetivo de estudar de que modo as tecnologias contribuem para a aprendizagem da leitura e da escrita, Villas Boas (2007), desenvolveu a sua tese de mestrado sobre a construção de um blog com os seus alunos, numa turma do 1.º CEB. Usando uma metodologia qualitativa em que recorreu à observação participante e à análise do blog, esta professora investigadora conclui que o blog foi uma ferramenta integradora de diversas outras ferramentas tecnológicas (o processador de texto, a folha de cálculo e o programa de apresentação), possibilitando a articulação entre as diferentes áreas curriculares e possibilitando a interdisciplinaridade.

O processador de texto ajudou a ultrapassar dificuldades de motricidade fina e de apresentação dos trabalhos, favorecendo assim o incremento da autoestima por parte dos alunos com mais dificuldades de aprendizagem.

Também a leitura em voz alta sofreu uma melhoria através do recurso ao podcast e posterior disponibilização no blog

verificou-se um interesse crescente em ler correctamente as histórias para posterior gravação. Escutar a sua voz nos computadores e saber que podia ser escutada em todo o mundo era motivo de um esforço suplementar e entrega total ao projecto a desenvolver. (Villas Boas,

2007, p. 74)

A visibilidade social dada aos trabalhos publicados no blog contribuiu para que os alunos com mais dificuldades de aprendizagem se empenhassem para além do expetável pela professora, prolongando o trabalho no computador mesmo em momentos de recreio

O blogue deu maior visibilidade ao trabalho realizado aumentando, por isso, a responsabilidade dos alunos e o esforço por fazerem sempre melhor. A existência de comentários e a resposta a esses comentários permitiu desenvolver o sentido crítico e estimulou os alunos a responderem a muitos dos desafios propostos. (Villas Boas, 2007, p. 74)

Também a experiência relatada por Torres & Besugo (2007) sobre o blog de uma turma, que teve uma duração de dois anos, no 3º e 4º ano de escolaridade da turma,

158 com o título “Os sabichões da Azeda”, mostra como o facto de os alunos terem uma audiência e de escreverem para amigos virtuais, que depois viriam a conhecer, se revelou uma experiência muito significativa em termos da comunicação com outros dando um significado social imediato às suas produções escritas. Este autores referem que

as relações humanas foram muito importantes na experiência vivida. A experiência não teria sido certamente tão rica se a esta comunidade não se tivessem juntado outros elementos que, em muitas ocasiões, viviam as alegrias e desafios da turma com a mesma intensidade da professora e dos seus alunos. (Torres et al, 2007, p.40)

Para além da audiência constituída pelos três amigos virtuais que a turma fez, e que na maior parte das vezes comentavam os posts no blog, este grupo de alunos foi também desafiado a relatar a sua experiência com o blog, num encontro de professores, o que fez com que os alunos se sentissem muito valorizados, tendo alargado deste modo o seu leque de experiências. Para esta turma o blog tornou-se num centro em torno do qual a vida da turma, as suas alegrais e tristezas, as atividades que realizavam e o que aprendiam, passou a ter visibilidade para além das quatro paredes da sala de aula (Torres et al, 2007).

Paulo Brazão (2008) realizou um estudo etnográfico conducente à obtenção do grau de doutor em educação, junto de uma turma do 4º ano de escolaridade, com o objetivo de compreender a cultura emergente pelo envolvimento no trabalho com Weblogs, através da sua imersão no campo empírico, enquanto investigador. Esta investigação permitiu-lhe estudar as repercussões na cultura até então estabelecida da integração desta nova ferramenta tecnológica através (i) da observação, compreensão e análise do processo de apropriação dos Weblogs pelos alunos, (ii) analisar os artefactos resultantes do trabalho desenvolvido, e as respetivas implicações na construção social das aprendizagens e ainda (iii) descrever os papéis assumidos pelos atores envolvidos neste contexto de aprendizagem.

Para este investigador o Weblog assume nitidamente um lugar de interação entre o do trabalho da sala de aula e o exterior, o mundo, através da web

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Afirma-se com espaço de comunicação entre a escola e o mundo, criado e mantido pelos alunos, num claro desafio ao currículo, ampliando o espaço de actuação da escola.(Brazão, 2008, p. 4)

Na sua pesquisa Brazão (2008) compreendeu que os Weblogs se tornaram geradores de “produtos culturais” espelhando por um lado o currículo oficial e por outro as vivências e as situações reais, autênticas e significativas para aquele grupo turma. Frequentemente os Weblogs tornaram-se o fulcro de debate no grupo contribuindo desta forma para a construção do conhecimento.

As tecnologias (computadores, acesso à Internet, blogs, power points), neste caso concreto, contribuíram para criar um novo contexto de aprendizagem, com maior flexibilidade e de caracter transdisciplinar

permitiram percursos de aprendizagem autónomos, o acesso directo a fontes de informação e à pluralidade cultural do mundo, a partir do aluno. (Brazão, 2008, p. 294)

Segundo Brazão (2008), aquela era já uma sala de aula não tradicional, em que se vivia num ambiente de construção social das aprendizagens – um paradigma sócio- construtivista – de acordo com os princípios preconizados pelo Movimento da Escola Moderna. Os Weblogs vieram trazer para aquela sala de aula um artefacto tecnológico mediador da construção de conhecimento

Assim, a actividade em Weblogs veio acrescentar algo mais à cultura daquela sala que foi em meu entender, a possibilidade de olharmos o envolvimento dos alunos nesta actividade, como uma emergente comunidade de prática. A partir daí foi possível entender os Weblogs enquanto parte integrante de um reportório partilhado de uma cultura emergente. Um produto cultural concebido dentro da cultura daquela sala mas simultaneamente com uma relativa autonomia, face aos constrangimentos da cultura escolar. (p. 295)

O contexto de sala de aula em que ocorreu este estudo, um contexto não tradicional e inovador, como é caraterístico das salas de aula em que os professores se norteiam pelos princípios pedagógicos do Movimento da Escola Moderna, permite-me estabelecer uma relação com o pensamento de Harasim (2012), que já referi anteriormente. De acordo com esta investigadora, os professores associados às primeiras

160 práticas de ensino on-line foram professores inovadores que já faziam trabalho colaborativo com os seus alunos e já trabalhavam por projetos.