2 REVISÃO DE LITERATURA
2.2 A S R EFORMAS DA C ONTABILIDADE P ÚBLICA EM P ORTUGAL
2.2.1 Breve Abordagem
Para além da influência das reformas da NGP, Portugal entrou na União Europeia em 1986, pelo que tudo fazia prever uma reforma da contabilidade pública portuguesa àquela data (Nogueira & Carvalho, 2006). Porém, as alterações esperadas não foram imediatas na contabilidade pública.
Esse processo iniciou-se em 1990, com a conhecida RAFE (Nogueira & Jorge, 2015). Esta aproximou o sistema de contabilidade pública ao sistema utilizado pelas empresas privadas, permitindo a introdução de novos sistemas contabilísticos nas diferentes entidades públicas. São de salientar dois diplomas fundamentais: a Lei n.º 8/90, de 20 de fevereiro - Lei de Bases da Contabilidade Pública, que aprovou os princípios orientadores da reforma da Administração Pública; e o Decreto-Lei n.º 155/92, de 28 de julho - Regime de Administração Financeira do Estado (Carvalho & Ribeiro, 2004).
Este último diploma tinha como objetivos a modernização da administração pública, a implementação de uma maior e melhor racionalização da despesa pública, o cumprimento da legalidade, a promoção de um eficiente controlo das despesas públicas e, finalmente, a obtenção de uma maior e mais oportuna informação financeira. Este regime tinha como medidas necessárias para a concretização dos cinco objetivos enunciados: a descentralização a nível administrativo e financeiro; a modificação da estrutura do orçamento do Estado em termos de códigos de classificação económica das receitas e despesas e revisão do processo de elaboração do orçamento; a diminuição do sistema de controlo orçamental prévio e consequente aumento do controlo contínuo; a revisão das fases de realização das despesas e do registo contabilístico; e a
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obrigatoriedade de se produzir não só informação financeira, mas também informação sobre a situação económica e patrimonial (Fernandes, 2009).
Assim, após a publicação destes dois diplomas - a Lei de Bases da Contabilidade Pública e o Regime de Administração Financeira do Estado, passou a ser obrigatório para os organismos com autonomia administrativa e financeira a implementação de um sistema contabilístico idêntico ao das empresas privadas, isto é, idêntico ao então Plano Oficial de Contabilidade (POC). Desta forma, e segundo Fernandes (2009), após 1992 verificaram-se quatro situações:
1. A existência de serviços públicos com autonomia administrativa e financeira que passaram a utilizar totalmente o POC, situação que se verificou em alguns organismos da administração central e nas Universidades;
2. A existência de serviços para os quais foram aprovados, e passaram a utilizar, um Plano Oficial de Contabilidade específico. Assim, foram aprovados quatro Planos:
Plano de Contabilidade para as Instituições Particulares de Solidariedade Social (PCIPSS), em 1988;
Plano de Contabilidade para as Instituições de Segurança Social (PCISS), em 1988;
Plano de Contabilidade para o Sector da Saúde (PCSS), em 1991; e Plano de Serviços Municipalizados (POCSM), em 1993.
3. A existência de serviços para os quais se iniciou a elaboração de um Plano Oficial de Contabilidade específico que não chegou a ser aprovado, devido à posterior publicação de um novo Plano Oficial de Contabilidade para toda a administração pública. São exemplos os casos do Plano de Contabilidade para as Autarquias Locais (que foi mais tarde publicado) e do Plano de Contabilidade para as Instituições de Ensino Superior Público.
4. A existência de serviços com autonomia administrativa e financeira que não cumprem com a nova reforma da contabilidade pública, isto é, continuam apenas com um sistema de contabilidade na base de caixa.
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Neste contexto, e para colmatar esta situação, a contabilidade necessitava de um plano que integrasse um conjunto de contas, princípios contabilísticos, critérios de valorimetria e documentos de prestação de contas para toda a Administração Pública. Assim, em 1997, foi aprovado o primeiro Plano Oficial de Contabilidade Pública (POCP), pelo Decreto-Lei n.º 232/97, de 3 de setembro, revogando todos os planos sectoriais que estavam em vigor.
Na opinião de Fernandes (2009, p. 158) a publicação POCP,
marca a passagem de uma contabilidade pública tradicional, cujo principal objetivo era a execução e controlo do orçamento, para uma contabilidade pública moderna com informação económica, financeira e patrimonial que sirva de base à tomada de decisões e, à avaliação das entidades públicas relativamente à utilização com eficiência, eficácia e economia dos recursos públicos, contribuindo, assim, para a implementação da New Public Management.
De uma forma não explícita, o próprio preâmbulo do POCP destaca a influência da NGP e a introdução de mecanismos de accountability nas reformas financeiras e contabilísticas da Administração Pública portuguesa. O ponto 3 deste diploma salienta a importância da análise da despesa pública tendo em conta os critérios da NGP: legalidade, eficiência, eficácia, economia, clareza e transparência.
O POCP é de aplicação obrigatória a todos os serviços e organismos da administração central, regional e local que não tenham natureza, forma e designação de empresa pública, bem como à Segurança Social (artigo 2.º do POCP). De acordo com Carvalho (1997, p. 301), o POCP “é um plano oportuno dada a necessidade de uma homogeneização dentro da Administração Pública, independentemente de pequenas adaptações sobretudo a criação de subcontas devido à existência de diversos sectores da Administração Pública com funções muito específicas”.
Tendo por base o n.º1 do artigo 5º do POCP e atendendo às especificidades ligadas aos diversos subsectores da administração pública, foram posteriormente publicados quatro planos de contabilidade sectoriais, designadamente:
Plano Oficial de Contabilidade para as Autarquias Locais (POCAL): Decreto-Lei n.º 54A/99, de 22 de fevereiro;
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Plano Oficial de Contabilidade para o Sector da Educação (POC Educação): Portaria n.º 794/2000, de 20 de setembro;
Plano Oficial de Contabilidade do Ministério da Saúde (POCMS): Portaria n.º 896/2000, de 28 de setembro; e
Plano Oficial de Contabilidade das Instituições do Sistema de Solidariedade e de Segurança Social (POCISSSS): Decreto-Lei n.º 12/2002, de 25 de janeiro.
O Quadro 2 sintetiza os Planos Oficiais de Contabilidade para o sector público atualmente em vigor.
Quadro 2: Normalização Contabilística no Sector Público
Estrutura do Sector Público Planos Oficiais de
Contabilidade Sector Público Sector Público Administrativo Administração Central Educação POC-Educação Saúde POC-Saúde Economia POCP …
Segurança Social POC-ISSSS
Administração Local POCAL
Sector Empresarial
Empresas Públicas e Empresas
Municipais SNC
Fonte: Fernandes (2009, p. 176), adaptado.
Apesar destas últimas mudanças terem ocorrido no início dos anos 2000, avizinha-se agora uma nova alteração ao sistema de contabilidade pública. De acordo como o Comité de Normalização Contabilística Público (CNCP) (2013), no seu documento preliminar, está a ser desenvolvido o Sistema de Normalização Contabilística – Administrações Públicas (SNC-AP).
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Sobre este novo sistema Carvalho et al. (2014, p. 46) afirmam que o processo “será aplicável a todas entidades da Administração Pública que não revistam a natureza de empresas públicas ou entidades do SEL2, e cuja receita provenha fundamentalmente do Orçamento do Estado ou de receitas fiscais, numa lógica redistributiva”. Desta afirmação pode concluir-se que este sistema irá substituir o atual POCP e todos os planos sectoriais em vigor neste momento. De acordo com Carvalho et al. (2014), o SNC-AP irá proporcionar mais e melhor informação, quer para auxiliar a tomada de decisão, quer para a melhoria da accountability, através da prestação de contas, e para responder às exigências de informação dos vários stakeholders.