SUPORTE SOCIAL (Trabalhos)
4 O IMPACTO DA POBREZA MULTIDIMENSIONAL NAS VIVÊNCIAS UNIVERSITÁRIAS
4.4 Breve síntese do impacto da pobreza multidimensional
A Educação Superior no Brasil se construiu como demanda das elites, restrita às famílias abastadas. No entanto, as políticas de democratização deste nível de ensino que se consolidaram com a Lei de Cotas (BRASIL, 2012) nos instigam a refletir sobre como a pobreza, numa perspectiva multidimensional, tem impactado na permanência deste novo perfil de
estudante, advindo das camadas populares, que passa a ocupar este espaço e que exigem que a universidade, antes rebento de alunos da elite, se reconfigure para recebê-los (LESSA, 2017).
A Figura 5 sintetiza o impacto das implicações psicossociais da pobreza no rendimento acadêmico, tanto no que se refere aos dados qualtitativos quanto aos quantitativos. Desta forma, percebe-se que a defasagem na educação básica, assim como no domínio de língua estrangeira, a falta de tempo para os estudos, falta de dinheiro para comprar material e equipamentos, ambiente inadequado de estudo, moradia distante ou deslocada do local de origem cosntituem implicações psicossociais da pobreza para o rendimento.
Figura 5 – Implicações da Pobreza Multidimensional no Rendimento
Fonte: elaborada pela autora.
Nota: IPM: Índice de Pobreza Multidimensional.
Observa-se ainda na Figura 5 que os estudantes insatisfeitos com o rendimento acadêmico percebido possuem maiores níveis de pobreza multidimensional geral e nas dimensões habitação, saúde e aspectos subjetivos. Estas análises inferem que as privações materiais, a falta de acesso aos serviços públicos de saúde e a disponibilidade da alimentação também são aspectos importantes para que o aluno consiga obter êxito nos estudos. No que se refere aos aspectos subjetivos, vale ressaltar que os insatifeitos com o rendimento são os que mais vivenciam discriminação cotidiana, inclusive pelo desempenho insatisfatório tal qual relatado por alguns entrevistados, e têm piores índices de equilíbrio emocional. Esta questão sugere que não possuir uma boa performance pode ser fator de exclusão. Além disso, percebe- se uma íntima relação entre as questões emocionais e o sucesso acadêmico.
A ideologia meritocrática não restringe sua influência apenas no acesso ao Ensino Superior. O mérito prevalece no meio acadêmico, ancorado na culpabilização do pobre, naturalização da pobreza e competitividade (GUARESCHI, 2013), como único responsável
pelo desempenho dos estudantes. Desta forma, segundo os ditames meritocráticos, ser bem- sucedido ou fracassar vai depender unicamente da capacidade e esforço de cada um. Esta teia ideológica culpabiliza unicamente o aluno pela sua performance acadêmica, consequentemente, as desigualdades educativas e sociais são escamoteadas.
Nesse contexto assimétrico, para Bertolini, Amaral e Almeida (2019) há grandes diferenças de patamares das bagagens trazidas da educação básica entre os alunos das escolas públicas e particulares. Mais que isso, entre os cotistas egressos das escolas públicas federais e estaduais. Destarte, aliados às desigualdades educativas, as desigualdades sociais apontadas na pesquisa de Valente e Barry (2017), também são imprescindíveis para se compreender os percursos acadêmicos e seus desafios. A Figura 6 apresenta o panorama geral de como a pobreza multidimensional impactou nos grupos pesquisados.
Figura 6 – Impacto da pobreza multidimensional nos Grupos
Fonte: elaborado pela autora.
Conhecer os índices multidimensionais de pobreza, suas dimensões e seus impactos nos diversos grupos possibilita um melhor planejamento e atuação das políticas assistenciais na universidade conforme as dimensões e grupos elencados na Figura 6. Em nossa amostra, vimos que o IPM impacta de igual forma nas duas universidades, no entanto a UFC é mais pobre em relação aos aspectos subjetivos. Este fato pode se explicar a partir das diferenças entre os modos de vidas juvenis nos grandes centros urbanos e no interior do estado, o que favorece que haja
menor impacto subjetivo devido às relações de solidariedade, proximidade, situadas em contextos menos díspares nas regiões interioranas.
Já em relação ao sexo biológico, os homens possuem maiores níveis de pobreza multidimensional na dimensão educação, embora possuam os mesmos patamares de renda, o que sugere a reprodução das desigualdades entre os sexos na valorização do capital cultural através dos rendimentos, o que estimula as mulheres a construírem mais capital cultural para a inserção equânime no mercado de trabalho. Além disso, as desigualdades entre gêneros são reproduzidas também no âmbito acadêmico.
Entre os grupos de bolsistas e não bolsistas, os resultados sugerem que embora multidimensionalmente mais pobres no índice geral e na dimensão saúde, os estudantes bolsistas mantêm o índice dos não bolsistas no que se refere à dimensão educacional. No entanto, essas diferenças irão impactar na aprendizagem. Quanto aos grupos de satisfeitos e insatisfeitos com o rendimento, já foram discutidos na Figura 5.
A partir do acesso dos grupos historicamente marginalizados pós-políticas afirmativas se impõem uma série de tensionamentos que impulsionam o campo universitário a rever suas regras, reconstruir seus códigos cognitivos e simbólicos. Para uma efetiva democratização, deve-se atentar para as questões promotoras da permanência, nas suas dimensões material e subjetiva, desse novo perfil de aluno. Para tanto, os antigos códigos perpetuados historicamente através da supremacia da cultura de elite precisam ser redimensionados a partir da valorização das diferenças e identidades culturais para legitimar a ocupação desses espaços pelos alunos pobres e cotistas, reconhecendo-os como sujeitos de direito ao considerá-los em sua concretude social e cultural (ALMEIDA et al, 2012), com suas peculiaridades e particularidades. Desta forma, o capítulo seguinte versará sobre a PAE e suas contribuições para a permanência dos estudantes pobres, assim como para o combate às implicações psicossociais da pobreza neste processo.
5 ASSISTÊNCIA ESTUDANTIL: O IMPACTO DA POLÍTICA INSTITUCIONAL