218 Idem, p.187.
Republicano Catarinense (PRC). Por aproximadamente quatro anos – de novembro de 1889 até meados de 1894 –, as posições dominantes do campo político, juntamente com os cargos públicos, foram disputadas acirradamente entre os agentes com capital e carreira políticos mais antigos – em sua maioria reagrupados no Partido União Federalista (PUF) –, e os novos agentes colocados em cena pelo governo militar nacional ou promovidos por sua ligação com os clubes republicanos. Estes possuíam majoritariamente um capital delegado e/ou convertido. Em relação aos capitais econômico, cultural e social, os dois grupos mais ou menos se igualavam.
Tal antagonismo entre republicanistas e federalistas, contudo, não se constituiu imediata e definitivamente nesses termos. Como se viu, a adoção do novo regime em Santa Catarina foi seguida por uma onda de adesões, por diversas idealizações sobre o consenso nacional e por uma retórica inclusiva que visava transformar todos em republicanos. As fraturas começariam a aparecer no início do ano seguinte, quando da dissolução das Câmaras Municipais. Nesse momento, os liberais adesistas ficaram descontentes e ressentidos por serem destituídos dos cargos que ocupavam e substituídos por republicanistas, principalmente porque o domínio dos Conselhos Municipais, através da Lei Cesário Alvim, garantia o controle da máquina eleitoral e assegurava a vitória da situação. Ainda não apareceria, porém, uma divisão entre as forças emergentes e os adesistas.
A cisão que formaria um partido de oposição só viria em julho, quando ocorreu a indicação dos candidatos para o Congresso Nacional. Uma questão de conflito de interesses: os republicanistas queriam uma chapa exclusiva; os adesistas uma composição mista. Aqui começa a substituição da retórica inclusiva do “somos todos republicanos” pela retórica purista que procura definir quem é “mais republicano” e, portanto, quem seria mais capaz de governar a república e deveria fazê- lo. Essa retórica tornar-se-á predominante e levará à construção e disputa pela identificação de “verdadeiros republicanos”, desembocando na representação que entrou para a historiografia e que opõem os “republicanos históricos” aos “monarquistas disfarçados de federalistas”. Quando prevaleceu o exclusivismo, os descontentes liderados por Elyseu Guilherme da Silva e Manoel José de Oliveira convocaram uma reunião no Hotel Brazil para formar uma coligação predominantemente de comerciantes e profissionais liberais com experiência nos assuntos políticos e administrativos, denominada União Nacional.
Seguiu-se um grande confronto entre governo e oposição através de panfletos, de boatos e, principalmente, dos jornais: o República contra a sessão livre do Jornal do Comércio e A Tribuna Popular. A principal crítica republicanista afirmava que ainda não era o momento para surgir outro partido. Em resposta, os oposicionistas acusavam-nos de exclusivismo e denunciavam as características da lei eleitoral vigente. E o República replicava demonstrando os benefícios que o novo regime trouxera em tão pouco tempo ao estado, enquanto os monarquistas nunca se empenharam em resolver aqueles antigos problemas, como a desobstrução do Tabuleiro.
Essas disputas se repetiram ainda duas vezes no ano de 1891. Em fevereiro, por causa da eleição para o legislativo estadual e, em agosto, devido ao pleito para juízes de paz, superintendente e conselheiros municipais. A oposição organizava-se então no Partido União Federalista (PUF), criado em substituição à União Nacional. Como na votação anterior, a vitória coube à situação, que controlava as mesas eleitorais. A diferença foi que, em agosto, os federalistas recomendaram ao eleitorado a abstenção, em vista da impossibilidade de vencer. Como se pode perceber, as fraturas, os conflitos, os comportamentos ligados à topologia de desvios tendiam a ocorrer mais frequentemente e a tornarem-se mais visíveis nos momentos de maior tensão, como no caso dos acirramentos eleitorais e dos enfrentamentos armados.
A partir de então, já não são mais todos republicanos, embora tal discurso permaneça. O campo político passa a se configurar como uma disputa constante entre um nós e um eles, com duas identificações principais em construção: a dos “republicanos mais sinceros” em oposição a dos “possíveis monarquistas mascarados”, sendo que cada grupo procurava atribuir esta ao adversário e aquela a si mesmo. Contudo, é preciso ressaltar que os motivos que opunham os dois partidos não geravam uma divisão entre restauradores de um lado e republicanos históricos de outro, como costuma aparecer na historiografia. Ao contrário, ambos eram republicanos. Daí que:
Os conflitos vividos na capital catarinense apontam não para o retorno à Monarquia, mas para um realinhamento das forças e rumos no interior do próprio regime republicano. A definição da nova elite política ocorreu principalmente através dos embates travados em torno de interesses e personagens particulares, mais em função de objetivos eleitorais do que de convicções ideológicas. Convivendo com
práticas ligadas a princípios pouco definidos, alianças casuísticas, perseguições políticas e truculência com adversários, exonerações, calúnias, fragilidade de convicções, falsas notícias, desmentidos, etc., a República como fato consumado e que atingia a todos esteve muito mais ligada à questão de definição e controle do estado do que à preocupação com os destinos da nação brasileira.220
Logo, os conflitos entre os dois partidos não se davam por discordâncias de cunho ideológico ou programático, como bem apontara Schutel, embora se possam encontrar pequenas divergências nos programas divulgados por cada partido. Enquanto o PRC apresentava seu apoio incondicional à forma republicana – por ser a única capaz de aliar “liberdade com autoridade” – e ao sistema federativo, pugnando por isso pela autonomia dos estados;221 o PUF dispunha-se a lutar pela mais ampla e completa autonomia municipal, base do verdadeiro sistema federativo, defendendo inclusive a municipalização da polícia.222 Propunha ainda uma modificação no sistema de impostos e no eleitoral, adotando a representação da minoria e a divisão do estado em distritos eleitorais. Como já visto, os federalistas também se referiam mais à democracia e ao “governo do povo pelo povo” do que os republicanistas. Quando surgem como partido de oposição, sob o nome de União Nacional, contrapunham-se ao PRC por sua posição quanto ao fim da ligação entre Estado e catolicismo. Estes defendiam a liberdade de consciência e de religião, aqueles acreditavam na obrigatoriedade da fé católica. Mudaram de opinião, porém. O programa do PUF passava a defender o respeito às crenças religiosas de cada um.
Esse tema pode indicar outra diferença entre os dois grupos. A relação mais estreita dos federalistas com a religião católica e a aproximação entre os republicanistas e espíritas kardecistas. Tal fato pode ser aferido pela presença regular de artigos espíritas nas páginas do jornal República, principalmente no ano de 1898, assinados por J.S, os quais apresentavam tal doutrina como salvação para a anarquia223 e